Dramaturgo e diretor Flávio Freitas fala de suas comédias no teatro, mostrando oriso como espelho das contradições humanas
Autor e diretor, Flávio Freitas conhece bem o território da comédia. Em seu teatro, o riso não aparece apenas como entretenimento, mas como uma espécie de “armadilha do bem” para o espectador: primeiro vem a gargalhada diante do absurdo; depois, o reconhecimento de situações e comportamentos que talvez estejam mais próximos da realidade do que seria confortável admitir. É assim em “O Espírito da Coisa”, sua mais nova comeria em cartaz no Teatro Henriqueta Brieba, na Tijuca sextas de agosto 19h30 e as duas primeiras quintas de setembro, em que personagens exagerados defendem grandes princípios enquanto negociam, nos bastidores, seus próprios interesses. A contradição, para o dramaturgo, não é um desvio do caráter humano — é justamente uma de suas características mais reveladoras.
Na trama de Flávio, na cidade de Divina Proporção, ninguém parece exatamente aquilo que diz ser. O prefeito, embora ocupe a cadeira mais importante da cidade, vive cercado por interesses que limitam sua autonomia; a defensora da moralidade recorre a métodos pouco ortodoxos para fazer valer seus princípios; e a dona da casa de tolerância revela uma humanidade que contrasta com o lugar que ocupa. Com esse enredo, Flávio Freitas transforma essa pequena cidade imaginária em um microcosmo de um Brasil onde poder, religião, desejo, preconceito e interesses pessoais convivem — nem sempre de maneira muito coerente.
Essa investigação também atravessa outros trabalhos de sua trajetória, como “Ruidosas”, que aborda a cultura LGBTQIAPN+ a partir do humor, e “Bosque das Delícias”, que recorre à mitologia grega para construir uma sátira povoada por deuses, mortais e referências da cultura popular. Em universos aparentemente distantes, Flávio Freitas encontra a mesma matéria-prima: personagens que desejam, escondem, negociam, mentem e tentam sustentar diante dos outros uma imagem de si mesmos. “Ninguém é inteiramente aquilo que diz ser”, afirma o autor — uma constatação que, em seu teatro, ganha a forma mais convidativa possível: a do riso.
À frente de um elenco que reúne diferentes gerações de atores, Flávio Freitas aposta em uma comédia de ritmo, personagens e situações absurdas, mas que não abre mão de uma camada crítica. Se o público entra no jogo para rir de um prefeito acuado, de uma moralidade cheia de conveniências ou de uma sociedade empenhada em preservar as aparências, talvez saia do teatro percebendo que a piada não estava apenas no palco. Nesta entrevista, o dramaturgo e diretor fala sobre os bastidores de “O Espírito da Coisa”, a força da comédia como instrumento de reflexão e o que aprendeu, ao longo dos anos, observando o ser humano rir — e se reconhecer — de suas próprias contradições. Acompanhe a entrevista.

Rodolfo Abreu: O espetáculo “O Espírito da Coisa” se passa na fictícia Divina Proporção, onde poder, moralidade e desejo entram em choque. O que essa cidade inventada permite dizer sobre o Brasil real?
Flávio Freitas: Divina Proporção é uma cidade inventada, mas infelizmente muito reconhecível. Ela é pequena, tem seus grupos de pressão, seus interesses, suas disputas políticas, sua religiosidade, seus preconceitos e, principalmente, suas contradições. Por ser uma cidade fictícia, tenho liberdade para exagerar as situações sem precisar apontar diretamente para uma cidade real. O que acontece em Divina Proporção é uma espécie de Brasil em miniatura. O prefeito quer se manter no poder, a Liga da Decência quer impor sua moral, Madame Lascôt quer defender seu negócio e seus interesses, a polícia age conforme as conveniências do momento. No fundo, a peça mostra uma sociedade em que os discursos públicos nem sempre combinam com os desejos e interesses privados. E o espectador reconhece muita coisa.
Rodolfo Abreu: A peça coloca em confronto a defensora da moral e a dona da casa de tolerância. O que o choque entre essas duas mulheres revela sobre hipocrisia, moralidade e desejo?
Flávio Freitas: Dona Providência e Madame Lascôt são dois polos da mesma sociedade. Uma representa a moral oficial; a outra, aquilo que essa moral tenta esconder. O interessante é que nenhuma das duas é simplesmente “boa” ou “má”. As duas defendem seus interesses com unhas e dentes. Dona Providência fala em pureza, decência e religião, mas utiliza chantagem política e não hesita em ameaçar o prefeito. Madame Lascôt, por sua vez, administra uma casa de tolerância, mas demonstra preocupação concreta com as mulheres que trabalham para ela. O problema não está simplesmente no desejo ou na moralidade, mas na distância entre aquilo que as pessoas dizem defender e aquilo que fazem quando ninguém está olhando.

Rodolfo Abreu: Personagem central da história, o prefeito da cidade, embora esteja no poder, acaba ficando na mão de todos os outros personagens. Como você trabalhou essa contradição para falar sobre os limites do poder, as relações de dependência e a fragilidade de quem, aparentemente, está no comando?
Flávio Freitas: O prefeito passa a peça inteira tentando administrar as vontades dos outros. Ele está sempre negociando, recuando, prometendo e tentando agradar a alguém, mas no fundo tentando conseguir votos para a reeleição. Dona Providência tem os votos da Liga da Decência; Madame Lascôt tem influência sobre outro segmento da cidade; Valadão controla a polícia; e Maitê sabe de tudo. O prefeito descobre que o poder, quando depende de interesses contraditórios, pode ser uma armadilha. A comédia nasce justamente daí: o homem que ocupa a cadeira mais importante da cidade é, ao mesmo tempo, o mais pressionado. Ele tem a caneta, mas não tem liberdade.

Rodolfo Abreu: Há uma tradição muito brasileira de usar a comédia para falar de assuntos que, tratados de outra maneira, não provocariam tanta reflexão no público. Você escreve para fazer o público rir de quê?
Flávio Freitas: Eu escrevo para o público rir das contradições humanas. Rir do político que quer parecer poderoso e está desesperado; do moralista que condena nos outros aquilo que tolera em si mesmo; das pessoas que usam grandes discursos para esconder interesses pequenos. A comédia funciona porque permite que a plateia baixe a guarda. O espectador começa rindo de uma situação absurda e, quando percebe, está reconhecendo alguma coisa muito próxima da realidade. Em “O Espírito da Coisa”, até a própria linguagem religiosa vira instrumento de humor. Eu gosto dessa possibilidade: fazer rir primeiro e deixar a reflexão chegar depois.
Rodolfo Abreu: Você conta com um elenco talentoso, que harmoniza veteranos com jovens atores, trazendo um equilíbrio interessante na montagem. Como conduziu esse elenco neste espetáculo?
Flávio Freitas: Uma peça como essa exige precisão. Apesar de ser uma comédia popular, ela não pode ser simplesmente uma sucessão de piadas. Existe uma situação dramática por trás de cada gag e os personagens precisam acreditar profundamente naquilo que fazem. Minha função foi fazer cada ator encontrar a humanidade de seu personagem, mesmo nos momentos exagerados. O absurdo funciona melhor quando o ator trata aquilo como absolutamente verdadeiro. E é o que mais me encanta no trabalho de diretor: ajudar o ator a crescer no seu papel. Gosto, também, da troca que se estabelece entre as gerações. Atores mais experientes trazem uma bagagem enorme de cena, enquanto os mais jovens chegam com mais energia física, ritmo diferente e outra maneira de olhar para a comédia. O espetáculo ganha justamente desse encontro.

Rodolfo Abreu: O que o público pode esperar de “O Espírito da Coisa”, no teatro Henriqueta Brieba, na Tijuca?
Flávio Freitas: Pode esperar uma comédia sem muita cerimônia. É uma peça de personagens exagerados, situações absurdas, muita confusão e uma cidade inteira tentando preservar as aparências. Mas espero que o público saia levando alguma coisa além das risadas. A peça fala de política, religião, desejo, preconceito, interesses pessoais e hipocrisia, mas nunca abandona a vocação de divertir. E tem uma coisa que considero fundamental: o público participa do jogo. O personagem padre Libório ao conversar diretamente com a plateia, no começo da peça, já estabelece essa cúmplicidade com quem está assistindo.

Rodolfo Abreu: “Ruidosas”, que você montou recentemente, trouxe Anderson Paiva, Lula Medeiros e Marcos Vianna em uma divertida comédia que fala de tempo e lealdade, tendo como protagonista a cultura LGBTQIAPN+. Qual a importância de tratar esse tema em um espetáculo teatral?
Flávio Freitas: Para mim, teatro precisa olhar para a sociedade como ela é, com sua diversidade, seus conflitos e suas transformações. A cultura LGBTQIAPN+ faz parte do mundo, da sociedade, e como tantas outras culturas, deve ser apresentada livremente no Teatro e encarada como qualquer outro tipo de cultura, com suas particularidades e idiossincarasias. E aí, o humor pode aparecer e ser uma ferramenta poderosa porque permite desmontar preconceitos sem transformar necessariamente o espetáculo em um discurso. O importante é que as personagens tenham humanidade, desejo, contradições e voz própria.
Rodolfo Abreu: Em “Bosque das Delícias”, uma outra comédia sua, você levou a mitologia grega para o terreno da sátira, misturando deuses, mortais, cultura popular, paródias da Jovem Guarda e participação da plateia. O que o universo mitológico permite que o dramaturgo faça que a realidade cotidiana não permite?
Flávio Freitas: Quando você coloca deuses, heróis e criaturas mitológicas em cena, pode falar de questões muito humanas sem ficar preso ao realismo. Na comédia, isso é especialmente interessante. O universo mitológico permite colocar o extraordinário ao lado do cotidiano e criar um choque que produz humor. Em “O Espírito da Coisa”, embora não seja uma peça mitológica, eu também gosto de brincar com essa fronteira entre realidade e absurdo. É uma maneira de dizer que a realidade humana já é tão absurda que, às vezes, precisamos inventar uma explicação sobrenatural para dar conta dela.

Rodolfo Abreu: Olhando para sua trajetória junto ao teatro, como definiria o dramaturgo e diretor Flávio Freitas?
Flávio Freitas: Sou um autor interessado no ser humano e nas suas contradições. Gosto de personagens que querem uma coisa, dizem outra e acabam fazendo uma terceira.
Como diretor, procuro preservar o espírito da dramaturgia. Minha preocupação é que o texto chegue ao público com ritmo, clareza e energia, mas sem perder a situação dramática.
E tenho uma relação muito forte com a comédia. Não vejo a comédia como um gênero menor ou como uma forma de fugir dos assuntos sérios. Pelo contrário. Às vezes, é justamente através do riso que conseguimos falar das questões mais incômodas.

Rodolfo Abreu: Talvez o que exista de mais sério em seu teatro seja justamente a necessidade de fazer rir. Afinal, o que você descobriu sobre o ser humano depois de passar tantos anos observando suas contradições através da comédia?
Flávio Freitas: Descobri que o ser humano é muito menos coerente do que ele próprio imagina. Todos nós construímos justificativas para aquilo que fazemos. O político diz que está pensando no povo, quando muitas vezes está pensando na eleição. O moralista diz que está defendendo princípios, mas pode estar defendendo seus próprios interesses. E aquele que parece estar à margem da sociedade pode, em determinadas circunstâncias, demonstrar mais solidariedade do que quem se apresenta como exemplo de virtude.
O prefeito é um bom exemplo disso. Ele não é um herói, mas também não é simplesmente um vilão. Ele vai tomando decisões conforme a pressão aumenta, tentando sobreviver politicamente.
No fim, talvez a grande descoberta seja que ninguém é inteiramente aquilo que diz ser. E é justamente aí que a comédia encontra sua força. A gente ri porque reconhece o absurdo, mas também porque reconhece alguma coisa de nós mesmos naquele absurdo.
“O Espírito da Coisa” termina levando essa ideia ao limite: a cidade encontra uma maneira de manter suas aparências morais enquanto aceita exatamente aquilo que dizia combater. O nome muda, a fachada muda, mas a coisa continua a mesma. E todos, finalmente, entendem “o espírito da coisa”.


