Com mais de quatro décadas de carreira, o ator e diretor Marco Miranda (@marcomirandaca) reside atualmente em Portugal. Mas foi um convite irrecusável que o fez passar recentemente uma nova temporada no Rio de Janeiro. Marco assumiu a direção do espetáculo teatral Lábios que Beijei (@labiosquebeijei.teatro), de Júlio Kadetti, baseado na obra homônima e quase autobiográfica de Aguinaldo Silva.A peça fica em cartaz nos finais de semana de 31 de julho a 30 de agosto no Teatro Laura Alvim, em Ipanema.Uma narrativa que mistura ficção e realidade em ritmo vertiginoso, conduzindo o espectador para o Brasil de 1970 e 1971, período em que o medo e a repressão moldavam não apenas a política, mas também os afetos, os desejos e a vida cotidiana. A peça entra em cartaz de 31 de julho a 30 de agosto, de sexta a domingo, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema.

Marco Miranda é conhecido do grande público por diversos papéis na TV, no cinema e no teatro. Alguns de seus trabalhos que estão na cabeça do público são: Vale Tudo, Sassaricando, O Salvador da Pátria, Mulheres de Areia, A Indomada, O Rio de Cabo a Rabo, Minha Mãe é uma Peça 2 e O Beijo no Asfalto. Produções tão variadas que mostram a capacidade de viver histórias e personagens muito diversos.
Na entrevista a seguir, Marco Miranda revela que sua principal preocupação na direção de Lábios que Beijei não foi reconstruir uma época por meio de uma reconstituição histórica convencional, mas fazer com que o peso invisível daquele tempo permanecesse vivo em cena. Para ele, a ditadura militar funciona como uma presença constante, uma sombra que atravessa as relações entre os personagens e ajuda a compreender muitos dos dilemas que ainda ecoam no Brasil contemporâneo. Em sua leitura, Lábios que Beijei ultrapassa o interesse biográfico por dialogar com questões universais: o medo, a intolerância, a liberdade e, sobretudo, a capacidade de o amor sobreviver mesmo em ambientes marcados pela violência e pela exclusão.

Ao longo da conversa, o diretor também comenta o processo de construção do espetáculo ao lado do elenco e da equipe criativa, defendendo o teatro como uma arte essencialmente coletiva. Embora os personagens criados por Kadetti já apresentem uma estrutura dramatúrgica sólida, Miranda destaca que o trabalho de ensaio permitiu descobrir novas camadas emocionais, valorizando os contrastes humanos que fazem da Lapa retratada na peça um território pulsante de encontros, desencontros e sobrevivência. A cidade, mais do que cenário, surge como personagem, avançando sobre a narrativa com a mesma força de uma onda prestes a transformar tudo ao seu redor.
Premiado por sua contribuição às artes cênicas e dono de uma carreira construída em diferentes linguagens, Marco Miranda evita olhar para trás quando fala de sua trajetória. Em vez de destacar sucessos na televisão, no cinema ou no palco, prefere concentrar sua energia no trabalho presente. Talvez por isso sua direção para Lábios que Beijei encontre tanta sintonia com a essência da obra: um espetáculo que revisita o passado não para permanecer nele, mas para provocar reflexões urgentes sobre o presente. O diretor resume aquilo que espera deixar no público depois que a cortina se fecha: a certeza de que, mesmo em meio ao caos, o amor continua sendo a força capaz de atravessar o tempo.
Acompanhe a entrevista.
Rodolfo Abreu: Lábios que Beijei nasce de um romance de Aguinaldo Silva e ganha pela primeira vez uma montagem no teatro, a partir da adaptação de Júlio Kadetti. O que mais chamou sua atenção nesse material quando recebeu e como foi o convite para dirigi-lo?
Marco Miranda: A primeira vez que li “Lábios que beijei”, de Júlio Kadetti, baseado na obra de Aguinaldo Silva, foi um impacto. O texto – cuja narrativa acontece entre 1970/71 – nos remete a uma época sombria do país e a escrita de Kadetti é firme e segue em um vórtice alucinante, como uma montanha russa, mesclando ficção e realidade sem trégua. É como um mergulho, em um único fôlego, em um mar profundo. Fui imediatamente envolvido pela obra e quando o produtor Guilherme DelRio me convidou para dirigi-la a aceitação foi imediata, pois eu já estava inteiramente envolvido.

Rodolfo Abreu: Como é dirigir uma peça que é inspirada em parte da vida de alguém amplamente conhecido que está na ativa, como o romancista e dramaturgo Aguinaldo Silva?
Marco Miranda: Toda obra artística é ficcional, pois passa pelo olhar de diversas pessoas. Trabalhar contudo com um material que remete diretamente a vida de alguém com a projeção de Aguinaldo Silva exige de todos os envolvidos uma atenção especial pois estamos lidando com fatos conhecidos e, portanto, por mais que tenhamos liberdade para criar, devemos estar atentos para não alterá-los.
Rodolfo Abreu: Os personagens dessa história são intensos e carregam uma atmosfera bastante marginal, da Lapa nos anos 1970, ao mesmo tempo que vivem em tempos difíceis. Como sua direção está explorando essa contradição e riqueza que os personagens oferecem?
Marco Miranda: Julio Kadetti nos oferece com sua obra uma ótima oportunidade de mergulharmos no lado humano de todos os personagens, com todos os seus conflitos, medos e principalmente seus amores. Existem grandes contrastes em alguns deles. Tais contrastes levam a choques, encontros e desencontros. Existe também um grande movimento urbano na região da Lapa que se torna presente no espectáculo como uma grande onda que se aproxima pronta a destruir tudo. Buscamos mostrar tais conflitos e contrastes de forma clara e simples.

Rodolfo Abreu: Como foi o trabalho de construção dos personagens junto ao elenco? Você buscou um processo mais livre de experimentação ou partiu de uma concepção bastante definida?
Marco Miranda: Temos no texto personagens bem definidos e construídos com precisão. No início dos trabalhos sempre podemos buscar possibilidades e caminhos . À medida que os trabalhos avançam , algumas características vão se definindo e está movimentação vai , naturalmente , apontando uma diretriz.
Rodolfo Abreu: Existe um pano de fundo determinante nessa história, um período que ficou conhecido como os “Anos de Chumbo”, que marcou profundamente a vida política e cultural brasileira. Como isso está sendo explorado na montagem?
Marco Miranda: Em 1970/ 1971, época em que a peça se passa , o Brasil vivia o período da ditadura militar. O chamado AI5 estava em vigor. havia então no ar, em uma parte da população, um medo que, de certa forma, moldava os comportamentos e as relações. Buscamos trazer para a cena essa presença, esse peso invisível. Era um tempo onde, parecia, que não havia sorrisos, somente pairava sobre todos uma grande nuvem. É importante conhecer o passado para entender o presente e planejar o futuro.


Rodolfo Abreu: O espetáculo fala de um tempo passado, mas quais questões você acredita que ecoam diretamente na sociedade contemporânea?
Marco Miranda: Para uma geração mais nova pode parecer que tudo aquilo que aconteceu no período de 1970/71 está muito distante, literalmente no século passado. Contudo aquele contexto ainda está presente na vida do país. A história é sempre importante pois esclarece, dimensiona, contextualiza e, principalmente, nos lembra e mostra que muitas daquelas situações parecem se repetir nos dias atuais.
Rodolfo Abreu: Como está sendo o trabalho da equipe criativa e técnica nesse trabalho? Como está a integração de todos com sua direção?
Marco Miranda: Existem algumas coisas que não se consegue fazer sozinho. Teatro é uma delas . O teatro é um trabalho de equipe onde todos devem e podem contribuir para a construção do espetáculo seguindo a mesma diretriz . Em algumas ocasiões esta onda harmônica e criativa aparece. No espetáculo Lábios que beijei conseguimos essa energia positiva e única, com a contribuição de todos. O Teatro também não se constitui apenas daqueles que estão no palco. Existe toda uma equipe que a plateia normalmente não vê que, entretanto, é fundamental para que possamos abrir a cortina. Acredito que o Universo inspirou e conseguimos.
Rodolfo Abreu: Você construiu uma carreira bastante diversa, atuando como ator, diretor, professor e escritor, seja no teatro, cinema ou televisão. De que maneira todas essas experiências dialogam quando você assume a direção de um espetáculo?
Marco Miranda: É interessante perceber a colaboração que uma função dá à outra. Eu consigo, como diretor, perceber as dúvidas e incertezas dos atores, pois sou ator. Consigo , como ator, perceber as necessidades do diretor , pois sou diretor. Quando leio um texto e vejo uma rubrica do autor, entendo aquela necessidade, pois também sou autor. Assim uma função vai colaborando com a outra e todas as peculiaridades juntas criam um facilitador no trabalho como um todo e me possibilitam entender quase todas as demandas que possam surgir.

Rodolfo Abreu: Você atuou em trabalhos muito diversos, que moram no imaginário popular brasileiro, como Vale Tudo, Sassaricando, O Salvador da Pátria, Mulheres de Areia, Minha Mãe é uma Peça 2 e O Beijo no Asfalto… só para citar alguns. Que trabalhos você considera mais significativos em sua trajetória?
Marco Miranda: Sempre considero mais significativo o trabalho do momento. Aquele que estou fazendo aqui e agora pois é ele que necessita de todas as minhas energias. Tenho, entretanto, um grande carinho por todos os trabalhos que fiz ao longo de minha trajetória. Alguns deles tenho um carinho especial pois dali surgiram grandes obras que deixaram amigos até os dias atuais. grandes amizades foram construídas e permanecem até hoje.

Rodolfo Abreu: Em um momento em que tantas produções teatrais chegam aos palcos, sejam adaptações ou não, o que faz de Lábios que Beijei uma obra necessária para o público de hoje?
Marco Miranda: O teatro pode funcionar como um catalisador e irradiador de arte, cultura, sentimentos e situações do cotidiano e da vida. Pode ajudar a desenvolver o olhar crítico que leva a uma observação clara daquilo que nos cerca , que nos leva a perceber que nem tudo que está à nossa volta pode ser naturalizado . Lábios que beijei é um texto que nos leva a um passado recente e mostra situações que podem ajudar a compreender os dias atuais.


Rodolfo Abreu: Se o público pudesse sair do teatro levando apenas uma sensação ou uma pergunta depois de assistir a Lábios que Beijei, qual você gostaria que fosse?
Marco Miranda: O texto de Júlio Kadetti é uma usina, um turbilhão de ideias. Vários pensamentos, muitas questões. Existe uma contudo que acho, senão a principal questão humana, certamente uma delas. O amor. Existe em meio a tudo que acontece na peça, uma história de amor. E o amor sempre vale a pena, seja ele do tipo que for. Isso é importante. Lembro também a música “Divino maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. “…é preciso estar atento e forte…”.






