Há artistas que atravessam gerações; Leda Lucia (@leda.lucia.3) atravessa épocas. Com mais de seis décadas de carreira, a atriz construiu uma trajetória que se confunde com diferentes capítulos da história do teatro, da televisão e do humor no Brasil. Da experiência na televisão ainda em preto e branco, passando pelos grandes nomes do humor e pelas novelas que marcaram época, até os palcos que continuam sendo seu território de afeto, Leda acumulou personagens, encontros e histórias que ajudam a contar a própria transformação da cena brasileira.

E Leda Lucia segue firme nos palcos, com a energia e a coragem das grandes atrizes. Em cartaz com a comédia “O Espírito da Coisa” (@oespiritodacoisa.teatro), de Flávio Freitas, e também com o espetáculo “Brilho das Estrelas”, a atriz encara personagens, novas gerações e o mesmo prazer de entrar em cena. Na comédia, interpreta Dona Providência, uma figura autoritária e moralista, bastante distante de sua personalidade, encontrando justamente nessa diferença um dos prazeres do ofício: a possibilidade de ser outra pessoa por algumas horas.

Nesta conversa, Leda Lucia revisita uma carreira povoada por nomes como Chico Anysio, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Costinha e Lúcio Mauro, relembra personagens que ganharam vida na televisão e fala sobre a escola de palco que ajudou a formar sua atriz. Entre memórias, humor e uma generosa disposição para compartilhar o que aprendeu, ela também revela por que ainda não conseguiu se despedir definitivamente dos palcos. Afinal, como ela mesma resume, basta terminar um espetáculo e encontrar o público para que “a vontade de parar vai embora”. Acompanhe a entrevista.

Leda Lucia em cena na comédia O Espírito da Coisa, de Flávio Freitas. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Em “O Espírito da Coisa”, sua personagem movimenta a trama querendo impor a ordem e a moralidade em uma cidade onde todos não são exatamente aquilo que aparentam ser. Como é participar de uma comédia ágil e cheia de reviravoltas como essa?

Leda Lucia: Participar de “O Espírito da Coisa” é uma satisfação enorme, por ser uma personagem forte, autoritária e bem diferente daquilo que sou. Isso eu acho muito bom: interpretar algo diferente da sua personalidade.

Rodolfo Abreu: Você e Flávio Freitas, autor e diretor de “O Espírito da Coisa”, já fizeram alguns trabalhos juntos de sucesso. Como é a relação profissional de vocês?

Leda Lucia: Adorei trabalhar com o autor e diretor Flávio Freitas. Antes, trabalhei na peça “O Bosque das Delícias” (uma sátira da Mitologia Grega), na qual eu tinha dois personagens: a Deusa Vênus e uma das Parcas; essa, minha preferida, por ser uma personagem meio bruxa que cantava e tinha uma voz engraçada. A sintonia entre ele e eu é a melhor possível.

Claudio Cavalcante e Leda Lucia em Anastácia, a Mulher sem Destino. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Rodolfo Abreu: Nessa peça, o elenco traz atores muito talentosos, mas com vivências bem diversas, resultando em uma comédia muito engraçada. Como é para você, atriz veterana, dividir o palco com novos atores?

Leda Lucia: O bom de tudo isso é trabalhar com pessoas jovens, talentosas e que se sentem gratificadas de contracenar comigo. Isso é um presente.

Rodolfo Abreu: Sua trajetória artística sempre transitou muito bem pelo humor, mas os bons personagens cômicos quase nunca são apenas engraçados. O que você procura encontrar por trás da comicidade de uma personagem? Existe, para você, uma espécie de “verdade” que precisa existir mesmo quando o público está rindo?

Leda Lucia: Eu gosto muito de comédia e, quase sempre, brincando se diz a verdade, e o público, às vezes, já se viu naquela situação.

Rodolfo Abreu: Você começou sua trajetória muito próxima do teatro de revista e chegou a trabalhar nos famosos shows de Carlos Machado, ao lado de artistas como Grande Otelo, Betty Faria e outros grandes nomes. O que aquela escola de palco — de ritmo, presença, improvisação e contato direto com o público — ensinou à atriz Leda Lúcia que permanece até hoje?

Leda Lucia: Eu peguei uma TV ainda em preto e branco na TV Tupy, ao lado de Lúcio Mauro, José Santa Cruz e Roberto Roney, dirigida por Maurício Sherman. Em seguida, TV Excelsior e, após, TV Globo.

Leila Diniz e Leda Lucia em Anastácia, a Mulher sem Destino. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Rodolfo Abreu: Você participou de momentos fundamentais da televisão brasileira, incluindo a primeira versão de “Irmãos Coragem”, além de “Anastácia, a Mulher sem Destino”, “O Bofe” e outros trabalhos. Quando olha para aquela televisão artesanal, feita em um ritmo completamente diferente do atual, o que sente que se perdeu — e o que aquela época tinha que ainda faz falta?

Leda Lucia: Naquela época, os recursos eram mínimos, mas, comparando com a de agora, eu sinto falta dos grandes redatores no humorismo e até em novelas.

Leda Lucia e Monah Delacy em cena na primeira versão de Irmãos Coragem. — Foto: Divulgação
Leda Lucia e Emiliano Queiroz em Irmãos Coragem. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: No humorístico da TV “Chico City”, Chico Anysio criou especialmente para você a personagem Eglantine, que permaneceu durante anos no programa. Como era trabalhar com um artista com uma capacidade tão extraordinária de criação? E o que Chico enxergava em você como atriz que talvez você mesma ainda estivesse descobrindo naquele momento?

Leda Lucia: No humor, com Chico Anísio, no programa Chico City, com a personagem Eglantine, filha do Canavieira: Chico Anísio; noiva do Beleza: Carlos Leite; e esposa do Caramu. Foi uma honra Chico Anísio ter criado uma personagem pra mim. Seriado Linguicinha (Chico Anísio) e eu, Mulher Gato, e muitos outros trabalhos.

Capa do LP da trilha sonora do programa Chico City, de Chico Anysio, com Leda Lucia e grande elenco. — Reprodução / Divulgação

Rodolfo Abreu: Você interpretou Margarida na primeira versão de “Irmãos Coragem”, uma novela que se tornou um marco da televisão brasileira. E hoje tem mais de 60 anos de carreira e acumula mais de uma centena de trabalhos entre teatro, televisão e cinema. O que mais marcou você nos trabalhos que realizou?

Leda Lucia: Eu tive uma grande escola trabalhando com Carvalhinho, Bem Vindo Siqueira, Costinha, Dercy Gonçalves etc. Nas novelas, contracenei com Claudio Cavalcante, Monah Delaci, Emiliano Queiroz, Leila Diniz e Nivea Maria.

Rodolfo Abreu: Ao longo da carreira, você deixou de estar apenas diante das câmeras ou no palco e também passou a dirigir e produzir alguns de seus próprios trabalhos. Foi uma necessidade de ampliar sua liberdade artística ou uma consequência natural? Em algum momento você sentiu que precisava assumir também o controle dos bastidores para continuar contando as histórias que queria contar?

Leda Lucia: Em dado momento, senti vontade de produzir e dirigir, e foi o que fiz. Em seguida, fui convidada pela Prefeitura de Nilópolis a dar aula e adorei passar um pouco do meu conhecimento para eles. Aí, aquele bichinho que mexe com o ator, que é a falta de pisar no palco, voltou.

Há dois anos, resolvi me aposentar fazendo a peça “Devagarinho eu Deixo”, mas não me deixaram kkkkkk. E agora estou em cartaz com “Brilho das Estrelas”, no Teatro Miguel Falabella, e “O Espírito da Coisa”. Muito bom terminar um espetáculo e o público chegar até você, apertar sua mão, abraçar e dizer: “Você é ótima, parabéns”. Então, a vontade de parar vai embora.

Rodolfo Abreu: Você atravessou diferentes gerações de artistas e trabalhou com nomes que hoje fazem parte da memória afetiva do Brasil. Se pudesse deixar uma espécie de conselho para uma atriz jovem que está começando hoje, o que diria? E, olhando para sua própria trajetória, quando as luzes se apagam e o espetáculo termina, o que você gostaria que permanecesse na memória do público sobre Leda Lúcia?

Leda Lucia: Mas sempre falo para os que estão começando: disciplina e dedicação, sempre.

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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