Douglas Liborio é historiador e curador. Seu trabalho percorre os palácios da política e os territórios da cultura visual, investigando como a história se inscreve em pedras, imagens e instituições. Entre a pesquisa e a curadoria, constrói narrativas sobre o poder e suas formas de representação, entre a permanência dos espaços e a fluidez das interpretações que os atravessam.
Chico Vartulli – Olá, Douglas! Sua trajetória está profundamente ligada à pesquisa sobre o Palácio Tiradentes e a história do Parlamento fluminense. Como esse caminho começou?
Douglas Liborio – Minha trajetória como historiador, pesquisador e curador tem início na minha relação com o Palácio Tiradentes e com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. De certa forma, esse percurso profissional se confunde com a construção da minha própria identidade como pesquisador e também como cidadão fluminense. Foi nesse espaço que descobri meu principal objeto de investigação, desenvolvi minhas primeiras experiências em pesquisa e curadoria e compreendi a importância de preservar e divulgar a memória do Parlamento para as novas gerações.
Esse caminho começou em 2017, quando, ainda concluindo a graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ingressei como estagiário no programa educativo da exposição permanente Palácio Tiradentes: Lugar de Memória do Parlamento Brasileiro. Naquele primeiro contato com o edifício, despertou meu interesse pela relação entre a Antiguidade greco-romana e as representações do poder no Brasil.
Ao longo desses anos, compreendi que o Palácio Tiradentes é muito mais do que a antiga sede do Poder Legislativo fluminense. Ele é um monumento que materializa diferentes formas de pensar e representar a política no Rio de Janeiro e no Brasil. Ao mesmo tempo, é testemunha da própria história urbana da cidade, que permanentemente se transforma, alternando momentos de celebração, conflitos e profundas contradições sociais. Em seus cem anos de existência, o Palácio revela, a cada pesquisa, novos capítulos capazes de ampliar nossa compreensão sobre a construção da cidadania fluminense e da própria experiência política brasileira.
Ao longo dessa trajetória, tive a oportunidade de atuar em diferentes áreas da Assembleia Legislativa. Na Subdiretoria-Geral de Cultura, destaco a curadoria da exposição Tríades Republicanas – 130 anos da Proclamação da República, realizada em parceria com o Museu da República e a Igreja Positivista do Brasil, que reuniu, pela primeira vez, as três primeiras bandeiras republicanas do país no Salão Nobre do Palácio Tiradentes.
Também participei da Oficina-Escola de Restauro, iniciativa desenvolvida em conjunto com a Escola do Legislativo, dedicada à recuperação de parte do mobiliário histórico e dos elementos artísticos do edifício. Atualmente, como assessor técnico da Diretoria-Geral, desenvolvo atividades ligadas à educação museal, à pesquisa histórica, à curadoria e à preservação do patrimônio institucional.
Foi também durante esse período de intensa atuação junto à Escola do Legislativo que concluí meu mestrado em História Social pela Universidade Federal Fluminense. A dissertação, intitulada Palácio Tiradentes: a presença do antigo no Brasil republicano da década de 1920, deu origem ao meu primeiro livro, Palácio Tiradentes: Arte e Política no Brasil Republicano, publicado em 2024.
Chico Vartulli – Quais são as suas competências como assessor e pesquisador?
Douglas Liborio – Mais do que desempenhar funções técnicas de pesquisa histórica, acredito que minha principal competência seja contribuir para a construção e a valorização da memória institucional do Parlamento fluminense. Preservar a memória de uma instituição pública não significa apenas organizar documentos ou estudar o passado. Significa criar condições para que a sociedade reconheça esses espaços como parte de sua própria história e compreenda o papel que desempenham na construção da cidadania.
No Brasil, a memória do Poder Legislativo nem sempre recebeu a mesma atenção dedicada a outras instituições do Estado. Por isso, considero fundamental que assembleias legislativas e câmaras municipais desenvolvam políticas de memória capazes de preservar seu patrimônio, organizar seus acervos e aproximar suas histórias da sociedade.
No estado do Rio de Janeiro, esse desafio ganha uma dimensão ainda mais singular. A identidade fluminense foi construída a partir de diferentes experiências históricas, marcadas pela antiga capital federal, pelo antigo Estado do Rio de Janeiro e, posteriormente, pela criação do atual estado após a fusão com a Guanabara. Compreender essas diferentes camadas de significado é também compreender como a identidade do estado continua sendo construída.
Procuro unir permanentemente minha pesquisa acadêmica à minha atuação profissional. Meu principal campo de investigação é a cultura visual do poder. Interessa-me compreender como a arquitetura, a escultura, a pintura, os monumentos, os rituais e os espaços institucionais constroem narrativas sobre o Estado e moldam a experiência da cidadania.
É por isso que estudo os palácios de poder e, em especial, o Palácio Tiradentes. Observo como a política se manifesta não apenas nas decisões parlamentares, mas também em seus símbolos, suas cerimônias, suas fotografias oficiais, seus documentos, seus espaços de memória e suas ações educativas. São esses elementos, muitas vezes discretos, que ajudam a explicar como uma instituição comunica seus valores à sociedade.
É justamente nesse campo que procuro atuar. Colaboro com iniciativas voltadas à pesquisa histórica, à preservação do patrimônio, à valorização dos acervos, à organização de exposições e às atividades desenvolvidas por diversos setores do Parlamento fluminense.
Desde 2022, ministro, pela Escola do Legislativo, o curso História do Poder Legislativo no Brasil, dedicado a divulgar uma leitura mais crítica e acurada da representação política no país ao longo dos 200 anos do Parlamento, entre 1826 e 2026. Mais do que preservar o passado, esse trabalho busca aproximar a população de suas instituições e fortalecer uma cultura de valorização da memória pública.

Chico Vartulli – Você poderia nos adiantar detalhes da sua pesquisa de doutoramento?
Douglas Liborio – Meu doutorado, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, representa um desdobramento natural das pesquisas que venho realizando desde a graduação. Se, até então, meu foco estava concentrado no Palácio Tiradentes, hoje procuro ampliar essa investigação para compreender um conjunto maior de edifícios que ajudaram a construir a imagem do Estado brasileiro.
O ponto de partida da pesquisa é relativamente simples, mas suas implicações são bastante amplas: busco reconstituir o circuito entre os antigos palácios de autoridade republicana na cidade. Hoje, esses edifícios costumam ser estudados de forma isolada, mas, quando o Rio era capital, formavam um sistema articulado, tanto do ponto de vista urbano quanto político e visual.
O recorte principal concentra-se no período entre 1890 e 1945, momento em que a República buscava construir sua própria identidade. É justamente nesse contexto que a arquitetura e as artes decorativas assumem um papel fundamental. Os novos edifícios públicos precisavam comunicar estabilidade, legitimidade e permanência, mas a República carecia de símbolos próprios.
Minha hipótese é que, diante desse desafio, ela recorreu a uma ampla herança visual já existente, apropriando-se, de forma recalcada, da tradição greco-romana presente nos antigos palácios imperiais para construir sua própria linguagem política.
Nesse percurso, estudo alguns dos principais palácios da antiga capital federal: o Paço da Quinta da Boa Vista, antiga residência da família real e imperial, transformado no primeiro Congresso Constituinte da República; o Palácio do Itamaraty, que passou de residência aristocrática à primeira sede do Poder Executivo republicano; e o Palácio Nova Friburgo, atual Palácio do Catete, que se consolidou como residência oficial dos presidentes da República.
Em uma etapa posterior, a pesquisa incorpora edifícios planejados já para a República, como o Palácio Pedro Ernesto e o próprio Palácio Tiradentes, buscando compreender como eles consolidaram uma nova iconografia para o Estado brasileiro.
Um dos aspectos mais direcionados dessa investigação é analisar a sobrevivência das divindades da Antiguidade na construção do imaginário republicano brasileiro. Figuras como Júpiter, Minerva, Mercúrio, Vênus, Ceres e outros deuses greco-romanos continuam presentes na decoração desses edifícios, ao lado de alegorias da Justiça, da República, da Ordem e do Progresso.
Da mesma forma, temas como os conselhos dos deuses, os casamentos divinos e as apoteoses tornaram-se recorrentes nos palácios de poder do Rio republicano. Meu objetivo é compreender por que essas imagens sobreviveram, como foram ressignificadas e quais valores políticos passaram a representar em um regime que, em tese, pretendia romper com o passado monárquico.
No fundo, minha pesquisa procura responder a uma questão bastante atual: como uma sociedade constrói visualmente a imagem do poder? Ao investigar a arquitetura, a arte e os símbolos dos antigos palácios da capital, procuro mostrar que esses edifícios não são apenas testemunhos da história. Eles continuam comunicando ideias, produzindo memória e influenciando a maneira como compreendemos o Estado, a democracia e a própria identidade brasileira.
Chico Vartulli – O edifício da Alerj apresenta uma arquitetura imponente. O que você destacaria nesse aspecto do prédio?
Douglas Liborio – O Palácio Tiradentes ocupa um lugar singular na história da arquitetura brasileira. Gosto de defini-lo como um dos últimos grandes exemplares da tradição acadêmica e, ao mesmo tempo, o primeiro edifício concebido para representar o imaginário republicano brasileiro.
Ele marca um momento de transição muito interessante: incorpora as mais modernas soluções construtivas de seu tempo, mas recorre a um programa decorativo exuberante para dar forma, monumentalidade e legitimidade ao Parlamento brasileiro.
Projetado por Archimedes Memória em parceria com Francisco Cuchet, o edifício foi uma das obras mais inovadoras de sua época. É um dos primeiros grandes edifícios em concreto armado da América Latina e um marco do processo de modernização arquitetônica do Rio de Janeiro.
Mais do que isso, foi o primeiro edifício concebido especificamente para sediar a Câmara dos Deputados. Até então, o Poder Legislativo brasileiro ocupava prédios adaptados. O Palácio Tiradentes inaugura uma nova forma de pensar a arquitetura institucional do país.
Esse diálogo entre inovação técnica e erudição artística talvez seja sua característica mais fascinante. Enquanto a estrutura do edifício empregava uma tecnologia construtiva de ponta, sua linguagem estética recorria à arquitetura dos estilos históricos para construir uma narrativa visual sobre o Brasil.
Essa intenção também aparece na própria construção do edifício. Diversos estados brasileiros contribuíram com materiais, esculturas e elementos decorativos, transformando o Palácio em uma espécie de síntese material da Federação. Mármores, madeiras, granitos e obras de arte provenientes de diferentes regiões do país reforçam a ideia de que aquele edifício deveria representar não apenas o Parlamento, mas a própria nação brasileira.
Também é impossível ignorar a força simbólica do lugar onde ele foi construído. O Palácio ergue-se sobre o terreno da antiga Cadeia Velha, onde Tiradentes esteve preso antes de sua execução. A República escolheu instalar sua principal sede legislativa justamente em um dos espaços mais carregados de significado da memória nacional, transformando a lembrança do mártir da Inconfidência em um dos pilares de sua identidade política.
Há ainda um aspecto que considero particularmente fascinante e que aproxima o Palácio da própria alma da cidade do Rio de Janeiro. Muitos dos escultores responsáveis por sua decoração monumental também trabalhavam na criação dos grandes carros alegóricos das sociedades carnavalescas. Não por acaso, Gilberto Freyre definiu o edifício como um “carro alegórico da Câmara dos Deputados”.
A observação revela algo muito característico da cultura carioca: aqui, política, arte, festa e vida urbana nunca estiveram completamente separadas.
Basta observar as alegorias monumentais da fachada ou acompanhar o Carnaval no entorno do edifício para perceber que o Palácio continua integrado à vida da cidade. Há quase um século, sua escadaria é ocupada espontaneamente por manifestações, celebrações populares e pelos próprios foliões. Isso demonstra que sua monumentalidade não o afastou da experiência cotidiana. Ao contrário, fez dele um espaço permanentemente apropriado pela população.
Talvez seja justamente essa a sua maior qualidade. O Palácio Tiradentes não é apenas um testemunho do passado. Ele continua produzindo significados. Sua arquitetura organiza rituais, comunica valores, constrói memória e ajuda a compreender como o Estado brasileiro buscou representar a si mesmo ao longo do século XX.
Essa reflexão torna-se ainda mais interessante quando observamos a atual sede da Assembleia Legislativa. Desde 2021, a instituição passou a funcionar no Edifício Lúcio Costa, projetado por Henrique Mindlin, um marco da arquitetura moderna brasileira.
Se o Palácio Tiradentes representa o auge do ecletismo monumental e da tradição clássica na arquitetura oficial, o novo edifício traduz outra concepção de Estado, baseada na racionalidade estrutural, na transparência e na linguagem moderna. As duas sedes, vistas em conjunto, contam uma história fascinante sobre as diferentes maneiras pelas quais o poder escolheu representar a si mesmo ao longo do século XX.
Afinal, compreender a arquitetura do Rio de Janeiro é também compreender a própria história política do Brasil.
Chico Vartulli – No campo da História, qual é a linha de pesquisa dos seus estudos?
Douglas Liborio – Minha pesquisa está inserida no campo da História Cultural e da Cultura Visual, com especial interesse pelas formas de sobrevivência da Antiguidade greco-romana no Brasil, sobretudo na arquitetura, nas artes e nas representações do poder entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.
A pergunta que orienta meus estudos é relativamente simples: o que a Antiguidade ainda significa para nós? Desde a graduação, sempre me chamou a atenção o fato de que personagens, mitos e símbolos do mundo antigo continuam presentes em nosso cotidiano, muitas vezes sem que percebamos.
Eles aparecem na arquitetura dos edifícios públicos, nas esculturas das praças, nas pinturas dos palácios, na publicidade, nas marcas comerciais, nos nomes de empresas, nas alegorias políticas e até mesmo em hábitos cotidianos e expressões da nossa cultura.
Mais do que investigar a permanência de imagens antigas, procuro compreender como elas adquirem novos significados ao longo do tempo. Não me interessa pensar essas referências apenas como uma herança europeia transplantada para o Brasil, mas entender como foram reinterpretadas pela cultura brasileira e passaram a dialogar com nossas próprias experiências históricas.
Esse olhar tem me levado a estudar desde os programas decorativos dos palácios republicanos até a publicidade ilustrada do início do século XX. Recentemente, por exemplo, publiquei, em parceria com a professora Andrea Casa Nova Maia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um artigo na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Fiocruz, analisando como empresas farmacêuticas, como Bayer e Vikelp, utilizaram imagens da Antiguidade clássica em campanhas publicitárias entre 1917 e 1958.
O estudo demonstra como figuras como a Vênus de Milo e Diana de Versalhes foram reinterpretadas para construir novos modelos de feminilidade e modernidade na sociedade brasileira.
No fundo, acredito que estudar a presença da Antiguidade é também estudar a maneira como diferentes épocas reinterpretam o passado para dar sentido ao presente. É justamente essa permanência das imagens, dos símbolos e das narrativas ao longo do tempo que mais desperta meu interesse como historiador.
Chico Vartulli – Quais são as suas principais referências historiográficas?
Douglas Liborio – Minha formação sempre foi bastante interdisciplinar. Como minhas pesquisas transitam entre História, História da Arte, Arquitetura e Cultura Visual, minhas referências também pertencem a esses diferentes campos e procuram dialogar entre si.
O principal eixo teórico da minha pesquisa está na obra de Aby Warburg, especialmente em sua reflexão sobre a sobrevivência das imagens da Antiguidade, a Nachleben. A partir dele, encontro em Giorgio Agamben e Georges Didi-Huberman interlocutores fundamentais para pensar as relações entre tempo, memória, imagem e anacronismo.
São autores que me ajudam a compreender como determinadas formas visuais atravessam os séculos, são continuamente reinterpretadas e permanecem atuantes em contextos históricos completamente distintos daqueles em que foram produzidas.
No campo da História Cultural, dialogo especialmente com Jacob Burckhardt e Carlo Ginzburg. Burckhardt oferece uma compreensão ampla da cultura como expressão histórica das sociedades, enquanto Ginzburg demonstra como as imagens, os objetos e os pequenos indícios podem revelar estruturas culturais e políticas muito mais amplas do que aparentam à primeira vista.
Quando volto meu olhar para a formação do Estado brasileiro e para a construção do imaginário republicano, José Murilo de Carvalho é uma referência indispensável. Seus estudos sobre cidadania, cultura política e simbolismo republicano oferecem instrumentos fundamentais para compreender como o Estado brasileiro construiu suas formas de representação e como a República buscou criar seus próprios símbolos, rituais e narrativas de legitimidade.
Esse diálogo é particularmente importante porque minha pesquisa procura entender justamente de que maneira a arquitetura, a arte e os monumentos participaram desse processo.
No estudo da arquitetura e da cidade, minhas principais referências são Giulio Carlo Argan, Luciano Patetta e Aldo Rossi, autores que compreendem a arquitetura como um documento privilegiado da cultura e da experiência histórica.
Também devo destacar a influência do historiador Paulo Knauss, meu orientador no doutorado, cuja produção sobre cidade, memória, patrimônio e cultura visual tem sido decisiva para o amadurecimento da minha pesquisa e para a forma como procuro interpretar o Rio de Janeiro como um espaço de construção permanente de significados.
Já no campo da História da Arte brasileira, dialogo principalmente com Sonia Gomes Pereira e Rafael Cardoso, pesquisadores que têm contribuído de maneira significativa para renovar os estudos sobre patrimônio, artes decorativas e cultura visual no Brasil.
No fundo, acredito que minha principal matriz metodológica esteja na possibilidade de aproximar diferentes disciplinas. Procuro compreender como as expressões artísticas e arquitetônicas dialogam entre si para construir representações do poder e da sociedade.
É nesse encontro entre História, História da Arte, Arquitetura e Cultura Visual que desenvolvo minhas pesquisas, entendendo que as imagens não apenas ilustram o passado: elas sobrevivem, transformam seus significados e continuam participando ativamente da construção do imaginário político e cultural brasileiro.
Chico Vartulli – O que o motivou a escrever o livro Palácio Tiradentes: Arte e Política no Brasil Republicano e quais foram seus desdobramentos?
Douglas Liborio – A ideia do livro surgiu como um desdobramento natural da minha dissertação de mestrado, defendida em 2022 no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
Naquele momento, eu já atuava como professor da Escola do Legislativo e acompanhava as primeiras iniciativas voltadas às comemorações do centenário do Palácio Tiradentes, entre 1926 e 2026. Pareceu-me a oportunidade ideal para transformar uma pesquisa acadêmica em uma obra que pudesse dialogar não apenas com especialistas, mas também com todos aqueles interessados na história, na arquitetura e na memória do Parlamento.
Entretanto, o livro não nasceu apenas da universidade. Ele foi profundamente moldado pela minha experiência cotidiana dentro do próprio Palácio Tiradentes. Antes de atuar como pesquisador e curador, trabalhei durante anos como mediador da exposição de longa duração da Assembleia Legislativa, recebendo milhares de visitantes.
Ouvir suas perguntas, acompanhar suas descobertas e perceber as dúvidas que surgiam diante daquele edifício monumental foi decisivo para a construção da obra. Costumo dizer que, de certa maneira, os verdadeiros coautores do livro foram os próprios visitantes. Foram eles que me ensinaram quais aspectos do Palácio despertavam maior curiosidade e quais histórias ainda precisavam ser contadas.
Essa experiência também me fez compreender que democratizar o conhecimento sobre o patrimônio é uma forma de fortalecer a cidadania. Nesse sentido, o livro expressa um compromisso institucional da Assembleia Legislativa, por meio da Escola do Legislativo, com a produção e a difusão do conhecimento histórico.
Tornar acessível a história de um dos edifícios mais emblemáticos da República significa ampliar as possibilidades de apropriação desse patrimônio pela própria sociedade.
Ao escrever a obra, procurei reunir, organizar e revisar um conjunto muito amplo de referências bibliográficas, documentos e fontes primárias que, até então, se encontravam dispersos em diferentes arquivos e publicações.
Também busquei enfrentar interpretações equivocadas e algumas narrativas que se consolidaram ao longo do tempo sem respaldo documental, oferecendo uma leitura baseada na pesquisa histórica e na documentação disponível. Meu objetivo era construir uma obra que pudesse servir simultaneamente ao grande público e aos pesquisadores interessados na história do Parlamento e da arquitetura brasileira.
Outra preocupação importante foi revelar detalhes que normalmente passam despercebidos durante uma visita ao edifício. A monumentalidade do Palácio muitas vezes impede que o visitante observe com atenção sua rica decoração escultórica, pictórica e arquitetônica.
Por isso, o livro reúne um amplo levantamento iconográfico, com fotografias e análises que aproximam o leitor desse universo visual e permitem compreender como cada elemento decorativo participa da construção do imaginário republicano brasileiro.
Também procurei demonstrar que o Palácio Tiradentes é muito mais do que um monumento histórico. Ele continua sendo um espaço vivo, onde arquitetura, política e cotidiano se encontram permanentemente. É sede de importantes decisões do Parlamento, mas também integra a vida urbana do Rio de Janeiro, recebendo manifestações, celebrações populares e até os foliões do Carnaval.
Sua história continua sendo escrita diariamente pelas pessoas que circulam e se apropriam daquele espaço.
Acredito que uma das principais contribuições do livro tenha sido justamente valorizar um conjunto de edifícios pertencentes à arquitetura dos estilos históricos das primeiras décadas do século XX.
Durante muito tempo, essa produção arquitetônica permaneceu em segundo plano diante da enorme valorização historiográfica do modernismo brasileiro. Isso contribuiu para que muitos desses edifícios fossem descaracterizados ou até demolidos, sem que seu valor histórico e artístico fosse plenamente reconhecido.
Ao estudar o Palácio Tiradentes, procurei também chamar a atenção para a importância desse patrimônio e para a necessidade de compreendê-lo como parte fundamental da história da arquitetura brasileira.
O lançamento foi antecipado para agosto de 2024, ano em que o Brasil celebrou os 200 anos da Constituição de 1824 e da criação do Parlamento bicameral.
Desde então, o livro passou a integrar os acervos da Biblioteca da Assembleia Legislativa, da Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados e da Biblioteca Digital do Senado Federal, tornando-se uma referência para pesquisadores, estudantes e leitores interessados na história política e cultural do país.
Tenho a alegria de perceber que a obra acabou se tornando uma das primeiras contribuições acadêmicas para as celebrações do centenário do Palácio Tiradentes. Seus desdobramentos foram extremamente gratificantes.
Em 2025, recebi a Medalha Tiradentes em reconhecimento ao trabalho desenvolvido na preservação e na divulgação da história do Parlamento brasileiro. Mais recentemente, fui agraciado também com a Medalha Comemorativa do Centenário do Palácio Tiradentes.
Recebo essas homenagens não como um ponto de chegada, mas como um incentivo para continuar pesquisando, preservando e divulgando a história de um patrimônio que pertence à sociedade brasileira.

Chico Vartulli – Você poderia nos revelar detalhes dos bastidores da exposição Ecos do Olimpo: Deuses e Mitos na Coleção Eva Klabin?
Douglas Liborio – A curadoria de Ecos do Olimpo, realizada em parceria com o museólogo Diogo Maia, foi, sem dúvida, uma das experiências mais marcantes da minha trajetória profissional.
A Casa Museu Eva Klabin nos convidou inicialmente para desenvolver uma exposição voltada ao seu acervo de arte antiga, um dos mais importantes da América do Sul. No entanto, à medida que a pesquisa avançava, percebemos que um recorte cronológico seria insuficiente para revelar a riqueza da coleção.
Foi então que surgiu a ideia de construir uma narrativa temática a partir da mitologia greco-romana. Durante meses, mergulhamos na leitura das Metamorfoses, de Ovídio, e passamos a reconhecer como os mitos atravessavam diferentes obras da coleção, desde vasos gregos do século VI a.C. até pinturas europeias dos séculos XVII e XVIII.
A exposição deixou de ser apenas uma mostra sobre a Antiguidade e passou a investigar como essas narrativas sobreviveram ao longo do tempo, sendo continuamente reinterpretadas por diferentes artistas e épocas.
Esse processo de pesquisa foi um dos bastidores mais fascinantes da exposição. Muitas vezes, a curadoria consistia simplesmente em abrir o texto de Ovídio, ler um episódio em voz alta e perguntar: “Que outras obras da coleção dialogam com essa história?”.
Foi assim que percebemos, por exemplo, que os mitos de Apolo e Dafne, Baco e Ariadne e o Rapto de Europa poderiam ser organizados em torno de uma grande narrativa sobre transformação, desejo e sobrevivências.
Dessa reflexão nasceu o conceito do Fio de Ariadne, que se tornou o eixo da exposição. Assim como, na mitologia, o fio conduz Teseu para fora do labirinto, na exposição ele conduzia o visitante por diferentes tempos históricos, mostrando como as imagens da Antiguidade continuam retornando e adquirindo novos significados.
Essa ideia dialoga diretamente com a perspectiva de Aby Warburg, que inspira minhas pesquisas sobre a sobrevivência das imagens e sua permanente atualização na cultura.
Um dos momentos mais icônicos da mostra foi a transformação da sala de jantar da Casa Museu em um espaço dedicado aos banquetes dos deuses.
Ali, procuramos estabelecer um diálogo entre os banquetes gregos e romanos, o ambiente doméstico construído por Eva Klabin e a tradição do banquete antropofágico presente no modernismo brasileiro, sugerindo que a casa também poderia ser compreendida como um lugar de deglutição do antigo.
A exposição terminava com um grande ensaio fotográfico sobre a presença dos deuses da Antiguidade na paisagem urbana do Rio de Janeiro, mostrando que essas imagens continuam presentes em monumentos, edifícios e espaços públicos da cidade. Era uma forma de convidar o visitante a sair da Casa Museu e continuar a exposição caminhando pelas ruas do Rio.
O resultado superou nossas expectativas. Ecos do Olimpo tornou-se a exposição mais visitada da história da Casa Museu Eva Klabin, demonstrando que a Antiguidade continua despertando enorme interesse quando apresentada como parte viva da nossa cultura.
Foi produzido um belo e-book sobre a exposição, documentando esse diálogo entre acervos de diferentes instituições a partir da temática da mitologia.
Para mim, foi a confirmação de que os museus podem ser espaços privilegiados de produção de conhecimento, capazes de aproximar pesquisa acadêmica e experiência pública de maneira sensível e acessível.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Douglas Liborio – Neste momento, meu principal projeto é a conclusão do livro As Sedes do Parlamento Brasileiro (1826–2026), que será publicado em novembro deste ano pelas Edições Câmara, como parte das comemorações dos 200 anos do Parlamento brasileiro.
A obra está sendo escrita em parceria com os arquitetos Elcio Gomes e Fábio Chamon, dois grandes especialistas na arquitetura parlamentar brasileira, e representa uma oportunidade muito especial de reunir pesquisa histórica, arquitetura e patrimônio em uma publicação de alcance nacional, com o apoio da Câmara dos Deputados.
O livro apresenta um panorama inédito das sedes do Parlamento ao longo de dois séculos, recuperando edifícios históricos, projetos que nunca chegaram a ser construídos, fotografias raras e documentos pouco conhecidos. De certa forma, ele amplia uma investigação que venho desenvolvendo há alguns anos sobre as relações entre arquitetura, memória e representação política no Brasil.
Também tenho dado continuidade à minha colaboração na coleção O que Deu no Jornal: fontes e propostas didáticas para a sala de aula, coordenada pelo professor Jayme Lúcio Ribeiro, da Universo.
Já publiquei capítulos dedicados à Primeira República e à Era Vargas, abordando temas como o Palácio Tiradentes e a representação de Getúlio Vargas no espaço público.
Em breve, será lançado um novo volume sobre a ditadura militar, no qual contribuo com um estudo sobre os cinquenta anos da demolição do Palácio Monroe, entre 1976 e 2026, e seus impactos para a memória urbana do Rio de Janeiro.
Mais do que projetos isolados, acredito que todos esses trabalhos fazem parte de uma mesma trajetória de pesquisa. Meu interesse continua sendo compreender como arquitetura, arte, patrimônio e cultura visual ajudam a construir as formas de representação do poder e da identidade brasileira.
Espero continuar levando essas reflexões para os livros, os museus, as universidades e, principalmente, para o público em geral, aproximando cada vez mais a pesquisa histórica da sociedade.


