Filha de um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, a atriz, diretora e professora Cristina Bethencourt (@cristina_bethencourt) transformou o centenário do pai, João Bethencourt, em um amplo movimento de resgate de sua obra. Entre exposições, leituras dramatizadas e autorizações para novas montagens, Cristina vem recolocando em evidência um autor cuja escrita permanece surpreendentemente atual, capaz de dialogar com temas que continuam ressoando na sociedade brasileira.
Tanto que uma das mais populares comédias de costume de João Bethencourt, “O Filho das Mães” (@ofilhodasmaes.teatro), entra agora em cartaz no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim às terças e quartas de agosto com direção de Pia Manfroni. A peça conhecida anteriormente como “Circuncisão em Nova York”, chega agora com o título original que João nomeou, por iniciativa da produção de Isabella Barros e Guilherme DelRio. Por ocasião da nova montagem, Cristina reafirma a importância de preservar um legado que vai muito além da memória familiar. Para ela, revisitar João Bethencourt é reconhecer um dramaturgo visionário, que utilizava a comédia de costumes para provocar reflexões profundas sobre liberdade, preconceito, política e relações humanas, sempre distante de discursos fáceis.
Na conversa a seguir, Cristina relembra os bastidores de uma infância cercada por grandes artistas, fala sobre a disciplina quase obsessiva do pai diante da máquina de escrever e revela como o rigor, o humor e o amor pelo teatro moldaram sua própria trajetória artística. Também comenta os desafios de manter viva uma obra que continua encontrando novos públicos e novas leituras.
Em entrevista ao jornalista Rodolfo Abreu, Cristina Bethencourt compartilha memórias, reflexões e histórias que ajudam a compreender por que João Bethencourt permanece como uma das vozes mais importantes da dramaturgia nacional — e por que suas peças seguem tão atuais décadas depois de terem sido escritas. Acompanhe.

Rodolfo Abreu: Em 2025, o centenário de João Bethencourt mobilizou uma série de homenagens, exposições e leituras dramatizadas idealizadas por você. O que mais te surpreendeu ao revisitar a obra do seu pai com o olhar de hoje?
Cristina Bethencourt: O centenário de João Bethencourt foi um momento importante para divulgar a obra deste dramaturgo que já foi montado em diversos países, principalmente na Alemanha onde é representado até hoje! Eu, enquanto artista e filha, estou sempre revisitando a obra de meu pai. Mas o que sempre me surpreende é a contemporaneidade da maioria de suas peças, “O dia em que raptaram o Papa”, que foi dirigida por mim no ano passado, poderia ter sido escrita hoje! O plot da peça envolve um inusitado pedido de resgate pelo sequestro do Papa: O dia da paz, onde ninguém pode matar ninguém por 24 horas! Tarefa impossível para todos os países que, desesperados, se reúnem para tentar realizar esse feito.
Aconteceu algo parecido no ciclo de leituras ano passado, onde as peças lidas, inclusive duas inéditas, falam sobre questões de hoje, ou seja, percebemos que João Bethencourt sempre foi visionário. É importante ressaltar que a exposição e o ciclo de leituras foram idealizados e produzidos por mim, pela crítica e professora Tania Brandão e pela diretora Silvia Monte.

Rodolfo Abreu: Existe um João Bethencourt que o público conhece e outro que permaneceu restrito aos bastidores da criação. Quem era esse dramaturgo longe dos palcos?
Cristina Bethencourt: Apesar de toda obra de João Bethencourt ser permeada pelo humor e situações cômicas, o profissional João era extremamente disciplinado, adotando horários para escrever que cumpria regiamente. Sua busca pela piada certa era uma verdadeira obsessão. Ele não levantava de sua escrivaninha enquanto não resolvesse essa ou aquela cena. Apesar de ser cioso de seu texto, permitia aos grandes comediantes adicionarem cacos nas suas peças, caso fossem pertinentes e, claro, engraçados.
Rodolfo Abreu: Você costuma dizer que preservar a obra dele é também preservar uma parte importante da história do teatro brasileiro. O que se pode dizer para o público que ainda não conhece a obra de João Bethencourt e seu papel de destaque na dramaturgia nacional?
Cristina Bethencourt: João Bethencourt é da linhagem de Martins Pena, um dos primeiros comediógrafos do Brasil. Ambos adotaram a comédia de costumes como estilo, fazendo críticas ácidas à sociedade em geral. Ler João Bethencourt hoje é entender como a comédia teatral caminhou no Brasil e achar seus desdobramentos.
Rodolfo Abreu: “O Filho das Mães” foi escrita décadas atrás e montada com o título de “Circuncisão em Nova York”, tratando de temas que parecem extremamente contemporâneos, como novas configurações familiares, preconceito e pertencimento. Como você vê essa história hoje, com as transformações que o mundo e a sociedade?
Cristina Bethencourt: O filho das mães foi escrita em 2005 e montada pela primeira vez em 2008 (João já havia falecido) sob minha direção e de Ricardo Kosovski, tendo Francisco Cuoco como protagonista. Penso que a história é ainda muito pertinente, principalmente por confrontar o conservadorismo e a liberdade, tendo como conciliador desses pólos, o amor! Independente da trama, o autor quer mostrar que a compreensão e a tolerância são os antídotos para qualquer conflito.
Rodolfo Abreu: A peça coloca em choque tradição e transformação sem recorrer a discursos panfletários. Esse equilíbrio era uma característica consciente da escrita dele?
Cristina Bethencourt: João nunca foi panfletário: por ter sido um artista extremamente crítico e rigoroso com o próprio trabalho, buscando uma visão multifacetada das situações abordadas, não caía em discurso fácil e apelativo.

Rodolfo Abreu: Como era crescer dentro de uma casa onde o teatro fazia parte da rotina? Em que momento você percebeu que seu pai não era apenas “seu pai”, mas um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira?
Cristina Bethencourt: Cresci com o som da máquina de escrever e cuidados para manter a casa silenciosa, João Bethencourt trabalhava no seio familiar, as crianças não podiam fazer muito barulho… À noite, muitas vezes recebia artistas da cena carioca e tive o privilégio de conhecer Fernanda Montenegro, Marília Pera, Domingos Oliveira (o tio Domingos), entre tantas figuras incríveis. Millôr Fernandes foi padrinho de casamento dos meus pais. Isso me fez entender desde sempre que o trabalho dele era muito importante e sério, apesar das peças engraçadas e das excursões pelas coxias com meu irmão, éramos verdadeiros “ratos de teatro” no bom sentido.

Rodolfo Abreu: Você construiu sua própria carreira como atriz, diretora e professora de teatro. Em algum momento sentiu o peso — ou o privilégio — de carregar um sobrenome tão importante para o teatro brasileiro? E há algum ensinamento artístico dele que ainda orienta suas escolhas como atriz e diretora?
Cristina Bethencourt: Desde que decidi que trabalharia com teatro, comecei como atriz, procurei me distanciar de meu pai. O primeiro momento foi difícil, ele era muito exigente e queria entender se eu teria vocação, sempre achou uma carreira difícil, com uma vida instável. Mas o que eu via em casa era um autor de sucesso, mas que trabalhava bastante pra isso! Esse foi um dos maiores ensinamentos, a busca por fazer o melhor através de muito trabalho! Depois que meu pai entendeu que eu havia escolhido a arte como profissão, tendo feito peças com outros diretores, me formado na CAL e Uni-Rio (como diretora), comecei a trabalhar com ele também: fui assistente de direção e atriz de seus espetáculos, aprendi muito de humor e disciplina dessa vez pelo ângulo de uma profissional. O que levo de seus ensinamentos é o amor e a seriedade com o trabalho artístico.
Rodolfo Abreu: Existe alguma peça do João Bethencourt que você gostaria de dirigir, mas que ainda espera o momento certo?
Cristina Bethencourt: Sim, “A Ovelha Rebelde”.

Rodolfo Abreu: O Brasil de hoje ainda inspira o mesmo olhar crítico e bem-humorado que João Bethencourt tinha sobre a sociedade?
Cristina Bethencourt: O humor nunca vai morrer, é fundamental para a saúde de uma sociedade. Não dá pra levar tudo à sério, se não rirmos das contrariedades e infortúnios da vida adoecemos. Essa é uma das lições que aprendi com meu pai e com o dramaturgo João Bethencourt. Na minha dissertação de Mestrado sobre João chamada “O Acadêmico Popular”, faço uma dedicatória aos meus pais: “À Margot e João que sempre me ensinaram que rir é o melhor remédio.”


