Isabella Barros tem uma visão de cultura ampla e trabalha para que a arte chegue a mais pessoas em todo o Brasil. Isabella é atriz, mas a sua atuação vai muito além desse trabalho. Ao longo dos anos, se firmou como uma produtora cultural comprometida com a descentralização da cena artística, criando pontes entre o eixo Rio–São Paulo e o Nordeste. Um movimento que nasce tanto de suas origens quanto de uma visão clara sobre o direito do público ao acesso à arte, onde quer que esteja.
Com a estreia da nova temporada de verão de As Loucas de Copacabana, no Teatro Cândido Mendes, Isabella Barros volta a ocupar um lugar que lhe é familiar: o de quem transita com naturalidade entre a cena e a produção. Em participação especial no espetáculo, ela integra um elenco de atores veteranos que celebra o humor, a experiência e a vitalidade do teatro brasileiro contemporâneo.
Formada também em Direito, ela alia conhecimento técnico à escuta sensível do fazer artístico, assumindo os riscos e as responsabilidades de quem escolheu empreender na cultura. Em um mercado em constante transformação, produzir tornou-se não apenas uma alternativa, mas uma estratégia de sobrevivência e afirmação autoral.
Na entrevista com o jornalista Rodolfo Abreu, que está a seguir, Isabella Barros reflete sobre amizade como motor criativo, liderança feminina, liberdade artística e futuro. Um depoimento de quem entende que o teatro só faz sentido quando encontra o público — e quando carrega consigo a coragem de seguir criando.
Acompanhe a conversa.
Rodolfo Abreu: Ao longo dos anos, você tem se destacado por levar espetáculos do eixo Rio-São Paulo importantes para o Nordeste, ampliando o acesso e descentralizando a cena cultural, além também de divulgar os artistas nordestinos. Qual a importância dessa missão enquanto artista e enquanto nordestina?
Isabella Barros: Esse processo começou de forma muito natural, a partir de colegas produtores locais que me convidavam para participar de projetos por causa da minha rede de amigos e contatos no eixo Rio–São Paulo. Isso possibilitou levar artistas nacionais e peças consagradas para minha cidade natal, Teresina (PI). Com o tempo e a repercussão muito positiva dos eventos, entrei mais a fundo nesse universo e passei também a criar e desenvolver projetos. Procuro levar aos festivais e eventos locais artistas que amam o Brasil e gostam de disseminar cultura por todas as partes do nosso país. A arte precisa estar onde o público está, e ser uma ponte nesse caminho me dá alegria e disposição para seguir com esse trabalho.
Rodolfo Abreu: As Loucas de Copacabana marca um momento especial da sua trajetória, reunindo um elenco de atores veteranos com nomes muito queridos do público. O que te motivou a produzir esse espetáculo e qual foi o principal desafio de colocar esse projeto em pé, juntamente com Guilherme DelRio?
Isabella Barros: Gosto de trabalhar com amigos, e esse foi, sem dúvida, um dos pontos que mais me motivaram. Quando esses amigos são atores talentosíssimos e queridos pelo público, não há como não amar um projeto. Um desafio, sem dúvida, é conseguir reunir tanta gente boa e talentosa ao mesmo tempo, pois as agendas precisam se encaixar perfeitamente. O processo envolve leituras, ensaios e datas de apresentação, e o elenco é bastante numeroso. Mas, quando tudo se acerta, cada momento ao lado dos colegas se torna especial.
Rodolfo Abreu: Além da produção, você faz uma participação especial em cena, juntamente com o Marcos Oliveira (nosso eterno “Beiçola”). Como foi equilibrar esses dois lugares — o da atriz e o da produtora — dentro de um espetáculo divertido com ritmo super ágil?
Isabella Barros: É algo muito interessante. Estar na produção de uma peça requer dedicação a atividades administrativas que demandam muito tempo e são essenciais para a própria existência do espetáculo. É um trabalho que amo fazer, pois é por meio dele que as coisas se tornam viáveis. Mas, como sou atriz, é uma sensação única participar da parte que envolve “a fantasia” do projeto. Para uma atriz, não há energia igual à de estar no palco.
Rodolfo Abreu: O elenco reúne artistas com longas carreiras e histórias marcantes, dirigidos por Pia Manfroni. O que você acredita que atores veteranos acrescentam a uma comédia como essa, especialmente em tempos de renovação acelerada do mercado cultural?
Isabella Barros: Atores veteranos trazem credibilidade, reconhecimento do público e, claro, a competência e a excelência que os anos de carreira conferem ao artista. Os rostos novos também são muito importantes; a renovação é essencial para a própria perenidade da arte. Por isso, acredito que um bom projeto é aquele que sabe conciliar diferentes gerações e experiências de vida. Todos saem ganhando com essa “troca”, especialmente o público.
Rodolfo Abreu: Você transita com naturalidade entre diferentes funções: atriz, diretora e produtora. Em que momento da sua carreira percebeu que produzir também era uma forma de garantir a continuidade do seu trabalho artístico?
Isabella Barros: Essa percepção sobre a importância de o artista se autoproduzir sempre existiu para mim, mas se tornou ainda mais evidente com a pandemia. O mundo parou, mas precisávamos continuar trabalhando, e não adiantava ficar apenas sentados à espera de convites. Assim, criar novos formatos de trabalho no campo cultural foi a saída, e a internet teve um papel fundamental nesse processo. Além disso, atualmente o mercado mudou: os contratos longos passaram a ser exceção. O artista precisa ser um empreendedor da própria carreira. Dá mais trabalho? Claro que dá, mas o modelo de atuação mudou, e precisamos mudar com ele. Assumimos os riscos de um negócio, com perdas e ganhos. No entanto, posso afirmar que há um lado muito interessante nesse processo: a liberdade artística. Quando você cria, é dono da história que quer contar e do trabalho que deseja realizar.
Rodolfo Abreu: Sua formação em Direito é um diferencial pouco comum no meio artístico. De que maneira esse conhecimento influencia suas decisões como atriz, produtora e empreendedora cultural?
Isabella Barros: Meu conhecimento em Direito me permite uma visão mais atenta sobre contratos, negociações e a viabilidade dos trabalhos, o que representa um diferencial. Mas, acima de tudo, o Direito proporciona um olhar ampliado sobre a cidadania, algo essencial no exercício da arte.
Rodolfo Abreu: Você é um exemplo de empreendedorismo feminino nas artes, construindo projetos autorais e assumindo riscos. Que desafios específicos você enfrentou ao ocupar espaços como esse, de liderança na produção cultural?
Isabella Barros: Ser mulher é travar uma luta diária por respeito. Infelizmente, neste ramo não é diferente. Muitas vezes, precisamos trabalhar, no mínimo, o dobro do que um homem para conquistar nosso espaço. Além disso, quando estamos começando em uma área, muitos nos vêem como adversárias. É uma pena, pois somos todos operários e operárias desse ofício, e acredito que a verdadeira arte surge da soma de esforços e afetos. Mas, ao lado das pessoas certas, tenho realizado coisas incríveis e das quais me orgulho.
Rodolfo Abreu: Durante a pandemia de COVID-19, você criou projetos no Instagram como Bella Conversa e a Live da Arte, mantendo o diálogo com artistas e o público em um período tão delicado. Que aprendizados esse momento deixou para você enquanto comunicadora e produtora cultural?
Isabella Barros: Esse momento foi uma virada na minha vida e na minha carreira. Com a pandemia, tivemos que nos reinventar, e a internet passou a ser o principal local de encontro possível em meio ao isolamento social. Trocar experiências e reflexões com pessoas que eu já admirava, assim como com outras que conheci e passei a admirar, foi algo único. Esses projetos são inesquecíveis para mim. Ouvi muitas histórias lindas de artistas e também de pessoas de outras áreas, que compartilharam de peito aberto as mais incríveis experiências. Sem falar do público e da resposta dos seguidores, que adoravam acompanhar as conversas e interagir com perguntas. Esses projetos também abriram muitas portas profissionais para mim no pós-pandemia e, o mais importante, me deram amigos especiais que levo hoje para a vida.
Rodolfo Abreu: Olhando para o presente, com As Loucas de Copacabana em cartaz, e para o futuro, quais são os próximos projetos que te animam e que tipo de teatro você deseja seguir produzindo e defendendo?
Isabella Barros: Tenho mais um projeto para o teatro que desejo concretizar neste ano e estou escrevendo uma peça que pretendo levar aos palcos em 2027. Nesse caso, será um trabalho autoral e um grande desafio. Pretendo também voltar meu olhar para o audiovisual. Já participei de filmes e de outras produções do gênero, e agora quero realizar algo nesse segmento.
Entrevista por Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Acompanhe Isabella Barros: @isabellabarros
SERVIÇO – As Loucas de Copacabana
Teatro Cândido Mendes – Ipanema
20 e 27 de janeiro (terças) às 20h
5 e 12 de fevereiro (quintas) e 20 de fevereiro (sexta) às 20h
Acompanhe o instagram da peça: @asloucasdecopacabana







