Muitas pessoas que transitam pela Praça XV talvez não imaginem que, entre o Arco do Teles e a pista de skate, convivem histórias muito diferentes do Rio de Janeiro. De um lado, o antigo arco nos remete ao período colonial, aos sobrados, ao comércio, às ruas estreitas e à circulação de pessoas que marcaram a formação do centro da cidade. De outro, a pista de skate revela uma praça viva, ocupada pela juventude, pela cultura urbana e por novas formas de uso do espaço público.
Nas colunas anteriores, apresentamos algumas histórias sobre a Praça XV. Passamos pela antiga Praia do Peixe, pelo Cais Pharoux, pelo Paço da Corte portuguesa, bem como pelos monumentos e pelas memórias que ainda permeiam o imaginário de moradores e turistas. Contudo, a Praça XV continua oferecendo outras possibilidades de leitura. Afinal, a história de uma cidade como o Rio de Janeiro não se limita aos grandes acontecimentos, tampouco aos monumentos que homenageiam personagens considerados ilustres.
A origem do Arco do Teles remonta ao século XVIII, quando aquela região foi ocupada por imóveis pertencentes à família Teles de Menezes. Durante muito tempo, o local esteve ligado à intensa atividade comercial do antigo centro, ao movimento do porto, à circulação de mercadorias e ao cotidiano de diferentes grupos sociais. Por ali passavam trabalhadores negros e negras escravizados, libertos ou livres, comerciantes, funcionários públicos, militares, viajantes e membros da elite política que frequentavam a região do antigo Paço.


O certo é que o Arco do Teles não guarda apenas lembranças ligadas ao comércio e à vida política da cidade. Também existem ali histórias que pertencem ao imaginário urbano carioca. Uma das mais conhecidas é a lenda de Bárbara dos Prazeres, lembrada como a suposta bruxa que teria assustado a população do Rio. Seu nome estaria relacionado à imagem de Nossa Senhora dos Prazeres que existia bem ali no beco do Arco do Teles.
De acordo com a narrativa popular, Bárbara teria chegado ao Brasil com o marido no final do século XVIII. Depois de perder seu prestígio social, teria recorrido à feitiçaria para tentar recuperar a juventude, utilizando sangue de animais e, nas versões mais sombrias da lenda, sangue de crianças. Contudo, como não há documentação oficial segura que comprove sua existência, podemos pensar essa história como parte da mitologia urbana do Rio de Janeiro. Bárbara talvez tenha existido, mas também pode representar como um arquétipo muitas outras mulheres pobres, doentes, prostitutas ou marginalizadas, transformadas em figuras ameaçadoras por uma sociedade marcada por preconceitos e pelos padrões de controle da conduta feminina no espaço urbano.
Aliás, nos arredores do Arco do Teles, outras memórias também se cruzam. A Rua do Comércio, por exemplo, foi local de moradia das irmãs Aurora e Carmen Miranda. Desse modo, em poucos passos, a região reúne lembranças do período colonial, lendas urbanas, histórias de mulheres esquecidas e referências importantes da cultura brasileira.


Bem em frente, a Praça XV apresenta outro tempo do Rio de Janeiro. O espaço foi apropriado por muitos skatistas e se tornou um dos principais pontos de encontro do skate urbano no Rio de Janeiro. Com piso liso e amplo espaço aberto, o local passou a ser usado para manobras, treinos, encontros e convivência. A prática do skate, popularizada no Brasil a partir dos anos 1970, especialmente pela influência dos surfistas, passou a fazer parte da paisagem da praça.
Mais do que um lugar para a prática esportiva, a pista de skate revela novas formas de pertencimento à cidade. A presença dos skatistas mostra que a Praça XV não é apenas um lugar de passagem, nem somente um espaço de contemplação do passado. Por outro lado, é vivida no presente por grupos que criam novos usos, que atribuem outros sentidos ao espaço público. Nesse processo, o coletivo I Love XV tem desempenhado papel importante na organização de eventos e na valorização da cultura do skate no local.


Como escreveu a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, a cidade também se dá a ler, pela possibilidade de enxergar, nela, o passado de outras cidades, contidas na cidade do presente. A Praça XV parece se inserir nesse contexto. Pois ali, o passado não está apenas nas fachadas dos prédios antigos, bem como nos monumentos ou nos edifícios históricos, aparece ainda nos usos cotidianos do espaço, nas práticas sociais e nas formas de convivência de muitos cidadãs e cidadãos que continuam transformando a cidade cotidianamente.
Desse modo, ao observar o Arco do Teles e a pista de skate lado a lado podemos compreender que a história urbana não é feita apenas de preservação. É feita por mudança, por disputas, por formas democráticas de convivência e pela permanente reinvenção. Em meio ao movimento apressado do Centro, às barcas, aos trabalhadores, aos turistas e aos jovens skatistas, a Praça XV reúne temporalidades distintas, e continua revelando novas histórias sobre o Rio de Janeiro.
Para saber mais
Coletivo XV — Perfil dedicado à valorização da cultura do skate na Praça XV. Instagram: @coletivoxv. Acesso em: 15 jun. 2026.
A reflexão sobre a cidade como espaço de camadas históricas dialoga com o artigo “Com os olhos no passado: a cidade como palimpseto”, da historiadora Sandra Jatahy Pesavento, publicado na revista Esboços: histórias em contextos globais, 2004.
Crédito das imagens
1. Rafael Carvalhosa. Fonte: Wikimedia Commons.
2. Fulviusbsas. Fonte: Wikimedia Commons.
3. Coleção Sebastião Lacerda. Fonte: Brasiliana Fotográfica.
4. Gláucio Dutra. Fonte: Wikimedia Commons.
5. 20th Century Fox. Fonte: Wikimedia Commons.
6. Alex Carvalho. Rafael Gibson. Fonte: Wikimedia Commons.
7. Alex Carvalho. Rafael Rocha. Fonte: Wikimedia Commons.


