Há peças que terminam exatamente quando deveriam terminar. Que fecham a história, explicam seus personagens, entregam todas as respostas e, junto com o último aplauso, liberam o espectador. Mas há outras que deixam as pessoas pensando, refletindo o que assistiram. “A Sala Branca”, de Josep Maria Miró, peça que volta em cartaz agora em setembro pelo Sesc Pulsar, é um bom exemplo para mim dessa categoria.

Quando saí do teatro, a primeira vez das muitas que assisti, não bastasse as excelentes atuações e a direção, fiquei com aquela sensação que a gente não consegue organizar imediatamente em palavras. E, para mim, esse é um dos sinais mais interessantes que o teatro pode proporcionar.

A Sala Branca” mexe com uma matéria particularmente poderosa: a memória. Não aquela memória bonita, cuidadosamente editada, que usamos para contar nossa própria história. Mas a memória como território instável, cheio de buracos, versões, esquecimentos e coisas que talvez tenhamos passado anos tentando não lembrar.

A história dessa peça coloca diante do público três antigos alunos que reencontram, décadas depois, uma professora de sua infância. É uma situação aparentemente simples. Quase banal. Quantas vezes a vida não produz esses reencontros? Uma professora, um colega de escola, alguém que pertence a uma fase distante da nossa existência e que, ao reaparecer, parece trazer consigo uma pessoa que já não somos.

Só que, em “A Sala Branca”, esse passado não chega exatamente como lembrança. Ele chega como conflito. E talvez seja aí que o espetáculo alcance o espectador de maneira tão particular. Porque é impossível assistir à história sem pensar nas nossas próprias relações com o passado. Quem foram as pessoas que nos formaram? O que ficou de determinadas experiências? O que esquecemos de propósito? E, sobretudo, será que as pessoas podem viver o mesmo acontecimento e carregar dele verdades completamente diferentes? A peça não tem pressa para responder. Ainda bem.

Tenho a impressão de que parte da força do teatro está justamente nessa capacidade de não nos entregar uma conclusão pronta. “A Sala Branca” confia que o público é capaz de permanecer alguns minutos, ou talvez alguns dias, convivendo com uma reflexão.

Durante o espetáculo, me peguei pensando não apenas nos personagens, mas nas crianças que fomos. É curioso como a vida adulta costuma transformar a infância numa espécie de fotografia emoldurada: uma época distante, cheia de referências afetivas, quase sempre filtrada pela nostalgia. Mas a infância também é o lugar onde aprendemos o medo, a vergonha, a culpa, a rejeição e tantas outras coisas que só vamos compreender muitos anos depois. E essas experiências podem ser completamente diferentes para cada um, mesmo dentro da mesma sala de aula, com a mesma professora.

Talvez algumas pessoas deixem uma sessão de “A Sala Branca” pensando na história da peça. Outras provavelmente sairão pensando na própria história.

E foi justamente essa experiência que me interessou. Como jornalista, passo boa parte do tempo tentando organizar histórias, encontrar sentidos, identificar o que está por trás de uma fala ou de um acontecimento. Como espectador, gosto quando uma obra me tira desse lugar confortável e me obriga simplesmente a sentir antes de compreender.

Por isso também acho particularmente interessante que a montagem brasileira de “A Sala Branca” agora deixe de ser apenas uma experiência concentrada nas salas de teatro do Rio e entre em circulação pelo estado através do Sesc Pulsar. A montagem passa por São Gonçalo, Niterói, Petrópolis, Teresópolis, Barra Mansa e Valença. A história chegará a diferentes cidades e encontrando novos públicos. Porque cada plateia vai levar para dentro daquela sala as suas próprias memórias.

Uma professora da infância. Um amigo que não se sabe o destino. Situações mal resolvidas. Uma lembrança que parecia esquecida. Talvez até uma versão de si mesmo que já não cabe mais na pessoa que se tornou. É aí que uma montagem deixa de pertencer somente a quem a criou.

O teatro acontece no palco, claro. Mas também acontece no que o espectador leva para casa. E talvez “A Sala Branca” seja, no fundo, uma peça sobre isso: sobre aquilo que permanece mesmo quando acreditamos ter deixado alguma coisa para trás.

Depois dela, fiquei pensando em quantas histórias da nossa própria vida estão guardadas em salas que nunca mais visitamos. Algumas portas, talvez, seja melhor manter fechadas. Outras, de vez em quando, precisam ser abertas. Nem sempre para descobrir o que aconteceu, às vezes, apenas para descobrir quem éramos quando aconteceu.

Compartilhar.

Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

Adicione um comentário
Você precisa fazer o para publicar um comentário.