O brasileiro acredita firmemente na “sorte”. Do jeitinho brasileiro à fezinha nossa de cada dia, o hábito de apostar em tudo é um comportamento refletido como num hábito cultural do país. O jogo do bicho, por exemplo, que atravessa gerações e mantém até hoje sua ligação histórica com o Carnaval — a maior festa popular do país — é prova de que essa relação não é passageira, mas estrutural. E se antes a fezinha era feita no papel, agora cabe na palma da mão: as bets chegaram digitais, patrocinando escolas, influenciadores e blocos, prometendo fortuna instantânea e reafirmando que o brasileiro continua acreditando que a sorte pode virar o jogo da vida.
É dessa brasilidade pulsante que nasce “Raspadinhas”: um espetáculo de texto brasileiro que mergulha no nosso jeitinho — essa mistura de esperança, improviso, malandragem e fé. O espetáculo que estreou em 2025 agora chega em nova temporada nos finais de semana de março de 2026 ao Espaço Abu, em Copacabana. Em tempos em que a latinidade está em foco e o Brasil volta a ocupar espaço de destaque no imaginário cultural, o monólogo de Alain Catein transforma memória afetiva e crítica social em cena vibrante, reconhecível e quente. Com direção de Daniel Dias da Silva, a peça coloca o público entre o riso e a reflexão. A montagem reafirma que poucas coisas são tão nossas quanto apostar no impossível — e contar essa história com irreverência.


A peça, idealizada por Alain Catein, nasceu de lembranças pessoais e de observações da infância. O ator, que atualmente cursa Ciências Sociais, traz para o palco reflexões sobre a cultura do jogo no Brasil — e como ela se entrelaça com os sonhos, as esperanças e até os vícios de um povo. “Sempre vi na minha família e na vizinhança uma relação quase afetiva com o jogo. As pessoas jogavam por diversão, por superstição, por necessidade… e isso sempre me fascinou. Raspadinhas é uma forma de olhar para isso com humor, mas também com empatia e consciência”, comenta Catein.
A montagem combina o ritmo ágil de uma comédia popular com informações históricas e referências culturais que atravessam décadas. O público será transportado aos anos 1990 e 2000 com lembranças de músicas, programas de TV e produtos icônicos que fazem parte do imaginário coletivo, despertando identificação e nostalgia. Não é à toa que a temática do jogo e do jeitinho brasileiro está bastante presente em músicas populares e no linguajar cotidiano das pessoas, como: “Malandro é malandro e mané é mané” e “Camarão que dorme, a onda leva”.
Com ritmo vibrante e personagens cheios de vida, o monólogo “Raspadinhas” conquista o público com gargalhadas, lembranças e boas doses de reconhecimento.



Entrevista com ALAIN CATEIN @alaincatein
Rodolfo Abreu: Qual sua expectativa para a nova temporada de 2026, o que você espera?
Alain Catein: Minha expectativa para essa temporada é retomar o debate sobre ludopatia e sobre a impregnação das bets. A gente acabou de sair de um carnaval, quando a gente teve acesso a muita propaganda de bet… bets patrocinando grandes eventos no Rio de Janeiro, em São Paulo, Salvador, no Brasil todo… o que deixa a gente muito assustado ou deveria deixar a gente cada vez mais revoltado com isso. Então, eu espero que essa temporada volte a, pelo menos, fomentar o debate e, claro, divertir novos públicos.
Rodolfo Abreu: O que terá de “novo” ou o que de notícias atuais sobre os jogos mexem ou interferem em algo relacionado à peça?
Alain Catein: Eu acho que o principal foco do espetáculo, ou pelo menos a grande realização dele, tem sido o público se conectar consigo mesmo. Também vivemos um momento em que nos sentimos mais latinos do que nunca, não só com o efeito Bad Bunny, mas o efeito da tarifa do Trump também. De certa maneira acendeu um debate, pelo menos, sobre a soberania nacional. Então, ter um espetáculo que fala sobre o subúrbio, que fala sobre o jeitinho brasileiro, acende na gente uma certa representatividade, que é gostosa de ver. O Borogodó é sempre agradável. Então, eu espero que a peça consiga inspirar essa representatividade, esse orgulho de ser brasileiro, ao mesmo tempo em que a gente consegue colocar a mão na cabeça também e refletir sobre os rumos que nós compactuamos enquanto sociedade, não só na escolha das bets, mas na escolha das desigualdades. E como tentar contornar essas desigualdades tão presentes na nossa sociedade.
Rodolfo Abreu: Depois de diversas apresentações de “Raspadinhas”, como você enxerga o que esse espetáculo entrega para o público e qual é a sua missão com ele?
Alain Catein: O público sempre traz uma outra informação muito relevante o que é sempre legal, como a gente está saindo desse carnaval, onde por exemplo no Rio de Janeiro teve a gravação ao vivo de um comercial da Superbet, que inclusive ajudou a atrasar o desfile que era para ser o evento principal desse dia. Esse debate está mais latente do que nunca. Então na peça a gente retoma esse assunto, mas também traz novos dados alarmantes, enfim, sempre tem uma notícia outra, principalmente no mundo da política, desde a pele, a antifacção, até novas propostas de lei para fazer com que a Bet não interfira. Tanto assim na economia do nosso país.
Entrevista com DANIEL DIAS DA SILVA @daniel.diasdasilva
Rodolfo Abreu: “Raspadinhas” estreou em 2025 e foi um sucesso. Agora em março volta para nova temporada. O que você percebeu durante as apresentações de reações do público e da mensagem da peça e o que está sendo atualizado ou adicionado na nova temporada?
Daniel Dias da Silva: O que a gente tem percebido, desde que a peça estreou, é que esse é um tema que vem ganhando cada vez mais relevância. E isso tornando um debate importante hoje em dia na sociedade. Eu acho que as pessoas estão criando mais consciência em relação à questão do vício em jogos e isso tem mobilizado a opinião pública também. Por outro lado, as grandes empresas de apostas estão se proliferando cada vez mais e ganhando cada vez mais força econômica. Então, é um embate muito presente hoje em dia. De um lado, a questão da saúde pública, a saúde financeira e mental mesmo das pessoas e das famílias que têm pessoas envolvidas com a questão do jogo. Do outro, a necessidade de normatização, de regulamentação dessas atividades e de que forma que isso tem impactado na própria economia, porque tem tirado dinheiro de itens importantes como educação, alimentação, de diversas famílias. Também a questão da necessidade de criação de impostos que de alguma maneira consigam reverter esse investimento cada vez maior nas bets em prol da sociedade. Para que recursos sejam revertidos para políticas públicas, para a sociedade, como uma forma de minimizar um pouco os efeitos danosos e desastrosos que muitas vezes isso provoca nas famílias, principalmente de baixa renda.
O que a gente tem feito em relação a essa nova temporada são pequenos ajustes porque a cada dia nós temos notícias novas e novas informações. Nesse momento, por exemplo, existe uma ferramenta criada pelo próprio Governo Federal em que as pessoas podem se cadastrar para que elas não se inscrevam, não tenham mais possibilidade de se inscreverem, se cadastrarem em sites de apostas. Ou seja, as próprias pessoas estão criando essa consciência e atualmente, se não me engano, tem cerca de 800 mil pessoas já inscritas. Ou seja, são pessoas que estão conscientes desse problema e estão se cadastrando nessa plataforma do governo para evitar voltar a ter acesso a essas formas de aposta. E por outro lado existe um Projeto de Lei que acabou de dar entrada no Congresso Nacional para limitar as propagandas das bets… porque elas estão por todos os lados. Algo parecido com o que já foi feito, por exemplo, com os cigarros, que tiveram a sua propaganda, a sua divulgação, a sua publicidade bastante limitada, justamente porque trata-se de um produto que causa um dano trágico, enorme na sociedade. E isso a gente, obviamente, vai atualizando a cada período, a cada momento da peça, a cada novidade que aparece, mas a gente tenta, de alguma maneira, trazer aquilo também para dentro do debate que acontece no espetáculo.

Entrevista com DANIEL DIAS DA SILVA @daniel.diasdasilva
Rodolfo Abreu: “Raspadinhas” estreou em 2025 e foi um sucesso. Agora em março volta para nova temporada. O que você percebeu durante as apresentações de reações do público e da mensagem da peça e o que está sendo atualizado ou adicionado na nova temporada?
Daniel Dias da Silva: O que a gente tem percebido, desde que a peça estreou, é que esse é um tema que vem ganhando cada vez mais relevância. E isso tornando um debate importante hoje em dia na sociedade. Eu acho que as pessoas estão criando mais consciência em relação à questão do vício em jogos e isso tem mobilizado a opinião pública também. Por outro lado, as grandes empresas de apostas estão se proliferando cada vez mais e ganhando cada vez mais força econômica. Então, é um embate muito presente hoje em dia. De um lado, a questão da saúde pública, a saúde financeira e mental mesmo das pessoas e das famílias que têm pessoas envolvidas com a questão do jogo. Do outro, a necessidade de normatização, de regulamentação dessas atividades e de que forma que isso tem impactado na própria economia, porque tem tirado dinheiro de itens importantes como educação, alimentação, de diversas famílias. Também a questão da necessidade de criação de impostos que de alguma maneira consigam reverter esse investimento cada vez maior nas bets em prol da sociedade. Para que recursos sejam revertidos para políticas públicas, para a sociedade, como uma forma de minimizar um pouco os efeitos danosos e desastrosos que muitas vezes isso provoca nas famílias, principalmente de baixa renda.
O que a gente tem feito em relação a essa nova temporada são pequenos ajustes porque a cada dia nós temos notícias novas e novas informações. Nesse momento, por exemplo, existe uma ferramenta criada pelo próprio Governo Federal em que as pessoas podem se cadastrar para que elas não se inscrevam, não tenham mais possibilidade de se inscreverem, se cadastrarem em sites de apostas. Ou seja, as próprias pessoas estão criando essa consciência e atualmente, se não me engano, tem cerca de 800 mil pessoas já inscritas. Ou seja, são pessoas que estão conscientes desse problema e estão se cadastrando nessa plataforma do governo para evitar voltar a ter acesso a essas formas de aposta. E por outro lado existe um Projeto de Lei que acabou de dar entrada no Congresso Nacional para limitar as propagandas das bets… porque elas estão por todos os lados. Algo parecido com o que já foi feito, por exemplo, com os cigarros, que tiveram a sua propaganda, a sua divulgação, a sua publicidade bastante limitada, justamente porque trata-se de um produto que causa um dano trágico, enorme na sociedade. E isso a gente, obviamente, vai atualizando a cada período, a cada momento da peça, a cada novidade que aparece, mas a gente tenta, de alguma maneira, trazer aquilo também para dentro do debate que acontece no espetáculo.
SERVIÇO
Raspadinhas
Comédia com Alain Catein, dirigida por Daniel Dias da Silva
🗓️ 5 a 29 de março / sex e sáb às 20h; dom às 18h
📍 Espaço Abu – Av. Nossa Sra. de Copacabana, 249 – loja E – Copacabana/ RJ
🎟️ Ingressos: https://linktr.ee/raspadinhas.teatro
📱 Instagram: @raspadinhas.teatro
🕗 60 minutos / Classificação 12 anos
FICHA TÉCNICA – “Raspadinhas”
Texto e atuação: Alain Catein
Direção: Daniel Dias da Silva
Direção de movimento: Marlon Vares
Direção musical: Bruno Costa
Figurino e cenário: Jovanna Souza
Preparação vocal: Júnio Duarte
Voz off: Junior Melo
Iluminação: Livs
Coreografias: Malu Cordioli
Assessoria de imprensa e mídias sociais: Rodolfo Abreu (Interativa Doc)
Programação visual: DeWaneios (Wanessa Ribeiro e Kath Xapi Puri)
Operação de som: Andressa Costa
Intérprete de Libras: Suanne Gonçalves
Operação de luz: Livs e Luiz Paulo
Produção executiva: Gabriela Tavares, Alan Ribeiro
Assistente de produção: Luiz Alfredo Montenegro
Realização: Teçá – arte e cultura
Texto e entrevista por: Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Imagens: Divulgação




