Klever Schneider (@kleverschneider) é ator, produtor, dramaturgo e diretor teatral. Interessado em expandir os limites da criação cênica, construiu uma trajetória marcada pela inquietação artística e pela capacidade de transformar ideias em realizações concretas. Para além de idealizar espetáculos, Klever faz do teatro um espaço permanente de experimentação, reunindo equipes, articulando produções e tirando projetos do papel mesmo diante dos desafios do setor cultural. Com um olhar atento para temas contemporâneos e uma atuação que transita entre diferentes funções nos bastidores e no palco, vem se consolidando como um dos artistas que ajudam a movimentar a cena teatral, impulsionando novas montagens e fortalecendo a produção independente.
Prestes a estrear um novo espetáculo, cuja autoria e direção é sua, Klever faz do questionamento O que o tempo tem tirado de você? um ponto de partida. A peça “Corpos em Expurgo” permite investigar as marcas invisíveis que a vida contemporânea imprime em nossos corpos, nas memórias e em nossas relações. O espetáculo inédito estreia em julho, no Espaço Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.
Longe de oferecer respostas prontas, os projetos teatrais que Klever Schneider está envolvido procuram apostar na potência das perguntas e provocam reflexões. Em tempos marcados pela velocidade, pela hiperconexão e pela necessidade constante de produzir e reagir, Schneider propõe uma pausa. Um instante para respirar, observar o outro e refletir sobre aquilo que, muitas vezes, deixamos escapar enquanto corremos atrás do tempo. A dramaturgia fragmentada funciona como um espelho de uma sociedade dispersa, mas também como uma oportunidade de reconstruir vínculos por meio da imaginação e da presença.
Nesta entrevista, Klever Schneider fala sobre o processo de criação da nova peça, comenta as escolhas dramatúrgicas e compartilha sua visão sobre memória, identidade, relações humanas e o papel do teatro como espaço de encontro. Uma conversa que convida o leitor a olhar para si antes mesmo de ocupar a plateia. Acompanhe.

Rodolfo Abreu: Como surgiu a ideia de escrever o texto de “Corpos em Expurgo” e de onde veio a pergunta que é o eixo dramatúrgico do espetáculo?
Klever Schneider: Eu queria investigar como fomos perdendo a capacidade em observar o que está ao nosso redor. Estamos cercados por estímulos, mas cada vez menos atentos às pessoas, e aos encontros e aos detalhes do cotidiano. Basta olhar para a cidade que não para: pessoas apressadas correndo contra o tempo, as ruas e seus moradores invisíveis, gente vidrada em seus aparelhos e deixando de contemplar as coisas mais simples. E o que deveria nos chocar vira paisagem esquecida.
Pensei então em construir a dramaturgia em quadros, com personagens que contam suas histórias e provocam com a pergunta-chave: O que o tempo tem tirado de você? Todos nós ouvimos frases: “Não tenho tempo”, “Preciso arranjar tempo para fazer isso”, “Que saudade daquele tempo” ou “agora, não tenho pouco tempo para você”, entre outras tantas. A pergunta-chave da peça surge justamente dessa observação. O espetáculo parte dessa inquietação. Ou seja, o tempo está sempre presente nas conversas, nas justificativas e como lidamos com nossas ausências. Refletir sobre o cotidiano exige uma pausa. Um instante fundamental. É preciso essa respiração enquanto há tempo.

Rodolfo Abreu: Você define o espetáculo como uma investigação sobre as marcas do tempo no corpo, na memória e nas relações humanas. Na sua visão, qual dessas três dimensões tem sido mais violentamente afetada pelo modo como vivemos hoje?
Klever Schneider: As marcas que carregamos são resultado tanto daquilo que vivemos quanto daquilo que deixamos de viver. Não consigo enxergar essas dimensões separadamente. Corpo, memória e relações humanas estão profundamente conectados. Estão presentes no corpo, nas lembranças que acumulamos e também na forma como nos relacionamos com o outro. O excesso de velocidade, as cobranças, a sensação da falta de tempo e a dificuldade em estar verdadeiramente presente afetam nossa percepção do mundo e de nós mesmos. O estresse, as conquistas, medos, coragem, os encontros e desencontros moldam quem somos. Em Corpos em Expurgo, não me interessa apontar qual dessas dimensões afeta mais. A minha provocação é justamente como elas se influenciam mutuamente e dialogam com nossa existência.
Rodolfo Abreu: As três histórias são independentes (Hiato, Biotério e Infiltração), mas dialogam entre si. Por que optou por uma estrutura fragmentada, em vez de uma narrativa única? O que essa fragmentação revela sobre o nosso tempo?
Klever Schneider: Optei por uma estrutura fragmentada porque ela dialoga com a forma como experimentamos o mundo hoje. Nossa atenção é constantemente interrompida, afetada por múltiplas narrativas, imagens e informações/desinformações. Os dedos dedilhando nosso celular que o diga. A fragmentação da peça não é apenas uma escolha estética, mas um reflexo do tempo em que vivemos. A história se fragmenta para que o outro possa preencher as lacunas. Elas não se fecham. O público vai se relacionando desde a abertura da peça. É intimista. A gente precisa ouvir o outro. Então pensei em quadros onde os personagens narram, vivenciam ou confidenciam. É essa relação com o outro que me importa. Esse olho no olho e a capacidade de ouvir e preencher com a imaginação. Cada um ali tem uma vivência, marcas e coisas que deixaram de fazer.

Rodolfo Abreu: Em Hiato, o protagonista percebe que perdeu a capacidade de respirar e contemplar as pequenas coisas. Você acredita que hoje vivemos uma espécie de crise da atenção e da presença?
Klever Schneider: Acredito que vivemos uma espécie de crise da atenção e da presença. Almoçamos pensando na próxima tarefa, conversamos enquanto respondemos mensagens ou assistimos a algo quando fazemos outra coisa. Até a paciência em ouvir o outro está longe do ideal. Porque queremos apenas falar, a escuta perdeu a qualidade e sua essência. Parece que estamos em todos os lugares ao mesmo tempo, mas nem sempre conseguimos estar verdadeiramente presentes.
Isso afeta nossa capacidade de escuta. Estamos mais preocupados em responder do que ouvir. A atenção se fragmenta e os encontros ficam mais superficiais. Em Hiato, o personagem percebe justamente isso: no meio da correria, perdemos algo essencial. Não apenas o tempo, mas a capacidade de respirar, observar e se conectar com aquilo que está ao seu redor.

Rodolfo Abreu: Qual foi o propósito de escolher um homem-rato como personagem da cena Biotério?
Klever Schneider: O rato surge como uma metáfora de uma sociedade que frequentemente transforma indivíduos em cobaias de sistemas, rotinas e mecanismos de controle que sequer percebemos. Em Biotério, esse personagem vive submetido a regras, estímulos e condicionamentos constantes. Aos poucos, ele perde referências da própria identidade, mas preserva uma lucidez que incomoda. Para alguns, pode parecer um louco; para outros, alguém que enxerga aquilo que os demais preferem ignorar. Ele quebra a cena, conversa diretamente com o público, olha nos olhos e provoca reflexões. Embora esteja inserido nesse sistema, também é capaz de observá-lo criticamente. O homem-rato me interessa justamente pela contradição: ao mesmo tempo em que é vítima do experimento, é também alguém que percebe sua própria condição.
Rodolfo Abreu: Em Infiltração, a memória do passado surge quase como uma força inevitável a partir de uma infiltração na casa. Você acredita que a memória pode ser acionada por gatilhos?
Klever Schneider: Acredito que sim. A memória é cheia de gatilhos. Às vezes um cheiro, uma música, um sabor ou um objeto são capazes de nos transportar para momentos que pareciam esquecidos. Um bolo feito pela avó, um perfume, uma frase ou uma canção que pode despertar lembranças muito vivas.
Em Infiltração, isso acontece a partir de uma situação aparentemente banal. Um problema cotidiano acaba abrindo espaço para recordações da infância e para um reencontro com partes da personagem que estavam adormecidas. Gosto dessa ideia porque ela mostra que, mesmo com pressa e às exigências do dia a dia, carregamos conosco memórias que continuam existindo. E, às vezes, elas reaparecem justamente quando menos esperamos, oferecendo novas formas de olhar para o presente.

Rodolfo Abreu: Você descreve o espetáculo como uma “dramaturgia do espelho rachado”, onde o sujeito se reconhece e, ao mesmo tempo, se perde. Acredita que hoje construímos nossa identidade mais pelo olhar do outro do que pela percepção de nós mesmos?
Klever Schneider: A construção da identidade envolve muitos fatores, e o olhar do outro certamente é um deles. Somos seres sociais e também nos reconhecemos através das relações que estabelecemos. O problema talvez seja quando essa necessidade de reconhecimento passa a ocupar um espaço excessivo. Hoje, especialmente nas redes sociais, existe uma busca constante por validação. Quando publicamos algo, de alguma forma esperamos uma reação, uma aprovação ou um retorno. Isso influencia a maneira como nos apresentamos e construímos a imagem que temos de nós mesmos.
Em Corpos em Expurgo, interessa-me refletir sobre essa relação entre o que somos, mostramos e o que escondemos. Ao mesmo tempo, o espetáculo busca recuperar algo muito simples: o encontro. O ato de contar, ouvir e compartilhar experiências. Um espaço onde a imaginação do público também participa da construção de sentido. E, talvez, a plateia possa reconhecer algo de si nas histórias apresentadas em cena. Essas rachaduras da dramaturgia são também as rachaduras que carregamos.
Rodolfo Abreu: Embora trate de temas densos, “Corpos em Expurgo” não parece buscar respostas definitivas. Você enxerga o teatro mais como um espaço de perguntas do que de soluções?
Klever Schneider: O espetáculo parte de uma pergunta sobre o que o tempo nos tirou, mas também o que ainda podemos recuperar. Acredito que o teatro é um espaço privilegiado para formular perguntas. Não me interessa oferecer respostas prontas. Interesso-me em criar alguma experiência que provoque reflexão, desconforto, identificação e até mesmo acolhimento. Cada espectador completa os quadros a partir de sua própria história. Gosto desse encontro. É também entretenimento. Na encenação brincamos com o espaço, com a música ao vivo, com a força da palavra e na relação com a plateia.
O público é convidado a responder à pergunta central da montagem antes mesmo do desenrolar da peça. O que acredita que mude na experiência teatral quando o espectador deixa de ser apenas observador e passa a integrar a construção do espetáculo?
Eu sempre gostei da relação entre o artista e plateia porque ela aproxima e transforma o teatro em um verdadeiro encontro. Em Corpos em Expurgo, começamos de forma simples, convidando o público a responder à pergunta central da peça antes mesmo de seu início. Isso cria uma ambientação, ao mesmo tempo, desperta uma participação ativa.
As respostas não estão apenas nos personagens, mas também nas histórias, lembranças e percepções do público. Estamos juntos ali, compartilhando o mesmo tempo, a mesma experiência e a possibilidade de enxergar algo que, muitas vezes, passa despercebido na correria do cotidiano.
A intenção maior é recuperar o elo que vamos perdendo: a capacidade de ver, ouvir e estar verdadeiramente presente diante do outro.

Rodolfo Abreu: A atmosfera pós-apocalíptica da encenação contrasta com uma proposta de pausa, escuta e respiração. Esse aparente paradoxo foi uma escolha para mostrar que o caos também pode ser um caminho para o autoconhecimento?
Klever Schneider: A atmosfera da encenação pode remeter a algo pós-apocalíptico, mas ela não aponta para um fim. Pelo contrário, cria um espaço de observação. Um lugar onde podemos olhar para aquilo que estamos nos tornando e para aquilo que estamos deixando para trás.
Acredito que o caos é fundamental. Como reconhecer a importância da pausa, da escuta e da respiração sem experimentar, antes, a velocidade e o excesso que marcam nosso cotidiano? De certa forma, o espetáculo nasce dessa tensão.
Na construção de Corpos em Expurgo, trabalhamos com a força da palavra, sua fragmentação, a presença dos corpos em cena e também com o silêncio. E, ele, não significa ausência. Ele é um espaço onde a imaginação pode agir e onde cada espectador pode estabelecer suas próprias conexões. Talvez o paradoxo seja justamente aí: em meio ao caos, ainda existe a possibilidade de encontro, escuta e de autoconhecimento. É essa possibilidade que me interessa investigar.
Rodolfo Abreu: A peça tem trilha sonora executada ao vivo e vozes gravadas que respondem a pergunta-chave da peça entre as cenas. Como essa construção sensorial sonora ajuda a construir a narrativa do espetáculo?
Klever Schneider: A trilha ao vivo e as vozes gravadas ajudam a construir uma espécie de paisagem sonora da memória. São as vozes que não escutamos, histórias que passam ao nosso lado e experiências que acabam se perdendo na velocidade do cotidiano.
Entre as cenas, essas respostas à pergunta central do espetáculo ampliam a reflexão e mostram que não existe uma única resposta possível. Cada voz traz uma ausência, uma lembrança ou uma percepção diferente sobre o tempo.
Então os elementos sonoros funcionam como presenças que conectam toda a encenação. Nem sempre estão no centro da atenção, mas permanecem ali, convidando o público a escutar com mais cuidado aquilo que passa despercebido. Isso dialoga diretamente com a proposta do espetáculo: reaprender a observar, ouvir e estar mais presente.
Rodolfo Abreu: Ao final da experiência, qual seria o maior desejo de Klever Schneider em relação ao público? Que tipo de silêncio, reflexão ou transformação você espera que cada pessoa leve consigo ao deixar o teatro?
Klever Schneider: Se eu pudesse desejar algo ao público, seria isso: que saísse do teatro com vontade de respirar mais, observar melhor quem está ao seu lado e recuperar pequenos gestos que a correria nos faz esquecer. O mundo continuará acelerado. A cidade continuará com sua pressa. A diferença está na forma como escolhemos vivenciar esse tempo. Vejo que a gente pode resgatar coisas simples que ficaram pelo caminho: o sabor de uma comida que nos traz lembranças, uma conversa sem pressa, uma boa risada, a capacidade de brincar, imaginar e até levar algumas situações menos a sério.
Muitas vezes, aquilo que buscamos não está em algo novo, mas em experiências que fizeram parte de nossa vida e que acabamos deixando para depois. Se o espetáculo despertar esse olhar mais atento para si, para o outro e para o tempo que compartilhamos, já terei cumprido um papel importante.


