Há algo que tem chamado atenção na plateia brasileira nos últimos anos: elas parecem cada vez mais dispostas a ouvir histórias que nasceram aqui, no Brasil. Não porque o teatro internacional tenha perdido sua importância — longe disso —, mas porque nossos autores e personagens voltaram a ocupar um lugar de interesse na cena com uma força que merece ser celebrada.

Diversos textos importantes estão em cartaz, como “O Beijo no Asfalto”, com nova montagem no Teatro Glaucio Gill, trazendo de volta um clássico nacional do mestre Nelson Rodrigues. E montagens como o espetáculo solo “O Cachorro que se Recusou a Morrer”, de Samir Murad em cartaz neste final de semana no Teatro da UFF, que fala da história de seu pai, imigrante libanês que constituiu família no Brasil e trouxe sua ancestralidade para nossas terras. O espetáculo transforma memórias, afetos e inquietações em matéria cênica sem recorrer a fórmulas prontas, reafirmando que nossas vivências têm potência dramática suficiente para dialogar com qualquer público. É um teatro que parte do íntimo para alcançar o universal. 

Esse movimento não acontece de forma isolada. Há uma geração de artistas que investe em escrever sobre o Brasil e sobre os brasileiros, seja revisitando a história, explorando conflitos contemporâneos ou transformando experiências pessoais em dramaturgia. É uma produção que não busca imitar modelos, mas encontrar sua própria voz, preservando sotaques, memórias e referências que pertencem à nossa cultura. Cito algumas produções recentes que exemplificam bem isso, como “Raspadinhas” de Alain Catein, “Eu sou outro você”, de Mathias Bildhauer, entre outros.

Também me impressiona quando um espetáculo escolhe mergulhar na trajetória de figuras que ajudaram a construir nossa identidade. “Simplesmente Clarice”, com Beth Goulart, faz isso ao aproximar o público do universo de Clarice Lispector, revelando que literatura e teatro podem dialogar de maneira sensível, tornando uma das maiores escritoras brasileiras novamente contemporânea para cada espectador.

Talvez seja justamente essa a qualidade mais interessante do teatro brasileiro de hoje: ele parece mais interessado em contar boas histórias. Histórias que reconhecemos, que poderiam acontecer na casa ao lado ou que ajudam a compreender quem fomos e quem ainda somos.

Naturalmente, continuaremos recebendo excelentes montagens de textos estrangeiros, muitas delas fundamentais para a formação de artistas e plateias. Mas há algo de especial quando um espetáculo nasce da nossa realidade, das nossas contradições e da nossa maneira muito particular de enxergar o mundo. Existe um tipo de identificação que não depende de tradução.

Tenho a impressão de que o público também percebe isso. As salas cheias para produções autorais brasileiras não são apenas um reflexo da curiosidade, mas de um desejo de se reconhecer no palco. Em tempos de tantas narrativas importadas circulando pelas telas, ver personagens que falam a nossa língua — em todos os sentidos — acaba sendo um reencontro. E isso mostra o vigor da dramaturgia brasileira.

Se existe uma boa notícia para o teatro brasileiro, talvez ela seja justamente esta: nossas histórias continuam sendo contadas. E, mais importante, continuam encontrando quem queira ouvi-las. Afinal, um país também se reconhece pelas histórias que escolhe preservar em cena.

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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