Representar o Brasil em uma das competições mais prestigiadas da dança mundial não é apenas um marco na carreira de uma bailarina — é a materialização de anos de disciplina, renúncias e amor pela arte. Única finalista latino-americana na mais recente edição do Prix de Lausanne, Pietra viveu uma experiência que vai muito além da competição: foi uma celebração de talento, força emocional e conexão com o público.

Entre ensaios intensos, preparação física e emocional e a responsabilidade de levar o nome do país ao palco internacional, ela construiu uma trajetória marcada por foco e sensibilidade. Nesta entrevista, Pietra compartilha os bastidores da sua preparação, fala sobre suas inspirações, relembra momentos especiais — como a estreia como Clara em O Quebra-Nozes — e revela como está desenhando os próximos passos de um caminho que apenas começa, mas já carrega brilho próprio.


Chico Vartulli – Olá, Pietra! Qual é a importância para a sua carreira de ter sido a única finalista latino-americana no Prix de Lausanne?

Pietra Rêgo – Olá! Chegar ao Prix de Lausanne já é uma conquista imensa. Ele está para o Ballet assim como a Copa do Mundo está para o Futebol. Então, estar entre os selecionados para viver essa experiência já é uma grande honra, e ainda estive junto de outros cinco bailarinos brasileiros neste ano, um orgulho para o nosso país. Chegar à final é ainda mais emocionante, fiquei entre apenas os 21 bailarinos selecionados para essa última etapa. Além disso, receber o Prêmio de Bailarina Favorita do Público, por meio da votação online, foi muito especial. Senti que o Brasil inteiro estava torcendo por mim, e essa união me deu ainda mais força. Sou muito grata por todo esse carinho.

Pietra como Clara em O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Foto: Daniel Ebendinger

Chico Vartulli – Como você se preparou para participar deste concurso?

Pietra Rêgo – Acredito que minha preparação começou desde muito cedo. Comecei no Ballet aos 3 anos e, quando decidi que queria me profissionalizar, o Prix de Lausanne virou um grande sonho. Depois que fui selecionada, minha rotina, que já era intensa, ficou ainda mais focada. Intensifiquei os ensaios com meus mestres Rachel Ribeiro e Ronaldo Martins, cuidei da minha preparação física com o acompanhamento de uma fisioterapeuta especializada e trabalhei também o meu preparo emocional. Meu objetivo era chegar à Suíça o mais preparada possível, física e mentalmente, para aproveitar ao máximo cada minuto dessa oportunidade.

Chico Vartulli – O nível do concurso era elevado?

Pietra Rêgo – Sim. É uma das competições mais almejadas e prestigiadas do mundo. Estar ali foi inspirador e desafiador ao mesmo tempo. A cada aula, ensaio ou apresentação, eu aprendia algo novo. Foi uma experiência de muito crescimento, porque, além de competir, nós também vivemos uma semana intensa de troca e aprendizado com grandes profissionais da dança.

Chico Vartulli – Quando você se interessou em ser bailarina?

Pietra Rêgo – Eu costumo dizer que o Ballet me escolheu. Comecei muito pequena e fui crescendo dentro desse universo. Com o tempo, comecei a participar de festivais e competições, recebi prêmios e oportunidades que eu nem imaginava. Foi nesse momento que percebi que aquilo não era só uma atividade de que eu gostava, mas era o que eu queria para a minha vida. Eu sentia que o meu amor pelo Ballet só aumentava e entendi que queria transformar esse sonho em profissão.

Em Paquita, como solista da Cia BEMO durante apresentação no TMRJ. Foto: @bravoframes.

Chico Vartulli – Como está sendo a sua formação na Escola de Dança Maria Olenewa?

Pietra Rêgo – Estudar na Maria Olenewa é um grande privilégio. Poder viver diariamente o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um lugar tão importante para a história da dança no Brasil, é algo que me inspira muito. Estar cercada por professores e profissionais tão dedicados eleva o nível da nossa formação. Além disso, também estudo na Escola Étoiles de La Danse, onde tenho o acompanhamento dos meus mestres Rachel Ribeiro e Ronaldo Martins, que também são bailarinos da Companhia do Theatro Municipal, enriquecendo ainda mais a minha trajetória.

Chico Vartulli – Qual é a sua bailarina preferida, em quem você se inspira?

Pietra Rêgo – É difícil escolher um nome só! Admiro muitas bailarinas brasileiras que representam nosso país aqui e no exterior. Mas uma grande inspiração para mim é a Sylvie Guillem. Ela marcou a história do Ballet com sua técnica e personalidade. Tive a oportunidade de vê-la de perto durante o Prix de Lausanne, onde ela foi homenageada, e isso foi muito marcante para mim.

Chico Vartulli – Como foi a sua experiência de estrear a personagem Clara no ballet O Quebra-Nozes?

Pietra Rêgo – Foi a realização de um sonho. Eu já tinha participado do espetáculo como uma das amigas da Clara, mas interpretar a protagonista no palco do Theatro Municipal foi algo inesquecível. Foi também um grande desafio, porque eu estava conciliando ensaios e apresentações com a preparação final para o Prix de Lausanne. Foi um período intenso, de muita dedicação e foco. Mas subir ao palco como Clara foi um presente na minha trajetória e uma experiência que vou guardar para sempre.

Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?

Pietra Rêgo – O Prix de Lausanne realmente abre muitas portas e traz uma visibilidade muito importante no cenário internacional da dança. Neste momento, estou avaliando com muito cuidado as propostas e oportunidades que surgiram, junto com meus mestres e minha família, para decidir qual será o melhor caminho a seguir daqui para frente.

Tenho muitos sonhos e metas que quero conquistar, mas também entendo que cada escolha precisa ser feita com responsabilidade e pensando no meu crescimento a longo prazo. Meu coração está muito feliz e grato por tudo o que está acontecendo, e eu sigo determinada a continuar evoluindo e construindo minha trajetória na dança, que é o que realmente faz meus olhos brilharem.

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Arquiteto, dedicado a interiores, com pós-graduação em Berlim e curso de decoração em Londres, amante da arte e cultura.

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