O texto é livremente inspirado no conto “A outra morte”, de Jorge Luis Borges. 

A dramaturgia é de Marcelo Flecha, que se caracteriza por apresentar um texto potente, denso, crítico, ficcional, contemporâneo, que reflete sobre as relações entre história e memória, preservação e apagamento, verdade e ficção.

O texto trata de um tema sensível: as práticas de tortura num governo ditatorial de um país latino-americano. Ainda que de caráter ficcional, o texto expõe a perseguição aos grupos políticos de esquerda que participavam da luta armada e tentavam resistir frente aos desmandos autoritários dos militares. Diversos integrantes dessa esquerda armada, que realizavam sequestros, roubos, saques, entre outras táticas, foram perseguidos, presos, torturados e muitos desapareceram. A narrativa dessa história e a construção da sua memória é a questão central do texto.

Um escritor e sua assistente iniciam uma pesquisa para a escrita de um novo conto. Eles tentam reconstruir a trajetória de Pedro Damian, estudante de arquitetura, que participava de uma organização armada clandestina de esquerda que queria derribar um regime militar latino-americano, sendo preso e torturado. Durante o trabalho de investigação, o escritor agiu como um detetive, percorrendo pistas, sinais e se deparou com versões distintas sobre o personagem, que geraram controvérsias. Primeiramente, ele obteve a informação de que Damian foi preso e, ao ser torturado, delatou seus companheiros e passou a vida em busca de redenção. Foi um traidor. Num segundo momento, o escritor obteve a informação de que Damian foi morto durante a luta armada. Morreu como herói. Visões divergentes, silêncios e contradições com as quais ele teve que lidar para construir a narrativa do seu conto.

Foto: Ayrton Valle 

O elenco é constituído por Cláudio Marconcine, Tássia Dhur, Lauande Aires e Kátia Lopes.

No conjunto, o elenco funciona bem, com destaque para Cláudio Marconcine como o inquieto escritor, determinado em desvendar o imbróglio sobre Damian, e Tássia Dhur como a assistente, que está sempre ao lado do escritor para que ele não desista, e não se perca na construção da memória. Lauande Aires interpreta Ernesto, Frederico e Pedro Damian de forma adequada. Ganha destaque o momento em que interpreta o torturado sob um lençol branco e os gemidos da dor. Por fim, Kátia Lopes faz um correto espectro.

A direção é de Marcelo Flecha que realizou as marcações precisas e certeiras, e deu uma direção à correta interpretação dos atores. 

Os figurinos criados por Marcelo Flecha são adequados e de bom gosto.

A cenografia criada por Marcelo Flecha  reconstitui a residência de Pedro Damian. Observam-se vários móveis, e no centro do palco há um biombo com diversos retratos. Os móveis transformam-se em diversos elementos cenográficos, passando por uma ressignificação. Há muitos elementos cenográficos, causando uma certa poluição visual e um “entulhamento” de elementos.

A iluminação criada por Marcelo Flecha é adequada, e deixa transparecer uma luz branca mínima focada nos atores com uma certa escuridão.

Ensaio Sobre a Memória apresenta uma dramaturgia potente e reflexiva sobre as relações entre história e memória, apagamento e verdade histórica; apresenta uma crítica consistente sobre as práticas de tortura num governo ditatorial latino-americano; apresenta um elenco de qualidade e com atuações convincentes.

Ótima produção cênica!

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Alex Gonçalves Varela é historiador, professor do Departamento de História da UERJ, e autor de diversos enredos para escolas de samba, tendo sido autor dos enredos campeões do carnaval de 2006 e 2013. É autor de livros e artigos.

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