Há histórias do Rio que ainda permanecem diante dos nossos olhos através de marcos na paisagem urbana carioca. Porém, outras precisam de um olhar mais apurado e talvez curioso. Caminhando pelas ruas do Centro do Rio, olhando seus monumentos, as suas pedras e calçadas, não temos a percepção de como tantas transformações alteraram a fisionomia local, e desaparecerem sem deixar quase algum vestígio. Para mim, particularmente, a história do Morro do Castelo é uma dessas.
Confesso que ela me acompanha há algum tempo. Me persegue nas minhas pesquisas. Me persegue ao caminhar pelo Centro do Rio, pela Avenida Rio Branco, olhar a Biblioteca Nacional e o Theatro Municipal, seguir pela rua Santa Luiza e sua igreja, até alcançar a Santa Casa de Misericórdia. Talvez porque seja difícil imaginar que um morro inteiro, bem no centro da cidade, tenha sido retirado da paisagem. Mas o curioso nome ficou: Esplanada do Castelo, mas o Castelo propriamente dito desapareceu.

Foi naquele morro que o Rio começou a ganhar forma como cidade. Depois da expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, no século XVI, os portugueses transferiram o núcleo urbano para o alto da colina. Dali era possível vigiar a entrada da baía e proteger melhor a pequena cidade. Ao redor estavam outros morros que também marcariam a paisagem carioca, como São Bento, Santo Antônio e Nossa Senhora da Conceição. Se o Rio tem um berço, é difícil não pensar no Castelo.

No alto do morro foram construídas igrejas, casas e instituições importantes. Ali estavam a igreja de São Sebastião, onde permaneceram os restos mortais de Estácio de Sá, e a igreja de Santo Inácio, ligada aos jesuítas. Mais tarde, funcionou também um observatório astronômico, muito frequentado pelo imperador D. Pedro II, um grande entusiasta da astronomia. Não por acaso o dia 02 de dezembro, data de seu nascimento, é celebrado como o Dia da Astronomia.
É curioso imaginar essa paisagem hoje. Onde vemos avenidas e edifícios, havia uma colina ocupada por ruas, casas, igrejas e gente vivendo sua vida cotidiana.
Durante muito tempo, o Castelo também abrigou chácaras e famílias de maior poder aquisitivo. Mas o Rio foi crescendo em direção à zona sul, por exemplo, e essas famílias se mudaram para outras regiões. Muitas casas passaram a ser divididas e ocupadas por moradores mais pobres. E, aos poucos, mudou também a maneira como a cidade enxergava o morro.
O que antes fazia parte natural da paisagem começou a ser tratado como um problema. Falava-se das ruas estreitas, da falta de ventilação, das condições sanitárias, dos miasmas, de ser habitado por grupos considerados pelas autoridades da época como “classes perigosas”, cercado por construções antigas. Não raro a região da Misericórdia era sempre citado nas páginas policiais dos impressos da época. Em uma cidade cada vez mais preocupada em parecer moderna, o Castelo passou a representar justamente aquilo que se desejava deixar para trás, significava ameaça e atraso.

A ideia de removê-lo vinha do século XIX, mas foi em 1922, durante a administração do prefeito Carlos Sampaio, que começou o desmonte definitivo. O Brasil comemorava os cem anos da Independência, e o Rio, então capital da República, queria se apresentar ao mundo como uma cidade moderna, saneada e monumental.

O velho Castelo não parecia caber nesse projeto. Não se tratava de uma pequena elevação. O morro chegava a cerca de 63 metros de altura e ocupava aproximadamente 184 mil metros quadrados no coração da cidade.
Grandes jatos de água foram usados para desfazer as encostas. As fotografias da época impressionam: paredões inteiros de terra desaparecendo sob a força da água, enquanto a cidade ao redor continuava funcionando.

Mas havia uma questão que as imagens das obras não mostravam por inteiro. O Castelo era habitado. Cerca de cinco mil pessoas tiveram de deixar a região e centenas de imóveis foram demolidos. Trabalhadores, pequenos comerciantes, lavadeiras, vendedores e famílias de imigrantes desapareceram daquela paisagem junto com as casas, pessoas que trabalhavam no comércio, nos setores de serviço e no porto, afastadas de suas antigas vidas.

E essa talvez seja a parte da história que mais me incomoda como historiadora: para onde foram essas pessoas?
Na época, a destruição do morro dividiu opiniões. A imprensa chegou a resumir o debate numa pergunta: o Castelo era uma pérola ou um dente cariado?
Para os defensores das reformas, como o prefeito Carlos Sampaio, era um obstáculo ao progresso, era um dente cariado. Para seus críticos, destruí-lo significava apagar o lugar onde a cidade havia começado, era uma pérola, uma joia da nossa história. O escritor Lima Barreto foi uma das vozes mais duras contra essa ideia de modernidade construída à custa da destruição do passado.

No lugar do morro surgiram novas avenidas, edifícios e os pavilhões da Exposição Internacional de 1922. Parte da terra retirada foi usada em aterros de outras áreas do Rio. De certo modo, o Castelo não desapareceu por completo. Foi espalhado pela cidade, então ressurgiu como uma fantasmagoria.

Hoje, um caminhante que atravessa a Esplanada do Castelo dificilmente imagina que ali existiu uma colina durante mais de três séculos. Do morro, restou a curta Ladeira da Misericórdia.
Talvez por isso essa história continue tão atual. Como observa o sociólogo Richard Sennett, ao pensar a relação entre o corpo e o espaço urbano em Carne e Pedra, ele lembra que uma cidade não é feita apenas de edifícios e traçados. No seu entender, ela também se constrói na maneira como seus habitantes caminham, se encontram, observam e ocupam seus espaços. No Castelo, portanto, não desapareceu apenas uma paisagem. Desapareceu uma forma de viver o Rio de Janeiro.
E a velha pergunta continua ecoando, era pérola ou dente cariado? Talvez o maior erro dos cariocas da época tenha sido acreditar que, para ser moderno, o Rio precisava escolher entre o futuro e a própria memória.
*Esta coluna se baseia na pesquisa do livro Do berço da cidade a dente cariado: o desmonte do Morro do Castelo e a modernidade carioca, de Antonio Edmilson M. Rodrigues e Luciene Carris (Editora Ayran, 2024).
Referência citada: SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Tradução de Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Record, 1997.
Crédito das imagens
1. Tomaz Silva / Agência Brasil / Wikimedia Commons
2. Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons
3. Augusto Malta / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
4. Autor desconhecido / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
5. Autor desconhecido / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
6. Autor desconhecido / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
7. Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
8. Augusto Malta / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles
9. Augusto Malta / Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles


