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Teatro

Sesc 14 Bis recebe em 15 de janeiro a estreia nacional de “Mulher em Fuga”, com Malu Galli e Tiago Martelli

A atriz vive o drama da mãe do escritor francês Édouard Louis.
RedaçãoPor Redação14 de janeiro de 2026Nenhum comentário11 Minutos lidos
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Malu Galli. Foto: Mari França
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Chega ao teatro brasileiro “Mulher em Fuga”, a primeira adaptação nacional de Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, obras marcantes do escritor francês Édouard Louis que, até o momento, nunca haviam sido encenadas no país. A dramaturgia inédita é assinada por Pedro Kosovski, com direção de Inez Viana, atuação de Malu Galli e Tiago Martelli, que também é o idealizador do projeto, e coordenação geral de produção de Cícero de Andrade. A estreia nacional de “Mulher em Fuga” será em 15 de janeiro de 2026, no Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez, onde fica em cartaz até o início de fevereiro.

A narrativa da peça acompanha Monique, a mãe do autor, em diferentes momentos de sua vida: gesto literário ao mesmo tempo, íntimo e político, que expõe as engrenagens sociais que silenciam e subjugam mulheres da classe trabalhadora. Entre a luta e a libertação, o que vemos é uma mulher que insiste em recomeçar. E, nesse gesto, Monique se torna também o retrato de tantas mulheres brasileiras que, contra todas as adversidades, assumem a chefia de suas famílias e reinventam suas vidas. Édouard Louis participa da encenação “Mulher em Fuga” por meio de voz off, na cena em que ele e sua mãe conversam ao telefone.

“A história da minha mãe é a história de uma vida roubada e, portanto, também a história de uma juventude roubada, como foi a vida e a juventude de muitas mulheres e é por isso que me pareceu importante escrever este livro, rebelar-me contra isso.” – Édouard Louis

As duas obras literárias, centrais na trajetória de Édouard Louis, abordam a vida de sua mãe sob diferentes perspectivas: em Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021), Louis reconstrói a trajetória de sua mãe a partir do olhar do filho que testemunhou – muitas vezes à distância, outras de muito perto – um percurso marcado por pobreza, humilhações, trabalho exaustivo e um casamento abusivo. A obra narra o difícil caminho da metamorfose: o momento em que uma mulher decide romper com o ciclo de violência e buscar dignidade, liberdade e reconstrução. Louis transforma a memória íntima em gesto político, revelando como estruturas sociais moldam vidas e limitam possibilidades.

Já Monique se Liberta (2024) amplia essa narrativa ao devolver a palavra à própria protagonista. Pela primeira vez, Monique assume a autoria de sua história, descrevendo com força e lucidez o que significa sobreviver – e resistir – dentro de um sistema que silencia mulheres da classe trabalhadora. Ao narrar seus medos, perdas, estratégias e conquistas, ela reivindica o direito de existir para além das condições que lhe foram impostas. O livro funciona como um contraponto e uma resposta ao relato do filho, completando o movimento de emancipação que começou no primeiro volume.

A adaptação de Pedro Kosovski aproxima essas duas vozes – mãe e filho – em um gesto cênico que evidencia tanto o conflito quanto o afeto, a memória e a insurgência presentes na obra de Édouard Louis. Ao transpor essas narrativas para o teatro, o dramaturgo cria uma experiência sensorial e política que amplia o alcance dos livros, revelando suas potências dramáticas e sua urgência social.

Mulher em Fuga © João Pacca

“A dramaturgia planifica as tramas sobrepostas de duas obras literárias de Édouard Louis, cujo protagonismo está na relação ‘impossível’ que enlaça e desenlaça mãe e filho. Busquei a ação emocional da escrita autobiográfica de Louis, uma ação que rompe decisivamente com o estado de anestesia que muitas vezes marca existências em nossa sociedade. Entre dívidas e reivindicações, algo do impossível desse encontro entre mãe e filho pronuncia imperativamente um chamado emocional: é urgente que se façam sentir as existências neste mundo, apesar desse mundo.” – Pedro Kosovski

A direção sensível e precisa de Inez Viana potencializa essa dimensão íntima e política, construindo um espaço onde literatura e performance se encontram para iluminar temas urgentes do contemporâneo. Segundo a diretora, ao conduzir sua mãe para o centro da narrativa, Louis propõe um grito contra o sistema patriarcal que oprime e faz com que haja a naturalização da violência, que encontramos eco aqui e agora. 

“Através de sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar sua relação interrompida com ela, mas entende, e nós também entendemos, que a liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados, independentemente do tempo.” – Inez Viana

A montagem marca um encontro importante entre literatura contemporânea e cena teatral brasileira, propondo reflexões sobre violência de gênero, apagamento das histórias da classe trabalhadora e o poder das narrativas pessoais na construção da memória coletiva. Ao dar corpo, voz e movimento às palavras de Louis e de sua mãe, Kosovski transforma um relato íntimo em uma intervenção artística de grande impacto. Com Malu Galli e Tiago Martelli conduzindo a narrativa, a direção de Inez Viana oferece ao público uma experiência potente, que transforma a história pessoal de Monique em reflexão universal sobre emancipação, violência estrutural e a importância de reivindicar a própria voz.

“Monique é uma mulher comum: dona de casa, mãe de cinco filhos. E, como toda mulher comum, Monique é uma mulher extraordinária. Uma mulher com uma força gigantesca, um amor pela vida e uma coragem de leoa. Basta dar a ela a oportunidade de ser quem é para que todos possam comprovar isso. E, quando falamos de oportunidade, falamos de autonomia. E, quando falamos de autonomia, o dinheiro está sempre no centro.” – Malu Galli

Idealizador do projeto, Tiago Martelli integra a criação artística desde sua origem, reforçando o caráter coletivo e visceral da proposta.

“Na obra de Édouard Louis, encontrei uma narrativa que nos confronta com a coragem, a vulnerabilidade e a reinvenção de uma mulher que se recusa a desaparecer. Esta adaptação é um gesto de cuidado, um ato político e uma homenagem a todas as mulheres que lutam para reconquistar suas próprias vozes.” – Tiago Martelli

A estreia de “Mulher em Fuga” marca um capítulo inédito na circulação da obra de Édouard Louis no Brasil, revelando a força teatral de textos que combinam precisão política, ferocidade afetiva e profunda humanidade.

Minibios de Malu Galli, Tiago Martelli, Édouard Louis, Inez Viana e Pedro Kosovisk,

Malu Galli – Seu trabalho mais recente foi no remake de “Vale Tudo” (TV Globo, 2025), em que viveu a personagem Celina. Atualmente está no elenco do longa-metragem “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, que protagoniza junto com Du Moscovis, pelo qual ganhou o Kikito 2025 de Melhor Atriz, no Festival de Gramado. “Querido Mundo” entrará no circuito de cinemas no primeiro semestre de 2026. Antes disso, em abril, participa do Festival de Cinema Brasileiro, em Paris. Nesse filme, Malu Galli também faz o papel de uma mulher em relacionamento abusivo, sofrendo violência doméstica e que tem a chance de recomeçar. A atriz também filma o longa “Tiros no Escuro”, direção Caroline Fioratti, ao lado de Isis Valverde e Fábio Assunção. Para 2026, além do teatro, tem projetos pessoais de show com músicas de Luiz Melodia e um filme sobre a arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon. No teatro, integrou a Cia Teatro Autônomo, de Jefferson Miranda, e foi atriz convidada em diversas montagens da Cia dos Atores, como “O Rei da Vela” (2000), “Hamlet” (2004, 2005) e “Gaivota – tema para um conto curto” (2006). Criou e protagonizou o monólogo “Conjugado” (2004), em parceria com Christiane Jatahy, e em 2007 realizou “Diálogos com Molly Bloom”, sob direção de nomes como Andrea Beltrão, Cristina Moura e José Sanchis Sinisterra. Em 2009, dirigiu “A Máquina de Abraçar”, com Mariana Lima e Marina Viana. Já em 2012, dirigiu “Oréstia”, a partir de tradução original do grego, com adaptação de Patrick Pessoa e músicas de Romulo Fróes e Cacá Machado. Em 2014, produziu e atuou em “Nômades”, sob direção de Márcio Abreu, ao lado de Andrea Beltrão e Mariana Lima. No cinema, atuou em mais de 15 filmes, com destaque para “180°” (2011), que lhe rendeu uma indicação da crítica cinematográfica brasileira ao Prêmio Guarani de Melhor Atriz em 2012. Foi vencedora do Prêmio Arte Qualidade Brasil e também vencedora de dois Kikitos no “Festival de Cinema de Gramado” – o mais recente em 2025 como melhor atriz, no longa “Querido Mundo”, de Miguel Falabella.

Tiago Martelli – Produtor e ator, seu trabalho mais recente foi como idealizador e produtor do solo “Renda-Se”, da dramaturga inglesa Sophie Swithinbank, com atuação de Martha Nowill e direção de Fernanda D’Umbra. Em 2024, atuou, idealizou e produziu “Mãe e Filho”, do autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Jon Fosse, com direção de Lavínia Pannunzio e Carlos Gradim, trabalho que lhe rendeu indicação ao Prêmio Cenym como Ator Coadjuvante. Também foi produtor e idealizador da peça “Aleatório”, com direção de Nilcéia Vicente. Em 2023, idealizou e protagonizou “O Dia das Mortes na História de Hamlet”, de Bernard-Marie Koltès, apresentado no Sesc 24 de Maio. Integrou o CPT – Centro de Pesquisa Teatral, sob orientação de Antunes Filho, e iniciou sua trajetória na Companhia de Teatro Os Satyros.

Édouard Louis – Escritor e sociólogo francês nascido em 30 de outubro de 1992, em Hallencourt, uma pequena cidade no norte da França, Louis cresceu em uma família pobre, seu pai era operário numa fábrica enquanto sua mãe encontrava trabalho ocasional dando banho em idosos. Ele é o primeiro da família a frequentar uma universidade. A pobreza, o preconceito, o alcoolismo e sua homossexualidade, com os quais lidou em sua família durante sua infância, se tornariam o assunto de sua obra literária. Sua escrita é caracterizada por uma narrativa direta e pessoal, que desafia as normas literárias tradicionais e levanta importantes questões sobre a sociedade contemporânea. É conhecido por seu ativismo social e político, frequentemente discutindo questões de desigualdade e violência social em suas obras e em aparições públicas. Ganhou destaque com seu primeiro livro, “En finir avec Eddy Bellegueule” (2014), traduzido para o português como “O Fim de Eddy”. A obra, baseada em sua própria infância em uma comunidade operária, foi aclamada por sua representação crua e sincera da vida de pessoas marginalizadas pela pobreza e preconceito. Desde então, publicou outros livros que continuam a explorar questões pessoais e sociais, como “História da Violência” (2016), “Quem Matou Meu Pai” (2018), “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” (2021), “Mudar: Método” (2021), “Monique Se Liberta” (2024) e o “O Desabamento”, em 2025.

Inez Viana – Nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua carreira artística em 1984. É atriz, diretora teatral, professora e dramaturga. Tem bacharelado em Artes Cênicas e pós-graduação em direção artística, ambos pelo Instituto CAL, RJ. Dirigiu 20 peças e atuou em mais de 30, além de novelas e filmes. Trabalhou no teatro com: Aderbal Freire-Filho, Cristina Moura, Debora Lamm, Enrique Diaz, Marcio Abreu, Domingos Oliveira. No cinema: Julia Resende, Juliana Rojas, Daniel Rezende. Como diretora, recebeu duas indicações de melhor direção do Prêmio Shell, uma da APTR, uma do Questão de Crítica e uma do APCA. Ganhou dois Prêmios Contigo (júri oficial e popular) e o Prêmio FITA. Junto com 9 atrizes e atores, fundou, há 16 anos, a Cia OmondÉ, que tem 9 peças encenadas. Idealizou e dirigiu o documentário “Cavalgada à Pedra do Reino”, que roteirizou com Felipe Galli, tendo o escritor Ariano Suassuna como narrador principal, em 1999, dando início a vários projetos que fez com o escritor. Tem três textos publicados pela editora Cobogó: A Última Peça, Partida e Mariposas Amarillas.

Pedro Kosovisk – Pedro Kosovski é diretor teatral, dramaturgo, tradutor e professor de artes cênicas da PUC-Rio e do Teatro O Tablado. Fundador da Aquela Cia. de Teatro (2005), é vencedor dos principais prêmios das artes cênicas no Brasil, como Shell, APCA, Cesgranrio, Questão de Crítica, APTR, Aplauso Brasil e Zilka Salaberry. Ao longo da carreira, dirigiu e escreveu mais de 20 espetáculos, entre eles “Cara de Cavalo”, “Caranguejo Overdrive”, “Guanabara Canibal” e “Kintsugi”, além das montagens mais recentes: “Chega de Saudade”, “Terra Desce” e “Devora-me” (com dramaturgia de Márcia Zanelatto), que estreou em 2025 no Sesc Tijuca. Seu trabalho mais recente foi como dramaturgo da peça “Veias Abertas 60 30 15 Seg”, inspirada na obra de Eduardo Galeano, que estreou em junho no Sesc Pompeia e rendeu indicação ao Prêmio APCA pela atuação do ator Rafael Lucas.

Ficha técnica

Autor: Édouard Louis
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Direção artística: Inez Viana
Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
Assistência de direção: Lux Nègre
Cenografia: Dina Salem Levy
Cenógrafa assistente: Alice Cruz
Desenho de luz: Aline Santini
Trilha sonora: Felipe Storino
Figurino: Ticiana Passos
Orientação de movimento: Denise Stutz
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotografia: João Pacca
Designer: Opacca e Fernando Vilarim
Operador de luz: Paulo Maeda
Operador de som: Cauê Andreassa
Direção de produção: Gabriela Morato | Associação Sol.te
Coordenação geral de produção: Cícero de Andrade | Mosaico Produções
Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli, Matheus Ribeiro, Thais Cairo
Idealização: Tiago Martelli

Serviço

Estreia em 15 de janeiro, quinta-feira, às 20h
Temporada: 15 de janeiro até 8 de fevereiro. Quintas, sextas e sábados às 20h e domingos às 18h.
Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – 2º andar – Bela Vista, São Paulo
Próximo ao Metrô Trianon-Masp (Linha 2 – Verde)
Telefone: (11) 3016-7700
Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$35,00 (meia entrada) e R$ 21,00 (credencial)
Acessibilidade: Libras nos dias 29, 30, 31/jan. e 1/fev., e audiodescrição nos dias 31/jan. e 1/fev.
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos

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