A história do Rio de Janeiro pode ser compreendida pelas profundas transformações realizadas em sua geografia. Ao longo dos séculos, lagoas, manguezais, praias, enseadas e braços da Baía de Guanabara foram drenados ou aterrados para permitir a abertura de ruas, a construção de praças, a expansão dos bairros e a circulação de pessoas e mercadorias. Tais intervenções eram frequentemente apresentadas pelas autoridades como símbolos de saneamento, civilização e progresso. Contudo, ao mesmo tempo em que criavam novos espaços urbanos, as antigas paisagens naturais desapareceram, bem como foi se modificando a relação dos habitantes da cidade com o curso das águas.

Um dos exemplos mais conhecidos é o da antiga Lagoa do Boqueirão da Ajuda, situada entre a região da atual Lapa e os arredores do Passeio Público. No século XVIII, a lagoa era considerada pelas autoridades uma área insalubre, marcada pelo acúmulo de lixo, lama e águas paradas. Entre 1779 e 1783, foi aterrada com terra retirada do Morro das Mangueiras. Sobre parte daquele terreno foi construído o Passeio Público, projetado por Mestre Valentim e inaugurado em 1783.

Vale recordar que, naquele período, o jardim se encontrava muito próximo do mar. Hoje, por causa dos aterros realizados posteriormente, o Passeio Público está afastado da antiga linha costeira. Com efeito, a transformação da Lagoa do Boqueirão favoreceu a ocupação das áreas da Ajuda, da Lapa e da futura Cinelândia.

O Theatro Municipal não foi construído exatamente no centro da antiga lagoa, como algumas narrativas costumam sugerir. Contudo, surgiu numa região profundamente modificada pelos sucessivos aterros e, mais tarde, pelas reformas urbanas promovidas no início do século XX, em especial pela abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Desse modo, a paisagem monumental da Cinelândia também guarda, sob seus edifícios, ruas e calçadas, a memória das águas desaparecidas.

Por sua vez, o Largo da Carioca constitui outro exemplo importante dessas transformações. Naquela região existia a Lagoa de Santo Antônio, gradualmente drenada e aterrada. A antiga Rua da Vala, atual Rua Uruguaiana, integrava o sistema de escoamento das águas que desciam dos morros e atravessavam o centro da cidade. Com o desaparecimento da lagoa, formou-se um dos espaços de maior circulação de pessoas do Rio de Janeiro.

A Cidade Nova e a região onde hoje se encontra a Avenida Presidente Vargas também se desenvolveram sobre áreas originalmente alagadas. O Mangal de São Diogo era formado por mangues, canais e terrenos pantanosos. Desde o início do século XIX, a região passou por sucessivos aterramentos. A abertura do Caminho do Aterrado e, posteriormente, da Avenida do Mangue permitiu que a cidade avançasse em direção a São Cristóvão.
O certo é que a expansão urbana do Rio dependia, em grande medida, da conquista dessas áreas consideradas impróprias para a ocupação. Ao transformar mangues e lagoas em terrenos edificáveis, as autoridades ampliavam os limites da cidade, ainda que tais obras provocassem novos problemas de drenagem e alterassem o curso natural das águas.

Na região portuária, antigas praias e enseadas também desapareceram com as obras de modernização do porto. A Prainha, o Valongo, a Saúde e a Gamboa tiveram suas paisagens modificadas por aterros sucessivos. Acrescente-se a isso a transformação da Enseada de São Cristóvão, sobre a qual se estende parte da atual Avenida Francisco Bicalho.
No século XX, o exemplo mais expressivo foi o Aterro do Flamengo. Grande parte da terra utilizada na obra veio do desmonte do Morro de Santo Antônio. O aterro permitiu a criação de avenidas, jardins, áreas de lazer e equipamentos culturais. Contudo, também afastou bairros históricos, como a Glória e o Catete, da antiga linha do mar.
Seja como for, conhecer a história dos aterros significa compreender que o Rio de Janeiro não cresceu apenas entre montanhas, florestas e praias. A cidade também foi construída sobre águas desaparecidas. Sob praças, avenidas, jardins e edifícios permanecem as marcas de lagoas, manguezais, praias e enseadas que, em outros tempos, integravam a paisagem carioca.
Podemos vislumbrar, portanto, que a história urbana do Rio é também uma história de permanentes disputas entre a natureza, os projetos de modernização e os interesses do poder público. Recordar essas águas escondidas ajuda a enxergar o Centro não apenas como um conjunto de construções, mas como um território construído por sucessivas intervenções humanas.
Crédito das imagens
1. Kamache. Pão de Açúcar e Aterro do Flamengo, 31 de maio de 2018. Fonte: Wikimedia Commons. Licença Creative Commons Atribuição–CompartilhaIgual 4.0 Internacional — CC BY-SA 4.0.
2. Augusto Malta. Obras de aterro na Glória e Lapa — Avenida Beira-Mar em direção ao Outeiro da Glória, c. 1906–1916. Domínio público. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
3. Marc Ferrez. Vista do Passeio Público, do Morro do Castelo, da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, da praia e da Igreja de Santa Luzia ao fundo, c. 1880–1890. Domínio público. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
4. Autor não identificado. Praça Marechal Floriano, Teatro Municipal e Escola Nacional de Belas Artes, c. 1912–1917. Domínio público. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
5. Autor anônimo. Avenida Central, Rio de Janeiro, 1912. Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
6. Thomas Ender. Vista da fonte da Carioca, com o Convento de Santo Antônio e a Capela da Ordem Terceira, 1817. Akademie der Bildenden Künste Wien. Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
7. Autor não identificado. Demolição do Morro do Castelo; tomada da atual Avenida Almirante Barroso, c. 1922–1925. Domínio público. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.


