Entre bastidores, ensaios e temporadas que atravessam anos, Guilherme DelRio construiu uma trajetória marcada pela multiplicidade artística e pela persistência em manter o teatro brasileiro pulsando. Ator, diretor, dramaturgo e produtor cultural, ele é daqueles profissionais que não apenas ocupam o palco, mas também ajudam a erguê-lo, muitas vezes com recursos próprios e uma convicção inabalável na força das histórias nacionais.
À frente da produtora DelRio Realizações Artísticas, o artista tem investido especialmente em textos de autores brasileiros — com destaque para a comédia — resgatando dramaturgos importantes e apresentando novas leituras ao público contemporâneo. Trabalhos como Em Nome do Filho, indicado ao Prêmio Papo Mix da Diversidade, e a recente retomada de As Loucas de Copacabana, tributo ao dramaturgo Gugu Olimecha, entre outros espetáculos, consolidam sua atuação como um dos nomes que unem criação e viabilização de projetos no circuito teatral carioca. Essa peça está atualmente em cartaz no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, até final de fevereiro, onde DelRio divide o palco com Narjara Turetta, Danton Lisboa, Rose Scalco, Andi Teixeira, Marcos Oliveira, Isabella Barros e convidados especiais, com direção de Pia Manfroni.
Mais do que revisitar repertórios, DelRio também se destaca por abrir espaço para novos talentos e por apostar em produções que dialogam com temas contemporâneos, da diversidade às transformações das relações familiares. Sua carreira revela um percurso construído passo a passo, em que a experiência de décadas como professor, ator e produtor se entrelaça na defesa de um teatro acessível, popular e conectado à realidade brasileira.
Nesta entrevista ao jornalista Rodolfo Abreu, Guilherme DelRio fala sobre o equilíbrio entre arte e produção, relembra momentos decisivos de sua trajetória, comentando os desafios do mercado cultural e refletindo sobre a importância de valorizar a dramaturgia nacional, mantendo viva a tradição da comédia e abrindo caminhos para novas gerações de artistas.
Acompanhe a entrevista.
Rodolfo Abreu: Você é ator, dramaturgo e produtor, tendo construído uma trajetória sólida e diversa na cena brasileira. Como essas diferentes funções dialogam entre si no seu processo criativo e de que forma cada uma delas influencia as escolhas artísticas que você faz hoje?
Guilherme DelRio: Na verdade, eu sempre pensei, desde mais jovem, em ser cantor. Eu sempre fui muito ligado à música, e eu conheço muito de música. E eu queria cantar, e eu não sabia como fazer isso, como chegar para ser um cantor. E aí eu fui estudar teatro, porque eu também frequentava teatro desde muito jovem. E eu comecei também a gostar muito de ver, de assistir teatro e ver os atores e atrizes em cena interpretando. E também cantavam, né, às vezes. Então, o teatro era um caminho. E aí eu cursei artes cênicas na UniRio, me formei em ator e professor de artes cênicas. E comecei a lecionar na rede municipal, da prefeitura por muitos anos, mais de 30 anos. Paralelamente a isso eu fui fazendo teatro e cantando às vezes… fiz shows de música, e enfim, fui fazendo de tudo um pouco, e depois comecei a produzir, para poder estar, conhecer, né? Dentro desse hall das artes cênicas, então fui fazendo de tudo um pouco, uma coisa obviamente se ligava a outra, e isso foi delineando esse meu trabalho artístico. Desenvolvi de dez / doze anos pra cá essa coisa da produção e às vezes eu estou em cena e produzindo, às vezes eu estou só produzindo. Então, acho que tudo isso que eu faço; produção, escrever textos, também já tive experiência de direção, de atuação, uma coisa tá ligada na outra e isso me completa enquanto artista.
Rodolfo Abreu: A peça As Loucas de Copacabana, que você produziu com Isabella Barros, retorna ao público carioca no Teatro Cândido Mendes. O que essa nova temporada representa para você, especialmente depois do sucesso das apresentações anteriores?
Guilherme DelRio: As Loucas de Copacabana é uma comédia do grande Gugu Olimecha, que eu conheci quando era vivo e resolvi fazer uma homenagem a ele, na ocasião dos 10 anos de morte do Gugu. Comecei a procurar um texto do Gugu, eu já tinha vontade de fazer alguma coisa dele já há bastante tempo. E aí, pesquisando, perguntando inclusive à Helena Werneck, a viúva dele, que também é atriz, eu encontrei esse texto, que na verdade, originalmente, ele se chama Uma Louca de Bom Sucesso. E aí, eu achei interessante que poderia ser, juntamente, eu conversando com a direção, poderia ser As Loucas de Copacabana. E é maravilhoso porque eu comecei fazendo a produção sozinho, em 2024, e nós estreamos no Cândido Mendes, uma estreia maravilhosa, uma temporada muito bacana. Depois, já no Teatro Dulcina, eu também tive um outro sócio, maravilhoso, Bruno Islan, que também foi um grande parceiro de produção. E, enfim, nós paramos, aí a Isabella entrou, e aí, enfim, é o ano de 2025. Eu não fiz esse espetáculo e voltamos agora, e agora com a parceria com a Isabella Barros, que além de ser uma grande amiga, é uma grande profissional. Está sendo ótimo fazer essa temporada, a temporada tá muito boa Eu tenho outros projetos, obviamente, mais pra frente um pouquinho. Enquanto isso, as loucas de Copacabana, que é uma delícia e é uma homenagem ao Gugu Olimecha.
Rodolfo Abreu: Como você falou esse trabalho é um tributo ao dramaturgo Gugu Olimecha, que deixou um legado importante na comédia brasileira. O que pode dizer desse tipo de comédia de época, de autores nacionais?
Guilherme DelRio: Eu já montei João Bethencourt, já montei Augusto Pessoa, já montei Fernando Giusti, montei texto meu e eu gosto de trabalhar com texto de autor brasileiro, e de preferência comédia. E o Gugu fez parte. Eu cresci da minha adolescência vendo os programas de humor do Gugu que ele fazia para a televisão. Ele foi redator na Globo e eu acompanhava esses programas de humor. É um humor maravilhoso. Lógico que hoje em dia esse humor está bem diferenciado, mas ainda é um humor que funciona muito, que o público gosta muito, apesar de não ser tão politicamente correto. Mas eu acho que é um momento da dramaturgia que não pode ser esquecido. Tem que ser mostrado, e daí as pessoas vão tirar suas conclusões a respeito de como as coisas eram mostradas. Mas as pessoas continuam rindo até hoje desse humor da década de 90. É uma alegria fazer Gugu Olimecha, assim como foi uma alegria fazer João Bethencourt e os outros autores. E espero montar novos autores brasileiros, valorizando a nossa cultura.
Rodolfo Abreu: Como produtor e também integrante do elenco nesta peça, quais foram os desafios para equilibrar os aspectos artísticos e logísticos dessa montagem?
Guilherme DelRio: Ah, pois é. Então, você montar um espetáculo, você ser o produtor e ser ator é uma tarefa difícil. Mas eu já tenho uma certa facilidade de lidar com isso, porque eu tenho pessoas que trabalham comigo já há um bom tempo, são pessoas confiáveis, responsáveis, profissionais Me ajudam muito. Mas eu sofro um pouco com essa coisa de querer ver tudo OK, ver tudo certinho, montagem do cenário, horário, essas coisas. Chego no teatro e procuro ver tudo para ver se está tudo correto, se está tudo certinho, se os profissionais chegaram. Às vezes a gente fica um pouco estressado. Mas é uma grande alegria você entrar em cena, estar tudo OK. Autamos, e no final tem os aplausos. Aí você vê que o que você tá fazendo tá funcionando e está deixando as pessoas felizes. Enfim, o teatro tem essa magia, é muito bacana.
Rodolfo Abreu: A peça tem um clima de vaudeville moderno, repleto de confusões, muito humor e situações inesperadas, sendo ambientadas nos anos 90 em Copacabana. Que elementos dessa estética você acha que mais ressoam com o público hoje em dia?
Guilherme DelRio: Eu acho que até hoje nós gostamos de ver (inclusive até na vida real), essas confusões, esses chamados quiprocós. Situações engraçadas, com finais inesperados ou com finais previsíveis. Eu acho que isso faz parte da vida. Essa coisa que tem do vaudeville: do entre-e-sai, do tempo da comédia, do ritmo dos personagens estarem sempre envolvidos em alguma situação diferente, estranha, engraçada, ou uma situação inesperada. Então é muito gostoso, porque isso faz parte da vida. Eu acho que o público se identifica com isso. O público ri bastante e aplaude também. É a vida, né? É a vida real.
Rodolfo Abreu: Falando em produções que marcaram sua trajetória, o seu espetáculo Em Nome do Filho — que esteve em cartaz no Rio e foi indicado ao Prêmio PAPO MIX da Diversidade — reflete uma linguagem contemporânea cuja temática aborda também a inclusão. Como você vê a importância desse espetáculo dentro da cena teatral atual e como foi a recepção do público?
Guilherme DelRio: O espetáculo Em nome do Filho, agora em 2026, completou dez anos da primeira montagem. E eu considero, eu já fiz várias temporadas, eu considero realmente, dentro desse teatro com a temática LGBTQIA+, é um espetáculo que agradou e agrada muito ainda muitas pessoas, diante da história da peça. Elas refletem, porque é uma história de amor, que também tem humor. É uma história muito bonita, contemporânea, porque, na verdade, conta a história de um filho que se reencontra com um pai numa sauna e eles não se conheciam. Por conta desse encontro, chama-se Em Nome do Filho. Além do pai tem um outro relacionamento amoroso, que também é um reencontro. É uma peça, eu acho, que agradou a muitos por ter essa temática de mostrar o ambiente de uma sauna gay em todas as suas versões sem camuflar essa realidade. É um espetáculo para mim que é eterno. Ano passado teve uma temporada. Ano retrasado também. E sempre com muita receptividade. O público sempre comparece, acho que teve gente que assistiu mais de uma vez. E é um espetáculo que eu escrevi com a direção do Marco Miranda e que é o meu xodó. É isso.


Rodolfo Abreu: A montagem de Em Nome do Filho também impulsionou novos talentos. Como você vê, como produtor, a abertura de oportunidades de mercado para novos atores?
Guilherme DelRio: Em O Nome do Filho, na questão de elenco, tivemos algumas coisas talvez diferenciadas. Abrimos portas para novos talentos, jovens atores, modelos. Em todas as temporadas que fizemos, tivemos algumas mudanças de elenco. Então tivemos atores que estavam entrando no mercado de trabalho, outros eram modelos, tivemos também ator portador de nanismo, aliás que é excelente, o Fabiano Costa. E tudo isso eu acho que é importante, trabalhar com jovens talentos, trazê-los para a cena, apresentá-los ao público. O Em Nome do Filho é isso, é um espetáculo que tem dez anos e que concorreu a um prêmio em São Paulo, Papo Mix, da diversidade. Só de ter sido indicado foi maravilhoso. É isso, é um espetáculo que é atemporal e em breve ele vai estar de volta.
Rodolfo Abreu: Outra peça que você dirigiu, “Circuncisão em Nova York” de autoria de João Bethencourt, também fez muito sucesso ao contribuir para a promoção da difusão da cultura judaica, além da valorização LGBTQIA+. Como foi estar à frente desta produção?
Guilherme DelRio: Circuncisão em Nova York, que é um texto de um grande autor também de comédias, um autor brasileiro, que é o João Bethencourt. Eu o conheci na faculdade de teatro, onde era professor, orientador da UniRIo. Ele faleceu e eu também tinha vontade já de montar o texto do João. Pesquisei e encontrei esse texto. Fui até a família e consegui autorização para que montasse. Nós começamos o espetáculo com a direção de um diretor, ator paulista, Jax Lagoa, em seguida, como eu tive que fazer uma substituição no elenco, um pouco mais para frente, o Jax não pôde mais ensaiar essas novas pessoas. Eu já era assistente de direção e assumi a direção do espetáculo. Fizemos uma carreira também vitoriosa, muito interessante, porque era uma família judia, uma família até moderna, que vivia em Nova York e tinha uma filha homossexual e que recorria a uma fertilização, inseminação artificial, para poder ter um filho com a companheira dela. É lógico que isso, dentro de uma família judia, causava um certo rebuliço, mas um rebuliço muito bem colocado pela dramaturgia do João. Foi um espetáculo que me deixou muito feliz. Eu não atuei, só produzi. Eu tinha um elenco muito bom. Tivemos dois elencos muito bons e a gente até está com planos de voltar com esse espetáculo. Eu e a Isabella Barros devemos voltar talvez esse ano. E tratava o tema com muita suavidade, era uma comédia, mas tratava o tema de uma maneira muito equilibrada, e fazia com que as pessoas saíssem do teatro refletindo sobre essa questão das novas famílias. Foi bem interessante, é um grande texto.



Rodolfo Abreu: Sua produtora, DelRio Realizações Artísticas, tem realizado produções relevantes, divulgando a cultura e textos brasileiros. Quais são os critérios que você usa ao escolher projetos para produzir?
Guilherme DelRio: Como eu falei anteriormente, eu procuro autores nacionais, bons textos, de preferência comédias, enfim, para que a gente possa montar esses espetáculos. Eu uso geralmente recursos próprios. Eu ainda não consegui patrocínio em edital. Tento, mas a gente ainda não conseguiu. Mas a gente faz, eu acho que é bacana a gente fazer. Então eu já posso dizer que eu tenho um currículo de espetáculos, um teatro de repertório bem interessante que eu posso montar os espetáculos em qualquer momento. E além desses espetáculos que você citou, eu também produzi Diário de Bordo, que foi com a Isadora Ribeiro, que fazia um monólogo com três personagens, com o texto da filha dela, adaptado, a Maria Sampaio. Foi um espetáculo bem bacana. Também escrevi um outro espetáculo chamado Luz Vermelha, que também foi uma montagem muito interessante. Era uma pegada diferente, meio que influenciada pelo Plínio Marcos. Um texto mais denso, forte. Não era uma comédia. Também produzi e apresentamos, com duas temporadas. Eu procuro escolher textos bons e que eu acho que vão funcionar. Já montei, como falei, Fernando Giusti, Dei a Elsa em Você e Continuo Dando a Elsa, que eram histórias de drag queens também, foram trabalhos muito bacanas. Dois textos dele muito bons, com músicas… era um mini musical. Enfim, meu orgulho de todos os trabalhos que a minha produtora fez até agora. Muito feliz com todos eles.



Rodolfo Abreu: Ao olhar para sua carreira, quais foram os momentos decisivos que poderia mencionar que considera que foram divisores de água em sua trajetória?
Guilherme DelRio: Eu acho que o divisor de água nessa minha carreira foi quando eu me assumi mesmo enquanto produtor teatral, porque eu tive que lançar a mão dos meus recursos, de investir sem saber se eu teria lucro ou não. Enfim, como eu tenho uma vida já estabilizada, então eu posso ter essa coisa de produção de teatro, essa realização de produzir teatro mais tranquilo. Eu faço isso com muito prazer, muita alegria, procurando fazer o melhor. Apesar de, lógico, a gente sempre recebe muitas críticas que quando vem um produtor sem patrocínio realizar coisas, as pessoas acho que se incomodam, mas também eu deixo elas se incomodarem. Eu já me incomodei com muitas coisas. Tudo isso passa. Mas eu vou continuar correndo atrás dos editais para conseguir patrocínio. Enquanto isso não acontecer, vou tendo sócios maravilhosos como o Bruno Islã, Isabella Barros e outros que possam colaborar e estar junto nessa irresistível aventura que é o teatro. É lógico que eu tenho outros projetos que não posso revelar, projetos bem interessantes que já estou inclusive com o texto na mão, mas fizemos apenas uma leitura. Um espetáculo que é adaptado, mostrando a vida de um autor de novelas muito famoso. É adaptado de um livro desse autor, mas eu não posso revelar. É um espetáculo bem denso, forte, passado na década de 70, da ditadura. Enfim, é uma surpresa.



Rodolfo Abreu: O mercado cultural está sempre se expandindo com muitos jovens se formando e chegando neste meio. O que você falaria para atores e produtores independentes que estão começando agora e sonham em ver seus trabalhos em cartaz no circuito cultural do Rio de Janeiro?
Guilherme DelRio: É, eu acho que as pessoas que querem entrar no mercado de trabalho, no teatro, no cinema, na televisão, eu acho que elas têm que correr atrás. Se é um sonho, você tem que ir atrás do seu sonho. Não desistir do sonho. É difícil? É. Mas, então, você tem que se preparar, você tem que estudar, você tem que ler. Enfim, você tem que se aperfeiçoar. E daí as coisas vão ficar mais fáceis para você poder atuar dentro desse mercado tão competitivo. Mas eu desejo boa sorte a todos e é assim que a vida é. A gente tem que correr atrás sempre.


Entrevista por Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Imagens: Divulgação
Acompanhe Guilherme DelRIo: @delriorealizacoes2026
SERVIÇO – As Loucas de Copacabana
Teatro Cândido Mendes – Ipanema
5 e 12 de fevereiro (quintas) e 20 e 27 de fevereiro (sexta) às 20h
Acompanhe o instagram da peça: @asloucasdecopacabana







