Na coluna anterior, apresentamos um panorama da evolução urbana Praça XV ao longo dos séculos. Destacamos a antiga Praia do Peixe, o Cais Pharoux, como eram realizadas a travessias dali pela Baía de Guanabara, bem como situamos as mudanças urbanas que alteraram profundamente a paisagem daquela região, como um curioso passeio pela história da cidade do Rio de Janeiro. Contudo, alguns vestígios do passado continuam presentes, e contam as histórias sobre diferentes momentos da urbe carioca, bem como da História do Brasil. Afinal, durante muito tempo a história do Brasil se confundiu, e não raro, se fundiu com a história do Rio.

É uma relação curiosa, que explica a ideia de capitalidade do Rio de Janeiro, um conceito cunhado pela historiadora Marly Motta. A noção revela como a cidade concentrou não apenas o poder político, financeiro e administrativo, mas também um imaginário nacional que ainda persiste na mente de muitos indivíduos (brasileiros ou não), mesmo após a transferência da capital federal para a Brasília durante o governo de Juscelino Kubitschek. Não raro, símbolos, memórias e imagens projetam ainda a cidade como um espelho e vitrine da nação brasileira.

Praça XV de Novembro em registro histórico do início do século XX, com o Cais Pharoux e o Chafariz do Mestre Valentim integrando a antiga paisagem urbana do Rio de Janeiro. — Foto: Augusto Malta (1906) / Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons²

Então, é nesse ponto que os monumentos da Praça XV ganham importância. São marcos urbanos que revelam parte dessa história sobre a capitalidade. São lugares de memória criados para preservar lembranças de um passado, quando a memória não é suficiente. Portanto, não são neutros. Pelo contrário, expressam as escolhas, os valores, as disputas envolvidas e os interesses sobre aquilo que a sociedade decidiu lembrar na paisagem urbana.

Atualmente, a Praça XV reúne alguns monumentos que remetem a diferentes momentos da história da cidade. O mais antigo deles é o Chafariz do Mestre Valentim, inaugurado em 1789, em substituição a uma fonte anterior construída pelo engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim, em 1747. Antes dos sucessivos aterros que transformaram a paisagem da região, o chafariz ficava diante da Baía de Guanabara e abastecia, com as águas do rio Carioca, a população e as embarcações ali ancoradas. O artista negro mineiro Mestre Valentim responsável pela obra, aliás, participou algumas importantes intervenções urbanas quando o Rio de Janeiro era capital do Vice-Reino. Entre as quais, o Chafariz que leva o seu nome, na atual Praça XV, e o Passeio Público, na atual Lapa, considerado o primeiro jardim público nacional.

Chafariz do Mestre Valentim, inaugurado em 1789, um dos principais marcos remanescentes do período colonial na atual Praça XV. — Foto: Carlos Luis da Cruz (2012) / Wikimedia Commons³

Outro monumento de destaque é a estátua equestre de Dom João VI. Construída pelo escultor Humberto Cozzo foi inaugurada em 1965, durante as comemorações dos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro. Mais do que homenagear o monarca responsável pela transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, o monumento permite indagar por que, naquele momento, a cidade escolheu representar e celebrar um passado monárquico. A inauguração ocorreu em 10 de junho, quando se celebra o Dia de Portugal e Dia de Camões. A existência de uma réplica da estátua na cidade do Porto, em Portugal, destaca a instrumentalização da memória sobre um passado em comum nos dois lados do Atlântico.

Retrato de Dom João VI, monarca responsável pela transferência da Corte portuguesa para o Brasil em 1808. — Foto: Henri-François Riesener / Wikimedia Commons

Nos arredores, ainda encontramos a estátua equestre do General Osório, inaugurada em 1894, poucos anos depois da Proclamação da República em 1889. Considerado umas das figuras mais populares do Exército Brasileiro. Manuel Luís Osório se destacou durante a controversa Guerra do Paraguai. De soldado, chegou ao posto de marechal, bem como ministro da guerra. A estátua foi construída pelo escultor Rodolfo Bernadelli, e contou com arrecadação popular. A inauguração foi marcada por uma grade festa pública, como parte das comemorações do novo regime republicano.

Monumento equestre ao Marechal Osório diante do Paço Imperial, em registro histórico realizado entre o final do século XIX e o início do século XX. — Foto: Marc Ferrez (c. 1897–1907) / Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons

Mais recentemente, em 2008, a Praça XV recebeu a estátua de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro. A obra foi transferida do Museu da República, no Catete, para o local, após a aprovação da anistia concedida a João Cândido e a outros revoltosos que se envolveram na Revolta da Chibata em 1910. Um movimento que lutou contra os castigos físicos e as péssimas condições impostas aos marinheiros de baixa patente, em sua maioria afrodescendentes.

João Cândido Felisberto em retrato de 1910, ano em que liderou a Revolta da Chibata. — Foto: Arquivo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons
Monumento a João Cândido na região central do Rio de Janeiro, homenagem ao chamado “Almirante Negro”. — Foto: Beth Santos / Prefeitura do Rio⁷

Contudo, a escolha para o local não foi aleatória. Instalada próxima ao mar e à Ilha das Cobras, onde João Cândido ficou preso, a estátua se insere na paisagem do Centro ao sinalizar como uma memória por muito tempo silenciada e ignorada: a luta de trabalhadores e de trabalhadoras por dignidade e reconhecimento.

Estátua de João Cândido próxima à Baía de Guanabara, reforçando a presença da memória da Revolta da Chibata na paisagem urbana carioca. — Foto: Al Lemos / Wikimedia Commons⁸

A presença desses monumentos mostra que a Praça XV não é apenas um espaço de passagem. Podemos contemplá-la como um lugar de memória, onde diferentes tempos da cidade se sobrepõem e permanecem inscritos na paisagem. Entre reis, militares, artistas e lideranças populares, a praça revela as escolhas, as disputas e os silêncios que forjaram a história do Rio e do Brasil.


Crédito das imagens

1. Caschwerz, 2015. Fonte: Wikimedia Commons
2. Augusto Malta (1864–1957), 1906. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons
3. Carlos Luis da Cruz, 2012. Fonte: Wikimedia Commons
4. Henri-François Riesener. Fonte: Wikimedia Commons
5. Marc Ferrez (c. 1897–1907). Fonte: Wikimedia Commons
6. Arquivo do Estado de São Paulo. Fonte: Wikimedia Commons
7. Beth Santos. Fonte: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
8. Al Lemos. Fonte: Wikimedia Commons

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Luciene Carris é colunista da Revista Vislun, doutora em História pela UERJ e pesquisadora da história do Rio de Janeiro. Seus textos conectam passado e presente com linguagem acessível e olhar crítico sobre a formação da cidade.

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