O artista visual Mario Camargo apresenta ao público a exposição “Hoje, Eu Contei Pras Paredes…”, um projeto que nasce do silêncio, da solidão e do gesto íntimo de criação transformado em linguagem visual. Na entrevista a seguir, Camargo fala sobre o processo criativo que deu origem à mostra, marcada pelo uso de materiais descartados, pela recusa das molduras tradicionais e pela relação direta entre obra e espaço expositivo. Com trajetória construída entre o rigor técnico da engenharia, a formação no Parque Lage e o diálogo com a arte contemporânea europeia, o artista reflete sobre suas referências, sua concepção de arte como experiência vital e o papel do artista como agente sensível e crítico na sociedade. A exposição estreia em 7 de janeiro de 2026, na Galeria Cândido Mendes, em Ipanema, sob curadoria de Denise Araripe.

Chico Vartulli – Olá, Mario! Você poderia nos dizer quais são as novidades que você apresenta em sua nova exposição “Hoje, Eu Contei Pras Paredes…”?
Mario Camargo – No ato criativo, as novidades sempre surgem e o conjunto dessas ideias novas é que estimula uma nova exposição. O título, “Hoje, Eu Contei para as Paredes…”, foi muito mais do que um título, ele me motivou a construir essa exposição. O sentido dessa expressão literária na língua portuguesa representa a solidão, o desabafo silencioso, foi referência no livro Primo Basílico de Eça de Queiroz, no século XVIII, vivenciado pela protagonista Luisa.
Chico Vartulli – Quais são as produções artísticas que você irá exibir?
Mario Camargo – As obras vieram antes do título da exposição, mas foi ele que uniu meus pensamentos. Nesta exposição, utilizo como Canvas, o ressuscitar de antigas cortinas e capas de sofás descartados. Desenho, costuras e formas surgem e a obra estará pronta. É como se fosse uma conversa com as paredes; sobre os trabalhos que retirei do chassi e comecei a usar formas incomuns e o uso das tintas iridescentes. Nesta conversa silenciosa com as obras, o abandono das molduras se torna necessário e as paredes deixam de ser fundo e se tornam o corpo, que escuta e responde.
Chico Vartulli – Quando se deu o seu interesse em ser artista visual?
Mario Camargo – Desde os cinco anos de idade, o desenho me acompanha. No vestibular de engenharia, minhas notas de descritiva elevaram minha média e passei em três faculdades. Na faculdade, o desenho técnico e a descritiva me faziam sentir que já era o caminho para as artes visuais e já pintava telas e até vendia, ocasionalmente.
Chico Vartulli – Como se deu a sua formação no campo das artes plásticas?
Mario Camargo – Com mais de nove anos frequentando o Parque Lage, compartilhando conhecimentos, encontros e palestras com grandes mestres como Ioli de Freitas, David Cury, João Magalhães, Kate Schazenberg e Sônia Salcedo, o meu desenvolvimento e a minha ligação com a arte contemporânea se tornaram efetivos. Comecei a articular melhor no meio artístico e caminhos mais importantes comecei a trilhar.
Chico Vartulli – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) no campo das artes visuais?
Mario Camargo – Engenharia me proporcionou muitas idas à Europa, pois trabalhava numa empresa europeia e sempre estava em Paris. O contato com museus na França me colocou em contato com a arte contemporânea. Artistas como Jean du Buffet, Daniel Duran, Yves Klein, Simon Hantai, Nicolas Stael se tornaram minhas referências no campo das artes visuais. Inclusive, o contato pessoal com o crítico de arte Pierre Restany em minha exposição individual em 2000 foi de muita importância.
Chico Vartulli – Qual é a definição de arte que você compartilha?
Mario Camargo – Para um artista, definir arte é muito definitivo: é vida, é o ar que respiramos, é ontem/hoje/amanhã, é nascimento e morte. Citando Ferreira Gullar: A arte existe porque a vida não basta.
Chico Vartulli – Qual é o lugar do artista na sociedade?
Mario Camargo – A arte transmite verdades mostradas nas entrelinhas, nos projetos, desenhos e funciona como denúncia à frente do seu tempo. Sem falar no prazer e no engrandecimento intelectual que ela nos proporciona. Pensamentos de Nietzsche que me colocam diante da realidade da arte e a sua intercorrência na sociedade.
— A arte existe para não morrermos de realidade.
— A arte existe para que a realidade não nos destrua.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Mario Camargo – Meu projeto futuro próximo será em 7 de janeiro de 2026, a exposição “Hoje, eu contei pras paredes…” na Galeria Cândido Mendes, em Ipanema, onde a curadoria é de Denise Araripe.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação



