O texto, de autoria da Companhia Os Buriti, é sensível, emocionante, poético, reflexivo, crítico e contemporâneo. Valoriza a inclusão e a diversidade ao estabelecer um diálogo entre teatro e dança. A dramaturgia sublinha a importância de garantir acessibilidade e visibilidade às pessoas cegas e surdas por meio da trajetória da norte-americana Helen Keller, destacando como o carinho e o afeto podem transformar vidas — como ocorreu no encontro da protagonista com sua professora, Anne Sullivan. Esse contato foi profundamente transformador, pois mudou radicalmente a existência de Keller, que passou a ser tratada com amor e cuidado por sua mestra. Foi por meio desse vínculo que aprendeu a língua de sinais tátil, possibilitando a aquisição de conhecimento, novas formas de comunicação e sua inserção no mundo.
O elenco apresenta uma atuação comovente e amplamente merecedora de elogios. Naira Carneiro interpreta Helen Keller. Já a personagem Anne Sullivan é vivida por duas atrizes: Camila Guerra (intérprete-criadora) e Tainá Baldez (atriz substituta). As intérpretes atuam com qualidade e emoção, associando à palavra falada um conjunto de movimentos coreográficos acompanhados por expressões faciais e gestuais precisas. Os movimentos são síncronos, equilibrados e proporcionais, contribuindo para a construção da narrativa. Teatro e dança se fundem de forma orgânica. Projeções exibidas sobre um fundo preto — especialmente figuras geométricas relacionadas às cenas — também auxiliam na narrativa. As atrizes estão unidas, sincronizadas e afinadas, dominando o palco com intensa movimentação e ocupando todos os seus espaços. A comunicação com o público é clara e eficaz, resultando em atuações belas, emocionantes e dignas de aplausos.

A atriz surda Renata Rezende também integra o espetáculo, trazendo ao palco a linguagem em Libras e contribuindo para a construção de um contexto autobiográfico. Sua presença cria um diálogo paralelo entre o período em que viveram as personagens — os anos 1890 — e os dias atuais. Atuando em conjunto com as demais intérpretes, Renata demonstra pleno entrosamento em cena e amplia a dimensão inclusiva da montagem, tornando-a acessível ao público surdo. O encontro entre as atrizes ouvintes e a atriz surda é harmonioso e potente.
A direção de Eliana Carneiro privilegia o texto e oferece às atrizes liberdade cênica para realizarem interpretações comoventes e movimentos coreográficos sensíveis, equilibrados e bem articulados com gestos e expressões faciais.
A cenografia, assinada por Rodrigo Lélis, é minimalista e funcional, composta por um fundo preto que serve como tela para projeções de imagens e por poucos elementos cênicos, como mesa, cadeiras e baldes.
Os figurinos, criados pela Companhia Os Buriti, são simples e de bom gosto, além de favorecerem a mobilidade das atrizes em cena.

As coreografias, criadas por Eliana Carneiro, são criativas e originais, apresentam um belo desenho coreográfico, dialogam diretamente com o contexto da peça e conferem dinamismo ao espetáculo.
A trilha sonora original, composta por Diogo Vanelli, é predominantemente instrumental e cria uma atmosfera de intensa emoção, com sonoridade poética e melodiosa.
A iluminação, criada por Camilo Soudant, apresenta um refinado desenho de luz que valoriza as interpretações do elenco. Em conjunto com a música e as coreografias, contribui para estabelecer o ritmo e o dinamismo do espetáculo, variando de acordo com o contexto de cada cena.
Depois do Silêncio é um espetáculo que articula palavra falada e movimentos coreográficos, promovendo acessibilidade e visibilidade às pessoas cegas e surdas. Reúne atuações comoventes e uma harmonia exemplar entre direção, texto, cenografia, figurinos, trilha sonora e iluminação.
Excelente produção cênica!


