Chico Vartulli – Como se deu seu interesse pela harpa?
Cristina Braga – Diz minha mãe que, aos 3 anos, eu vi um livro com um desenho lindo e andava pela casa dizendo que tocaria harpa porque queria ser anjinho, e me enviaram para a iniciação musical da Escola de Música aos 5 e me colocaram no piano, torcendo para que eu ficasse com o piano mesmo. Tive que esperar crescer até alcançar as últimas cordas e pedais e insistir até os 10 anos, quando minhas duas tias-avós musicistas disseram aos meus pais que, já que eu mostrava tanta insistência e força de vontade, me levariam para estudar harpa. Amo o som do instrumento, os desafios do instrumento, a demora do instrumento. É um instrumento que faz bem. Um mestre de vida. Ensina que a dificuldade não é inimiga de quem faz mais, que está a um passo da facilidade se você quiser encarar e aprender. No nosso tempo instantâneo, a harpa é uma mestra de longevidade, resiliência e profundidade.
Chico Vartulli – A harpa lhe levou a promover o Rio e o Brasil no exterior?
Cristina Braga – Sim. Com 16 anos, fiz minha 1ª apresentação fora do país, tocando música clássica brasileira. Fui uma das diretoras do Congresso Mundial de Harpas por 11 anos, representando o Brasil. Em cena, falo através dela, da beleza do Brasil com composições próprias, de Villa Lobos, de Tom Jobim… Com 20 anos, saiu meu 1º álbum em NY, com o Opu5, que foi elogiado por Zubin Mehta, e alcançou as principais vendas da Tower Records. A National Public Radio veio fazer entrevistas conosco no Ri, foi lindo demais. Depois foram mais de 18 álbuns, quase todos lançados internacionalmente. No momento, tenho 117 mil ouvintes mensais no Spotify, com um repertório quase 100% brasileiro ouvido pelo mundo.
Chico Vartulli – Qual o concerto no exterior que mais lhe marcou?
Cristina Braga – Difícil escolher um… Viktoria Hall em Genebra foi memorável, terminamos de tocar e o público ficou 15 minutos aplaudindo e batendo pés e mãos, pé… nem dormi naquela noite.
Também tocar pela 1ª vez no Tchaikovsky Hall em Moscou numa noite chamada Bossa Nova All Stars com a Sinfônica de Moscou foi impressionante, pensei em quantas vezes havia tocado a Valsa das Flores, ou o Lago dos Cisnes no Theatro Municipal e senti Tchaikovsky a meu lado, foi como encontrar uma pessoa que você admira muito e que viu de longe através da música, no escuro de um espetáculo de ballet a milhares de kms dali, sentir de perto uma linhagem de pensamento musical viva, que recriei tantas vezes.
Ou então gravando em Brandemburgo com a Sinfônica de Brandemburgo o álbum The Bossa Nova Brandenburg Concerto, que amo de paixão, com participação do sobrinho-neto de Villa Lobos, Dado Villa Lobos do Legião. Foram arranjos belíssimos de Ricardo Medeiros, Alberto Rosenblit, Ruriá Duprat, Jacques Morelenbaum — a orquestra chegava a suspirar conhecendo de perto as canções e os arranjos de Canto Triste, Meditação de Tom, Prelúdio de Baden, e inéditas como Últimas Palavras de Patrícia Mellodi, Mot d’Amour de Ricardo Medeiros e Bernardo Vilhena… Era pisar nas terras de Bach com respeito, levando nossa música. Esse álbum está no Spotify.

Chico Vartulli – Em suas vivências internacionais, teve algum momento de dificuldade?
Cristina Braga – Nossa, lembro de uma série de concertos clássicos na região da Champanhe, na França, com Marcus Llerena, em igrejas históricas. Era inverno e não tinha aquecimento suficiente nos átrios das igrejas enormes — uma noite marcava 2 graus na igreja, e as cordas quase cortavam os meus dedos de tanto frio. Sem falar da falta de circulação que torna os movimentos mais lentos e exige muito mais esforço para tocar rápido. Saí com alguns dedos rachados e sangrando, mas o concerto foi lindo!
Chico Vartulli – A harpa em si é uma viagem internacional?
Cristina Braga – Mais que internacional. É um instrumento global, policultural, atemporal, da humanidade. Nossa 1ª referência histórica data de 15 mil anos antes de Cristo em uma caverna na França! Imagina quantos pensamentos, influências, legados se recriam quando uma pessoa toca este instrumento?
O mais lindo da música é que ela é uma linguagem universal. Ela une pessoas… Diante dela, somos somente seres que sentem, sofrem, riem e vivem debaixo do sol… todos humanos.
Chico Vartulli – Como consegue unir o seu trabalho no Vale do Café com a música?
Cristina Braga – Acordo cedo e durmo tarde (risos), mas sempre envolvendo o coração — tudo que faço vem da força do que eu sinto! Toca melhor quem não deixa de viver o que deve viver. Não se faz um artista entre quatro paredes, se faz um artista com vida.
Meu trabalho no Vale do Café começa e termina pela música. Existia uma ameaça nos idos dos 2000 de fazerem um presídio de segurança máxima entre Vassouras e Miguel Pereira… Achei que era hora de arregaçar as mangas com o que sabia, o fazer musical, cultural — e mostrar a imensa riqueza cultural da região, com o olhar da minha profissão… Assim nasceu o Festival Vale do Café, com mais de 20 cursos de música, Cortejo das Tradições, Cortejo de Bandas Sinfônicas, a partir do levantamento das tradições culturais musicais existentes. Chegamos a ter 800 integrantes no Cortejo de Tradições com Jongo, Maculelê, Capoeira, Caninha Verde, Calango, Folia de Reis, Rezadeiras… não existe bioma musical natural mais rico!
Depois veio Uaná Etê, um jardim cultural, ecológico dedicado à música que esconde um grito dentro dos canteiros, uma exclamação em forma de arte: a música é fundamental, é uma ciência: queremos que ela volte ao seu patamar de importância. Fico muito feliz de ver que a música, através do streaming — plataformas como o Spotify, YouTube etc. — está voltando a ter valor comercial. Hoje, Uaná Etê tem mais de 30 jardins, um orquidário que tem Lenine como patrono, o Labirinto da Música de Aritza Orléans e Bragança, a coleção de cactos e suculentas de Wilson das Neves, uma coleção de bromélias doadas por Menescal… o oásis do lagarto para ouvir o som da água… um bosque de sinos… meu trabalho no Vale do Café é música pura!

Chico Vartulli – É interessante ter uma filha e um marido no mundo da música?
Cristina Braga – Que deixa, hein? (risos) É mais que interessante, é maravilhoso! Ricardo é meu mestre pessoal, sabe tudo de música, um baita compositor e produtor musical. É diretor musical de Bia Bedran, foi baixista de Raul Seixas, me ensinou a improvisar, a tocar samba… além de ser um ser humano especial, elegante, gentil, presente, bondoso…
Lá em casa todos tocam, inclusive os irmãos de Antonia… Confesso que na infância e adolescência instauramos uma regra — é obrigatório estudar um instrumento. Depois que puder se sustentar e sair de casa, pode parar de tocar se quiser, mas até lá é tão fora de questão quanto parar de estudar matemática ou português. Antonia cantou antes de falar mamãe, dá para acreditar? Ela é música pura, um sonho de artista e de mulher, resolvida, alegre, divertida, amorosa… Uma compositora de canções lindas, necessárias, inteligentes… foi semifinalista do The Voice e tem mais de 1 milhão de seguidores — está seguindo o seu belo caminho.
Não vale uma pergunta dessas para uma mãe e mulher apaixonada! (risos)
Chico Vartulli – Você acredita na harpa como um instrumento de Paz?
Cristina Braga – Totalmente. A harpa é um instrumento de paz e fé na humanidade.
Ela vem do arco e flecha e provou que o homem é capaz também de coisas lindas. Transformamos um instrumento de caça e guerra em um instrumento de arte e cura.
Sigamos acreditando e buscando essa beleza em cada um!
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação
APOIO:



