Para uma artista que ajudou a redefinir as relações entre palco, rua e público no teatro brasileiro, o ato de provocar perguntas continua sendo tão importante quanto encenar respostas. Aos 83 anos, a atriz, diretora, professora e pesquisadora Ana Carneiro (@anamariapachecocarneiro) transforma uma experiência cotidiana em matéria-prima para uma reflexão profunda sobre envelhecimento, autonomia e permanência. O resultado é “A senhora está sozinha?!?!?!”, trabalho que une teatro, memória, humor e diálogo para lançar um novo olhar sobre a longevidade.

A centelha para o espetáculo surgiu de uma pergunta aparentemente simples, feita por um desconhecido ao vê-la caminhar sozinha pelas ruas do Rio de Janeiro. O espanto contido naquela frase revelou não apenas os preconceitos que ainda cercam a velhice, mas também a persistente dificuldade da sociedade em reconhecer a potência criativa, produtiva e afetiva das pessoas idosas. A partir desse episódio, Ana encontrou um caminho artístico para investigar questões que a acompanham há décadas e que ganharam novos contornos nos últimos anos.

Em cena, sua própria escrita encontra a obra de Bertolt Brecht em uma construção que mistura relatos pessoais, literatura, pesquisa e observação social. Mais do que um espetáculo convencional, a proposta se apresenta como um encontro aberto, em constante transformação, no qual a experiência artística se amplia por meio da conversa e da troca de perspectivas entre artistas, pesquisadores e público. O teatro torna-se, assim, um espaço de escuta coletiva sobre um tema que atravessa todas as gerações.

Nesta entrevista, Ana Carneiro fala sobre o processo de criação da obra, a redescoberta da escrita durante a pandemia, a influência de sua trajetória como cofundadora do grupo Tá Na Rua e os desafios de envelhecer em uma sociedade que ainda associa a velhice à perda. Com a lucidez, a sensibilidade e a inquietação que marcam sua carreira, ela convida o público a substituir o medo do envelhecimento pela possibilidade de uma vida longa, ativa e criativa. Acompanhe a entrevista com o jornalista Rodolfo Abreu.

Arte de divulgação de Um ensaio sobre a longevidade — A senhora está sozinha?!?!?!, espetáculo em construção idealizado e dramaturgizado por Ana Carneiro. — Arte: Divulgação

Rodolfo Abreu: O título da peça “A senhora está sozinha?” desperta curiosidade imediatamente. Como surgiu esse questionamento em sua vida e como se deu a decisão de transformar em espetáculo teatral?

Ana Carneiro: Na realidade, o título abarca uma pergunta cheia de espanto: A senhora está sozinha?!?!?! , que me foi dirigida por um senhor, espantado e horrorizado ao me ver caminhar sozinha, no Largo do Machado, no final de tarde de um domingo. Para ele, creio, devia ser inconcebível uma pessoa na minha idade (na época, estava com 79 / 80 anos), com todos os problemas físicos que tenho, apoiada em um andador, não ter uma pessoa me acompanhando. Depois, naturalmente, a pergunta ganhou outros significados para mim e passou a fazer parte do aprofundamento mais amplo sobre as questões do envelhecimento, que enfrento há muitos anos, mas que se acentuaram nos últimos seis anos.

Rodolfo Abreu: O texto da peça é de sua autoria, mas também parte de um conto de Brecht. Como esses dois universos se encontraram para dar origem ao espetáculo?

Ana Carneiro: Gosto de escrever e, desde 2021, participo de uma oficina de escrita narrativa. A história contada acima, acrescida de outros acontecimentos desse mesmo dia e de algumas reflexões que esse incidente me trouxe, é real e a transformei, na ocasião, em uma pequena narrativa apresentada nessa oficina. Pouco tempo depois, encontrei um conto de Brecht – A velha dama indigna -, em que ela fala sobre a vida de sua avó, uma mulher que, em seus dois últimos anos de vida, viúva, enfrenta alguns tabus sociais da época: não só decide morar sozinha, como faz novas amizades e frequenta o cinema, espaço que não era visto com bons olhos nos idos de 1910/1915. Escolhas que são vistas por um de seus filhos como “as indignidades” que a mãe anda fazendo. Eu tinha em mãos, assim, duas narrativas com uma temática muito semelhante, embora diversa e que podiam se transformar na base de desenvolvimento de um texto que falasse sobre envelhecimento, longevidade e tudo mais que acho importante, necessário e importante refletir, atualmente. Foi o que fiz, alinhando outros autores, estabelecendo uma espécie de colagem textual.

Rodolfo Abreu: A peça propõe uma reflexão sobre envelhecer mantendo a independência, a capacidade produtiva e a potência criativa. Por que essa imagem ainda causa tanto espanto na sociedade?

Ana Carneiro: Penso que o espanto vem muito mais do grande número de velhos e velhas que passaram a circular na sociedade, muitas vezes mantendo suas atividades, outras, despertando para novos fazeres, mais criativos, além de passarem a se cuidar mais e melhor, aflorando uma nova forma de encontrar beleza nesses corpos que, a maior parte das vezes, são muito rejeitados por não terem mais o viço da juventude.

A velhice sempre foi olhada como parte intrínseca do viver, à medida que durante longo tempo as pessoas que envelheciam permaneciam ativas, mas, em geral, recolhidas ao interior familiar. Tínhamos então, no nosso imaginário coletivo, os velhinhos que permaneciam em casa, sentados em suas poltronas, lendo seus jornais e as velhinhas que passavam a se dedicar aos afazeres domésticos mais leves, como o bordado, a costura, o fazer bolos e doces, e a ajudar a cuidar dos netos. Muitos fatores, como a aposentadoria, que se fortalece no mundo todo a partir dos inícios do século XX, as melhorias no campo da saúde e outros, levaram a transformações importantes que permitiram que se chegue à velhice com força, energia e capacidade criativa – uma imagem que ainda não está plenamente absorvida no imaginário da nossa sociedade atual.

Rodolfo Abreu: Em muitos momentos, o espetáculo transforma situações delicadas em humor. O riso pode ser uma forma de enfrentar os preconceitos relacionados ao envelhecimento?

Ana Carneiro: Provavelmente. Mais do que isso, porém, eu vejo o riso como forma de expressar a possibilidade de transformações do que nos acontece. Temos uma herança trágica em nossa formação, que nos leva a ver a vida com demasiada seriedade e anseio pela perfeição. Nossa tendência é a tragédia. Ninguém sofre como nós, na vida – é sempre o que pensamos. O riso desmonta tudo, nos ajuda a ver que tudo é passível de se esboroar e, magicamente, ressurgir transformado em novos caminhos, novas possibilidades. Ele nos ajuda a compreender a finitude. E, fora isso, é uma forma de comportamento emocional que comunica aos outros nossa disponibilidade para brincar, para interagir, para ser feliz e fazer feliz.

Rodolfo Abreu: O espetáculo fala sobre envelhecer, mas também parece dialogar com pessoas de todas as idades. Que reflexões você espera despertar em quem ainda está distante dessa fase da vida?

Ana Carneiro: A proposta é a mesma do trabalho em seu todo: propiciar um tempo de reflexão sobre questões que dizem respeito à longevidade. Para quem já está lá ou mais próximo, os textos soam de um jeito, para quem é mais jovem, de outro. De modo geral, pelo que tenho recebido de retorno, as pessoas bem mais jovens atentam para questões vivenciadas em seus relacionamentos com as pessoas mais velhas com quem convivem – pais, mães, avós, um irmão, uma tia. Comentam que lembraram de alguma situação vivida com essa pessoa, se tocam de como precisam mudar o olhar sobre ela, deixar um pouco de lado a visão estigmatizada que têm sobre ela e a perceber sob um novo contexto, uma nova forma de atenção, de afeto. E, aqueles que estão chegando perto da velhice, com seus quarenta, cinquenta anos, começam a refletir que precisam começar a pensar sobre como querem envelhecer.

Ana Carneiro ao lado de Rosa Douat e Amir Haddad, em registro ligado à trajetória do grupo Tá Na Rua. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Rodolfo Abreu: A proposta do espetáculo reúne teatro e conversa, rompendo a ideia de um espetáculo fechado, unindo ensaios abertos com convidados para debaterem o tema proposto. O que você espera que o público leve desses encontros além da experiência artística?

Ana Carneiro: Na realidade, o que venho apresentando ainda se encontra em fase embrionária, de ensaio. Um ensaio aberto, digamos assim. Aberto no sentido de estar em movimento, em contínua preparação, absorvendo mudanças que vão se fazendo necessárias.

Penso que a própria proposta expõe isso: não é um espetáculo nos moldes clássicos, onde você se senta e assiste a um trabalho fechado e já totalmente definido, mas uma proposta de refletirmos sobre um determinado tema – no caso, a longevidade – a partir de textos por mim selecionados. Ou seja, que constituem, no seu todo, uma certa visão, entendimento meu sobre essa questão. A isso, se acrescenta agora o olhar das pessoas convidadas a cada apresentação, que irão refletir a partir de seus pontos de vista, do trabalho que desenvolvem nessa área. Penso que poderá ser muito rica essa contribuição.

Rodolfo Abreu: O que você tem recebido de retorno do público que já assistiu outras apresentações do ensaio?

Ana Carneiro: O mais forte tem sido a recepção do público à proposta; a forma como se estabelece uma relação muito próxima entre o público e eu; uma espécie de afeto que deixa a todos muito desarmados, entregues às histórias que vão sendo narradas. Eu os olho e penso que posso ver escrito em seus rostos: isso não é distante de mim, há algo no que está sendo falado, que me diz respeito. Isso tem sido muito bom, porque me deixa tranquila em relação ao que estou fazendo. Por outro lado, após ou mesmo durante as apresentações sempre tem acontecido conversas muito ricas sobre as questões ali apresentadas, sobre como foram tocados por essa ou aquela situação. E, por último, tem auxiliado a ver como o material que selecionei é visto pelos outros. Na última apresentação que fiz, por exemplo, uma moça (era talvez uma das pessoas mais jovens que estava na plateia) disse que o texto de Brecht, em que ele conta sobre a forma como sua avó enfrentou a sociedade da época em que viveu, ao decidir morar sozinha após haver enviuvado, é datado, uma vez que a sociedade hoje já está muito diferente em relação a essas coisas. Uma observação que proporcionou uma conversa interessante, no momento e, ao mesmo tempo, me fez refletir sobre pontos que me passavam despercebidos no texto e que podem levar a equívocos como esse.

Rodolfo Abreu: Depois de uma vida dedicada ao teatro, criar uma obra sobre longevidade também é uma forma de olhar para a própria trajetória? O que esse processo revelou sobre você que talvez ainda não estivesse tão evidente?

Ana Carneiro: Certamente. Esse trabalho chega no momento em que me dou conta do meu próprio envelhecimento. Algo que me foi dado pela Pandemia. No momento em ela ocorreu, eu estava retornando ao Rio de Janeiro, após viver dezoito anos em Uberlândia/MG, onde fui trabalhar como professora de teatro na Universidade Federal de lá. Tinha 78 anos, na época, mas não me sentia envelhecida. Estava ativa, tinha planos de fazer oficinas, palestras, dirigir algum espetáculo. Cheguei aqui em outubro de 2019. A Pandemia teve início menos de seis meses depois. Todos os planos foram por água abaixo. Toda minha atividade passou a se resumir em ficar sozinha dentro de um apartamento, à frente do computador, inventando formas de me manter ativa, tentando materializar as ideias que me vinham: criar um podcast, criar um espaço para falar sobre teatro no You Tube – mas minhas dificuldades com a tecnologia me limitavam nesse caminho. Passei a fazer cursos online de contação de histórias – algo que sempre me atraiu muito. Deles, cheguei à escrita narrativa, participando de uma oficina que acontece ainda hoje (já estamos no oitavo módulo) e que me levou a reencontrar uma antiga paixão: a escrita. O texto que dá nome ao meu trabalho atual foi escrito em uma das primeiras oficinas. Quando encontrei o texto de Brecht, imediatamente senti que, juntos, o meu texto e o dele apontavam um sentido muito interessante sobre todas as questões que fervilhavam em minha cabeça. Algo sobre o que eu queria falar, através do teatro. Mas antes de chegar a esse ponto de retomada da minha energia, vivi dois longos anos me descobrindo envelhecida: sem coragem de sair de casa, enfraquecida física e emocionalmente, com pressão alta, depressão, tristeza. Só aos poucos, e com muita ajuda da terapia, fui me refazendo. As leituras sobre o tema foram me ajudando a refletir e a mudar meu olhar para o que me acontecia. Deixei de olhar para o envelhecimento, com suas muitas mazelas, e passei a encarar a longevidade, com sua possibilidade de vida ativa e criativa. 

Rodolfo Abreu: Você é co-fundadora do Tá Na Rua, grupo que marcou profundamente a história do teatro brasileiro ao aproximar a cena do espaço público. Quando olha para essa trajetória, o que mais a emociona?

Ana Carneiro: Desde maio, venho conduzindo, juntamente com Amir Haddad e Rosa Douat, outra atriz co-fundadora do Tá na Rua, um módulo de oficinas que foi denominado Oficina dos Fundadores. Penso que tudo que aí tenho vivenciado, vem me dando a oportunidade de olhar o trabalho atual do Grupo de forma mais atenta, próxima e a descobrir, nesse observar, a força e boniteza que tem tudo o que foi construído nos quarenta e seis anos de sua existência.

É muito bom ver, tantos anos depois da criação do Grupo e do desenvolvimento dessa linguagem, a síntese dos processos de transformação que o Grupo vivenciou, com a entrada e saída constante de seus participantes, ao longo desse tempo. Observar o que se perdeu e o que se ganhou nesse movimento. E trabalhar para recuperar coisas importantes, sem as quais a linguagem se descaracteriza.

Porque não se trata apenas de termos chegado a uma forma cênica determinada, mas a termos contribuído no desenvolvimento de uma linguagem teatral que tem como base uma ética a partir da qual se criou uma estética que é fruto de nossas origens brasileiras, de nossa cultura, que tem em si os conteúdos da festa, envolvendo a todos em um mesmo movimento, que vira o mundo de cabeça para baixo, apontando para questões utópicas e aflorando a possibilidade de interação entre as pessoas.

Ana Carneiro, Rosa Douat e Amir Haddad em encontro na Casa do Tá Na Rua, espaço de criação e memória do teatro brasileiro. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Rodolfo Abreu: O Tá Na Rua sempre buscou romper as fronteiras entre palco e plateia. De que maneira essa experiência continua presente no seu trabalho, mesmo em um espetáculo solo?

Ana Carneiro: O rompimento dessa fronteira é intrínseco a mim, desde que se fez presente, lá no início dos trabalhos. Não poderia não estar presente nessa proposta. A forma mais coloquial da apresentação, a tentativa de estabelecer espaços de troca com o público, a própria presença do riso, que é tão transformador, tudo me confirma que estou trabalhando com a linguagem desenvolvida pelo Tá na Rua, só que com uma outra roupagem que não aquela dos espetáculos de rua do Grupo.

Rodolfo Abreu: Hoje você segue ligada ao grupo como pesquisadora e organizadora da memória de décadas de criação. Como é transformar lembranças, documentos e experiências em patrimônio artístico?

Ana Carneiro: Até o momento, pude fazer muito pouco nesse sentido. Temos sérios problemas a serem resolvidos para bem gerenciar esse acervo, sendo o principal deles a questão do espaço. Apesar de grande, a Casa do Tá na Rua não oferece muitas e boas condições para esse tipo de material: documentos escritos, textos, anotações de trabalho, fotos, vídeos. Mas tenho muitos e importantes projetos para realizar com esse material, que é imensamente rico.

Rodolfo Abreu: Por fim, quando o público sair das apresentações de “A senhora está sozinha?”, qual é a pergunta que você gostaria que permanecesse ecoando dentro de cada pessoa?

Ana Carneiro: Se as pessoas saírem pensando um pouco mais sobre o envelhecer, transformando a aflição das dores na velhice na capacidade ativa e criativa que o viver mais longevo pode nos proporcionar, sinto que terei atingido o alvo pretendido.

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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