Uma pergunta simples, mas inquietante nos tempos atuais é: estamos utilizando a internet como ferramenta ou nos tornando reféns dela? Esse tem se tornado um dos temas mais urgentes da contemporaneidade, interferindo no nosso dia a dia. Inspirado nesse dilema, o ator e autor teatral Fran Gerson Melo (@fran.gerson.melo)resolveu falar do assunto de forma bem-humorada no espetáculo “Tá Bem Mal – A Comédia da Idade Mídia”,(@tabemmal_) onde também atua ao lado da atriz Bid Lima (@bidlimaatriz).
Entre curtidas, algoritmos, influenciadores, excessos de informação e relações mediadas por telas, o espetáculo utiliza a comédia para investigar um fenômeno que atravessa gerações: a presença cada vez mais determinante das redes sociais em nossas vidas. Antes de subir ao palco carioca, a peça já conquistou o público em sua estreia no Piauí ao transformar um o tema em matéria-prima para o humor. A provocação proposta pela peça constrói situações cômicas que refletem comportamentos cotidianos, expondo contradições, fragilidades e mecanismos de validação que se tornaram comuns na era digital. O resultado é uma obra que diverte sem abrir mão da crítica e da reflexão.


Bid Lima, artista multifacetada que acumula trajetórias como atriz, diretora, escritora, produtora, figurinista, cenógrafa e arte-educadora divide a cena com Fran Gerson Melo. Com uma carreira marcada pela valorização da cultura piauiense e pela circulação de seus trabalhos em diferentes estados brasileiros e também no exterior, ela vê em “Tá Bem Mal” uma oportunidade de ampliar o diálogo sobre temas universais sem perder as raízes de sua identidade artística. Para a atriz, o humor continua sendo uma poderosa ferramenta de transformação, capaz de provocar questionamentos que permanecem ecoando muito depois do riso.
Nesta entrevista, Bid Lima e Fran Gerson Melo falam sobre a chegada do espetáculo ao Rio de Janeiro, o processo de criação dos personagens, a escolha da comédia como linguagem para discutir os impactos das redes sociais e os desafios de equilibrar entretenimento e reflexão. Entre observações sobre o comportamento humano, críticas ao excesso de conectividade e muitas doses de humor, os artistas revelam os bastidores de uma montagem que convida o público a rir de si mesmo enquanto repensa sua relação com o mundo digital. Acompanhe a conversa.

Entrevista com Bid Lima
Rodolfo Abreu: Como está a expectativa de apresentar “Tá Bem Mal” pela primeira vez no Rio de Janeiro, depois de ter estreado com sucesso no Piauí?
Bid Lima: A expectativa é das melhores. Estrear uma obra no nosso estado já é sempre um momento muito especial, porque estamos diante do nosso público, das nossas referências e dos afetos que nos constituem. Levar “Tá Bem Mal” para o Rio de Janeiro amplia esse diálogo e nos permite compartilhar uma produção feita no Piauí com espectadores de diferentes trajetórias. Estou muito feliz e curiosa para perceber como o público carioca vai se reconhecer nas situações que a peça apresenta, porque, embora tenha uma identidade muito nossa, ela trata de questões universais e que são latentes no momento.
Rodolfo Abreu: O título “Tá Bem Mal” já provoca uma contradição imediata. O que ele revela sobre a história que o público vai encontrar?
Bid Lima: O título traduz muito bem uma característica do nosso tempo: a necessidade de aparentar que está tudo certo, mesmo quando não está. Quantas vezes alguém pergunta “como você está?” e a resposta automática é “tá tudo bem”, mesmo que a pessoa esteja atravessando conflitos profundos? A peça fala justamente dessas máscaras contemporâneas, especialmente nas redes sociais, onde muitas vezes construímos versões idealizadas de nós mesmos. Onde, infelizmente, muita gente se aproveita por meio das “redes” e toca em suas fragilidades. Essa contradição já está anunciada no título.
A peça pergunta se estamos dominando a internet ou sendo dominados por ela. Depois de mergulharem nesse universo, qual é a resposta de vocês?
Bid Lima: Acredito que não existe uma resposta simples. A internet é uma ferramenta extraordinária de comunicação, aprendizado e conexão. O problema surge quando perdemos a capacidade de estabelecer limites e passamos a organizar nossa vida em função dela. A peça não pretende oferecer uma conclusão definitiva, mas provocar reflexão. Talvez a grande questão seja perceber o momento em que deixamos de usar a tecnologia e começamos a ser usados por ela.

Rodolfo Abreu: Há uma geração que nasceu conectada e outra que precisou aprender a viver nesse universo. A peça dialoga com essas diferenças?
Bid Lima: Sem dúvida. A peça observa essas diferenças com muito humor e sensibilidade. Existem conflitos e estranhamentos. Mas também percebemos os desafios enfrentados: a busca por pertencimento, reconhecimento e afeto. O ambiente digital apenas muda a forma como essas questões se manifestam.
Rodolfo Abreu: O texto de Fran Gerson Melo parece observar o cotidiano com uma lente de aumento. O que mais chamou a atenção de vocês na escrita dele?
Bid Lima: O que mais me encanta na escrita do Fran é a capacidade de transformar situações aparentemente comuns em reflexões profundas sobre o comportamento humano. Ele observa detalhes que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia e os leva para a cena com inteligência e humor. Há uma escuta muito atenta do presente, das nossas contradições e fragilidades.
Rodolfo Abreu: Quais foram os maiores desafios de encontrar o tom entre humor, crítica e emoção neste trabalho?
Bid Lima: O principal desafio foi evitar extremos. Não queríamos fazer uma crítica moralista às redes sociais nem uma comédia que apenas reproduzisse situações engraçadas. O equilíbrio acontece quando reconhecemos que todos nós estamos implicados nesse universo. Rimos dos personagens, mas também nos reconhecemos neles. E é justamente nesse reconhecimento que surge a emoção.


Rodolfo Abreu: Em uma época marcada por ansiedade, excesso de informação e relações cada vez mais aceleradas, por que essa peça é necessária agora?
Bid Lima: Porque ela nos convida a olhar para nós mesmos. Vivemos um momento em que estamos permanentemente conectados, mas nem sempre verdadeiramente presentes. A peça propõe uma pausa para refletirmos sobre nossas relações, nossos hábitos e sobre o impacto que a tecnologia exerce na nossa saúde emocional. O teatro tem essa potência de criar encontros reais, e isso se torna ainda mais valioso nos dias de hoje.
Rodolfo Abreu: Você é atriz, diretora, figurinista, cenógrafa, escritora, produtora e arte-educadora, além de ter sido Secretária de Cultura do Piauí. Ter experiência em tantas áreas faz com que você enxergue o teatro de forma diferente dos artistas que atuam em apenas uma função?
Bid Lima: Cada trajetória é única, mas acredito que transitar por diferentes áreas me proporcionou uma visão mais ampla do fazer teatral. Quando estou em cena, também compreendo os desafios da produção, da criação visual, da formação de público e das políticas culturais. Isso me ajuda a enxergar o espetáculo como um organismo vivo, onde cada função tem importância fundamental. O teatro é uma arte coletiva, e essa compreensão fortalece muito o meu trabalho.


Rodolfo Abreu: Você já levou seus trabalhos para diferentes estados brasileiros e também para países da África, Europa e América Latina. Como é carregar a identidade cultural piauiense nesses encontros?
Bid Lima: É motivo de muito orgulho e responsabilidade. Sempre digo que não levo apenas um espetáculo, levo também um pouco da história, da memória e da riqueza cultural do Piauí. O mais bonito é perceber que quanto mais enraizada uma obra está em sua identidade, mais ela consegue dialogar com o mundo. As pessoas se interessam justamente pela singularidade da nossa cultura e pelas histórias que temos para contar.
Rodolfo Abreu: Depois de tantos anos trabalhando com comédia, o que você acredita que diferencia o humor que apenas diverte daquele que realmente provoca reflexão?
Bid Lima: Acho que a diferença está na permanência. O humor que apenas diverte cumpre uma função importante e legítima: proporcionar leveza e entretenimento. Já o humor que provoca reflexão continua ecoando depois do riso. Ele nos faz pensar sobre comportamentos, valores e contradições da sociedade. Gosto muito dessa possibilidade de rir e, ao mesmo tempo, sair do teatro com algumas perguntas inquietando a cabeça e o coração. É um humor que diverte, mas também transforma. Acredito que temos essa missão enquanto intérpretes criadores: de incomodar, de fazer refletir e provocar por meio do fazer artístico. Que continuemos provocadores da arte! Evoé!

Entrevista com Fran Gerson Melo
Rodolfo Abreu: O subtítulo “Comédia da Idade Mídia” faz uma brincadeira com a expressão “Idade Média”. Se aquele período foi marcado pelo controle da informação e pela influência de poucas vozes, que paralelos vocês enxergam com a era digital que vivemos hoje?
Fran Gerson Melo: Mostramos justamente a diferença que a era digital traz na vida da população, onde através da internet, as pessoas têm mais oportunidades de expressar, de se promover e principalmente de ganhar dinheiro e também, que isso pode ser feito de uma forma boa ou ruim . Então através do humor, nessa peça contemporânea, vivenciamos esse excesso de informações e de problemas que a internet pode trazer.

Rodolfo Abreu: Como você construiu seu personagem e quais foram os principais pontos de partida para essa composição?
Fran Gerson Melo: Temos muitos exemplos de personalidades que foram marcantes em nosso país, como também hoje com a internet, temos diversos blogueiros, influenciadores que surgem.Então, busquei neles a construção de tudo, além disso, tivemos o trabalho de corpo que nosso preparador Fernando Freitas fez durante a montagem da peça.
Rodolfo Abreu: Em uma comédia, muitas vezes o ritmo é fundamental. Como você trabalha a escuta e o tempo de cena para que o humor aconteça de forma orgânica, além da parceria entre vocês e o que cada um traz de diferente para a cena?
Fran Gerson Melo: Eu vejo o teatro e principalmente a comédia, como algo que nunca está pronto e somente a repetição pode ajudar tudo isso. Eu e a Bid temos uma química muito boa no palco e nada melhor para a escuta, do que termos liberdade para experimentar e improvisar, prestamos muita atenção um no outro, além de revezarmos, ao ser a escada para finalizar a piada.

Rodolfo Abreu: O humor é uma ferramenta poderosa para falar de temas complexos. Por que a comédia foi o caminho escolhido para abordar os impactos das redes sociais na nossa sociedade?
Fran Gerson Melo: Sou fã de comédia, um completo apaixonado por fazer rir, inclusive, esse fazer sorrir também é um tema abordado na peça, pois o humor mudou muito nos últimos tempos e o cuidado que precisa se ter nele, precisa também ser discutido. E a comédia também é uma grande aliada, por ter a capacidade de abrir portas para as reflexões que trazemos com a peça, pois quando as pessoas riem de algo que conhecem bem, elas baixam a guarda e se reconhecem nos comportamentos que estamos trazendo no palco.
Rodolfo Abreu: Se o espetáculo pudesse deixar uma única mensagem para o público antes de ele pegar o celular ao sair do teatro, qual seria?
Fran Gerson Melo: Seriam as duas últimas falas, ditas por mim e pela Bid…
Ai só indo ver a gente em “Tá Bem Mal” rsrs.


