Ópera em quatro atos, com libreto de Antonio Ghislanzoni e música de Antônio Carlos Gomes (1836–1896), em celebração aos 190 anos de seu nascimento e aos 130 anos de sua morte. A música é brilhante, apresentando uma melodia direta, bonita e poética.
A ópera foi produzida em 1874. Ela narra o romance entre o pintor italiano Salvator Rosa e Isabella, filha do opressor Duque d’Arcos. A trama mistura paixão com a revolta popular liderada por Masaniello contra a dominação espanhola em Nápoles, no século XVII.
A história se passa em Nápoles, na ocasião um dos principados que constituíam a Península Itálica, uma vez que a Itália, como Estado nacional unificado, ainda não existia. A região era vítima de inúmeras invasões, como a dos espanhóis, que tomaram o território napolitano de assalto, aboliram as leis de Carlos V, subjugaram a população e a exploraram por meio da cobrança de impostos. Daí surgiu a revolta dos napolitanos, em 1647, liderada pelo pescador Masaniello, personagem histórico interpretado por Vinícius Atique com qualidade, voz timbrada e imensa capacidade interpretativa.

O pintor Salvator Rosa é o protagonista da história. Ele também é um personagem não ficcional, que viveu no século XVII e produziu expressivas pinturas. Contudo, o enlace amoroso entre ele e Isabella constitui mera ficção.
Salvator Rosa, interpretado por Marcello Vannucci, e Isabella, interpretada por Marly Montoni, formam o casal romântico. Eles se amam e apresentam interpretações refinadas. Cantam bem e realizam uma apresentação notável. Possuem vozes potentes, afinadas, melodiosas, interessantes e preparadas. O casal protagoniza cenas de grande emoção.
Carolina Morel interpreta o jovem Gennariello, ajudante de Salvator, esbanjando simpatia e apresentando uma voz doce e meiga. Cantou “Mia piccirella” de forma apaixonada!
Il Duca d’Arcos foi interpretado por Savio Sperandio. Homem cruel e impiedoso, enviou sua filha Isabella para a reclusão em um convento. O artista apresentou uma voz potente, forte e masculina, deixando transparecer a dureza do personagem.
Os demais personagens da ópera são interpretados pelos outros integrantes do elenco de forma satisfatória, mantendo a qualidade do espetáculo.

Em nosso ponto de vista, o Ato III, Cena 2, é o momento de ápice do espetáculo, deixando transparecer dramaticidade, tensão e emoção. É quando Isabella chora por sua reclusão no convento e lamenta a ausência de seu amor, Salvator. Nesse momento, ela recebe a visita do pai. O coro das freiras funcionou de forma impecável.
Isabella suicida-se em nome do amor ao perceber que seria impossível unir-se a Salvator. Este último permaneceria vivendo da “arte pela arte”, conforme a solicitação de sua amada.
A regência de Luiz Fernando Malheiro é brilhante. Ele conduz com determinação e afinco os músicos, mantendo o equilíbrio entre a orquestra, os cantores e o coro. Este último apresentou-se potente, brilhou e demonstrou o prazer de cantar esta ópera de Carlos Gomes. Orquestra e coro complementam-se, demonstrando forte interação.
A concepção e a direção cênica são de Julianna Santos. Ela levou para o palco do Theatro a reprodução de obras de arte produzidas por Salvator. Em cada cena, há a exibição de uma das telas, suspensa ou baixada de acordo com seu conteúdo. Esse procedimento possibilita que o público que nunca teve acesso a essas obras possa conhecê-las e admirá-las. Além disso, contribui para que possamos compreender, por meio da arte, a rebelião napolitana do século XVII.

A coreografia de Hélio Bejani, Márcia Jaqueline e Rodolfo Saraiva para os bailarinos que integraram a apresentação foi alegre e descontraída. Sete jovens casais representaram a população de Nápoles, incrementando ainda mais a apresentação da ópera.
A cenografia de Renato Theobaldo é criativa, original e bem solucionada. A reprodução das telas de Salvator foi realizada com qualidade!
Os figurinos criados por Marcelo Marques são de extremo bom gosto, contextualizados na época histórica em que se passa a ópera e apresentam uma magnífica paleta de cores. Os figurinos dos espanhóis ganham destaque pela reprodução fiel e luxuosa.
A iluminação criada por Paulo Ornellas apresenta um bonito desenho de luz e contribui para realçar a interpretação dos cantores em seus respectivos personagens. Ademais, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas e as canções interpretadas pelo elenco.
Texto, elenco, direção, cenografia, figurinos e iluminação constituem um conjunto equilibrado e harmônico, conferindo o tom de excelência da ópera.
Excelente produção cênica!


