O monólogo é protagonizado pelo ator Vandré Silveira.
O texto de Daniela Pereira de Carvalho é contemporâneo, poético, reflexivo, sentimental, emocionante, sensível, potente, conservacionista e anti-consumo predatório dos recursos naturais. O texto valoriza uma relação de igualdade entre os seres vivos, de amor e empatia, não colocando os seres humanos e animais numa relação fracionária de subordinação e inferioridade, marcada por um viés consumista, típico da lógica de mercado capitalista, mas ao nível horizontal, numa relação fraternal e afetuosa.
Vandré Silveira tem uma atuação comovente e digna de aplausos. Ele narra um conjunto de histórias envolvendo o seu Francisco, um matador de bois, e o Chico, o boi que ele pegou para criar quando nasceu, um bezerrinho, e o trata como um animal de estimação, baseado numa relação de amor e empatia. Francisco não desejou transformá-lo num bife de frigideira para servir de alimento aos humanos. O texto enfatiza que homens e animais podem viver em harmonia e equilíbrio, quando são tratados da mesma forma. O homem fala, e o boi muge. Mas ambos produzem sentimentos, desenvolvendo uma relação afetuosa.
Há também a figura de São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, que também é introduzido no texto. Ele funciona como o narrador. Seu Francisco, Chico e São Francisco são os três personagens que enlaçam a textualidade.

Vandré Silveira interpreta com qualidade, mas também emociona. Ele expressa sentimentos, comove. Domina o texto, passando com clareza, utilizando uma linguagem acessível e de fácil compreensão. Cita ao longo da encenação diversos trechos de autores do campo da literatura, como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Baudelaire, entre outros. Ele cita músicas também, como ‘Cálice’, de Chico Buarque, e ‘Admirável gado novo (vida de gado)’, de Elba Ramalho e Zé Ramalho, embora não as cante. Além do verbo, ele atua utilizando também expressões corporais e faciais, que, ainda que sem fala, auxiliam no entendimento do texto. Domina o palco, se movimentando intensamente e ocupando todos os espaços. Ele anda pelo palco, bem como se deita e rasteja. Apresenta uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação deferida com louvor.
Logo no início do texto, o ator faz menção a um boi original, de tempos primitivos, informando inclusive a data da sua extinção. Podia ter no texto menções a outros bois, viajando pelo imaginário, pela fantasia, mencionando o Minotauro, o boi grego da mitologia; o boi bumbá das danças do nordeste; o boi da cara preta; a história do boi voador do Recife de Maurício de Nassau, entre outros.
A direção de André Paes Leme focou no texto e deixou o ator à vontade no palco para realizar a sua interpretação, de forma comovente e emocionante.
Cenografia e figurino foram criados por Carlos Alberto Nunes.
O figurino é simples, adequado, em tom cinza, e facilita o deslocamento do ator pelo palco.
A cenografia é criativa e original, apresentando carcaças de bois e correntes presas ao teto. Há também na lateral a imagem de São Francisco de Assis, santo protetor dos animais.
A iluminação criada por Renato Machado e Anderson Ratto apresenta um bonito desenho de luz, realça a interpretação do ator de seu personagem e varia de acordo com cada cena e o contexto do assunto.
A direção de movimento coube a Paula Aguas e Toni Rodrigues, que imprimiram um bom ritmo ao ator, dando um dinamismo à sua apresentação, e à ocupação dos espaços do palco.
Excelente produção cênica!


