Autora do livro infantil Bilica Chorona, adotado por escolas da rede municipal de São Paulo e traduzido para o italiano pela Universidade de Bolonha, a escritora, atriz e poeta Isabelle Borges agora vê sua criação ganhar novas camadas no palco. Em cartaz no Sesc Tijuca desde 9 de maio, Bilica Chorona, a peça marca não apenas a adaptação de sua obra para o teatro, mas também a presença da própria autora em cena, em um jogo de múltiplos personagens que atravessam o universo sensível da protagonista.
Com formação em Psicologia pela Universidade de Brasília e trajetória que cruza literatura, educação e práticas artísticas, Isabelle construiu uma obra voltada à escuta — da infância, da linguagem e das emoções. Desde a estreia como escritora, em 2018, até a criação da CasaPoama, espaço dedicado à escrita e à experimentação poética, sua produção se ancora na ideia de que a palavra pode ser um território de encontro. Não por acaso, Bilica Chorona nasce de uma inquietação concreta: a dificuldade dos adultos em lidar com o choro infantil e, por extensão, com as próprias fragilidades.
Na entrevista a seguir, Isabelle comenta o percurso que leva da página ao palco e descreve o impacto de ver sua personagem “ganhar vida” após anos de circulação do livro. Fala ainda sobre o processo de adaptação dramatúrgica que, segundo ela, ampliou as camadas poéticas e imaginativas da história, e sobre a potência da literatura infantil como linguagem capaz de atravessar gerações. O que se revela é uma artista que entende a criação como espaço de escuta e transformação, onde amadurecer, como sugere sua própria obra, não significa endurecer.

Chico Vartulli – Como você está se sentindo com o fato de uma publicação de sua autoria, Bilica Chorona, escrita para o público infantil, ser adaptada para o universo teatral?
Isabelle Borges – Tem sido emocionante testemunhar e vivenciar esse processo. Lancei Bilica Chorona em 2018. Foram muitos anos divulgando o livro junto com a editora e conhecendo leitores em diversos contextos. Agora, ver tanta gente envolvida e tudo ganhando vida no palco é mágico. Passa um filme na cabeça, desde o dia em que contei a história pela primeira vez em uma pequena escola na Bahia até agora, ao vê-la chegar ao teatro.
Chico Vartulli – Do que trata a obra?
Isabelle Borges – Bilica Chorona conta a história de uma menina que chorava e que, ao crescer, escuta que não pode mais chorar e que precisará engolir o choro. Fala sobre o sentir, sobre aquilo que é da ordem do humano e que tantas vezes é reprimido em nossa sociedade. Traz um olhar para os sentimentos como caminho natural, encontro com o outro e expressão da poética da existência. É sobre como é possível amadurecer sem precisar se endurecer.
Chico Vartulli – Como está sendo interpretar um texto criado para o teatro pela dramaturga Marcia Zanelatto a partir da sua obra? Quais novas nuances essa dramaturgia trouxe para a história?
Isabelle Borges – Tem sido maravilhoso e uma grande descoberta. É como se eu pudesse entrar na imaginação da Bilica, que também revela muito de mim e da minha história. A Márcia fez um trabalho incrível. O enredo, as camadas que ela trouxe e o texto extremamente poético, ao mesmo tempo engraçado e imaginativo. A primeira vez que li o texto, sorri de orelha a orelha. E agora, com tudo montado, a história ganhou ainda mais beleza.
Chico Vartulli – Por que o interesse em escrever para o universo infantil?
Isabelle Borges – Trabalhei anos com crianças e, no meu mestrado, estudei a infância. A escrita de Bilica Chorona surgiu da minha angústia ao perceber como, muitas vezes, nós, adultos, temos dificuldade em lidar com o choro delas. Percebi que talvez essa fosse também uma dificuldade nossa em lidar com os próprios choros. Escrever para o universo infantil é falar tanto com a criança quanto com o adulto, e considero esse um caminho fundamental para abordar assuntos sensíveis e importantes, ampliando vínculos e repertórios de mundo.
Chico Vartulli – Quais características um livro voltado para o público infantil deve apresentar?
Isabelle Borges – O livro infantil deve, ao mesmo tempo, instigar a imaginação e dar espaço para a criança imaginar. Não deve oferecer respostas prontas, mas abrir caminhos para a curiosidade e a descoberta. Um livro infantil deve respeitar a criança, e respeitá-la é escutá-la, não se sentir superior a ela, mas convidá-la para brincar e criar junto com a história.
Chico Vartulli – Você é fundadora da CasaPoama. Como surgiu esse projeto e qual é a sua proposta?
Isabelle Borges – Há quase dez anos ofereço oficinas, acompanhamentos e direção para projetos autorais e de escrita. A CasaPoama é fruto do meu trabalho com a escritora e pesquisadora Roberta Malta, sendo um espaço voltado para compartilhar nossas pesquisas e nosso olhar para a escrita como prática artística. A CasaPoama foi criada para reunir uma comunidade em torno da escrita, da palavra e da poética, oferecendo espaços de troca, escuta e criação para que as pessoas possam aprofundar seus processos e materializar seus desejos criativos.
Chico Vartulli – Quais são as atividades realizadas na CasaPoama?
Isabelle Borges – Realizamos acompanhamentos criativos individuais e em grupo para pessoas que desejam desenvolver projetos envolvendo a palavra e a escrita, como livros e outras materialidades artísticas. Também oferecemos consultoria conceitual para negócios, grupos e iniciativas criativas, além de oficinas, laboratórios, clube de leitura e conversas com artistas e autores.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Isabelle Borges – Estou montando uma exposição para o próximo semestre, reunindo meus projetos de instalações poéticas e pesquisas ligadas ao colecionismo. Também vou lançar um novo livro infantil que fala sobre o Cerrado, minha terra de origem, além de ampliar o trabalho desenvolvido na CasaPoama.



