À frente da Fundação Cidade das Artes, um dos mais importantes equipamentos culturais do país, Daniela Santa Cruz vem conduzindo uma gestão marcada por visão estratégica, compromisso público e inovação. Presidente da instituição, ela atua na interseção entre cultura, cidadania e desenvolvimento, reposicionando a Cidade das Artes como um polo vivo de criação, acesso e diversidade cultural no Rio de Janeiro.
Nesta entrevista, Daniela reflete sobre o papel da cultura como direito fundamental e motor de desenvolvimento humano, social e econômico, aborda os desafios de gerir um equipamento de escala metropolitana, discute os caminhos para inovar no entretenimento carioca e analisa a importância de pensar a programação cultural de forma plural e conectada ao território da Barra da Tijuca.
A conversa também passa por temas estruturais, como políticas públicas culturais, formação de plateia, sustentabilidade financeira, governança moderna e parcerias estratégicas, além de destacar os diferenciais da Cidade das Artes como um hub multilinguagem e os métodos que sustentam uma gestão contemporânea, baseada em escuta, dados e diálogo constante com a sociedade.
Uma entrevista que revela não apenas a gestora, mas uma visão clara de futuro para a cultura no Rio de Janeiro.
Chico Vartulli – Como você define cultura?
Daniela Santa Cruz – Defino a cultura como um ativo estratégico de desenvolvimento humano, social e econômico. Ela organiza a nossa identidade, gera pertencimento e impulsiona a economia criativa. Para mim, a cultura não é algo acessório nem elitista; é a infraestrutura simbólica de uma cidade e um direito fundamental. Na minha gestão à frente da Cidade das Artes, penso a cultura como uma plataforma de acesso, diversidade e impacto contínuo, devolvendo ao cidadão um serviço público que nos humaniza e nos conecta.
Chico Vartulli – Ser presidente da Cidade das Artes é um grande desafio?
Daniela Santa Cruz – Sem dúvida. É uma missão que encaro com vigor e responsabilidade, pois se trata da gestão de um equipamento de escala metropolitana e arquitetura monumental. Vejo-me como uma zeladora desse patrimônio, até porque muitas vezes é preciso reforçar que o patrimônio público deve ser tratado como um tesouro, e não explorado sem o devido cuidado. O grande desafio está em equilibrar excelência artística e sustentabilidade financeira, garantindo a democratização do acesso e a relevância social do espaço. Operar esse “gigante de concreto” exige visão de médio e longo prazo e uma governança profissional, capaz de mantê-lo como um organismo vivo e pulsante.
Chico Vartulli – Como inovar no entretenimento no Rio?
Daniela Santa Cruz – Inovar, para mim, passa por reposicionar o entretenimento como uma experiência integral, e não apenas como um espetáculo isolado. Busco integrar pensamento crítico, curadoria inteligente e o cruzamento de linguagens, ocupando cada fresta do complexo com diferentes formatos. O Rio tem uma potência criativa imensa; meu papel como gestora é estruturar essa potência com estratégia e escala, unindo o erudito ao popular e transformando o espaço em um território de contemplação e vivência.
Chico Vartulli – Como buscar opções culturais para o nicho da Barra?
Daniela Santa Cruz – A Barra é uma região diversa e em constante expansão, e minha estratégia é consolidar a Cidade das Artes como o seu coração cultural. Busco mapear as demandas reais do território para oferecer uma programação plural: de grandes produções e festivais a atividades educativas e programação familiar. O segredo está em oferecer conteúdo de altíssima qualidade, aliado à conveniência e à segurança que o morador busca, sem jamais subestimar a inteligência e o repertório cultural do público local.

Chico Vartulli – Que sugestões você daria para aprimorar o Rio das Artes?
Daniela Santa Cruz – Acredito que precisamos fortalecer as redes entre os equipamentos culturais e descentralizar a produção artística. A cultura deve ser tratada como uma política de Estado, com planejamento, indicadores de impacto e continuidade institucional. Sugiro ampliar as parcerias público-privadas e investir fortemente na formação de plateia. O “Rio das Artes” se consolida quando entendemos que a cultura é nossa principal vitrine para a retomada do protagonismo cultural e do humanismo na cidade.
Chico Vartulli – Quais são os grandes diferenciais da Cidade das Artes?
Daniela Santa Cruz – O principal diferencial é a escala única e a versatilidade absoluta. Temos uma arquitetura emblemática e uma das melhores acústicas do mundo, mas o que realmente nos destaca é nossa vocação como hub multilinguagem. Poucos espaços no Brasil conseguem abrigar, simultaneamente, grandes musicais, shows, exposições, eventos ligados à economia criativa, stand-ups, espetáculos de dança nacionais e internacionais, além de eventos corporativos. Somos um centro integrado de difusão e formação artística, reunido em um único território.
Chico Vartulli – Como se manter atualizada para uma gestão moderna?
Daniela Santa Cruz – Busco equilibrar minha formação jurídica com a sensibilidade para as artes, mas uma gestão moderna exige escuta ativa e benchmarking constante. Atualizo-me por meio da análise de dados, do diálogo permanente com artistas, produtores e público, além do estudo de novos modelos de governança e financiamento cultural. Estar conectada às transformações sociais e tecnológicas é essencial para liderar com relevância, transparência e uma visão clara de futuro.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação



