Com mais de seis décadas dedicadas às artes, Ascânio MMM construiu uma trajetória marcada pela investigação da forma, da matéria e do espaço. Da madeira aos trabalhos em alumínio, passando pelas esculturas públicas e pelas experiências com cor, o artista mantém no ateliê o exercício permanente de pesquisa e criação.
Na exposição Poex, na Galeria Silvia Cintra+Box 4, Ascânio apresenta trabalhos inéditos produzidos entre 2024 e 2026 e amplia uma investigação que relaciona geometria, cor e movimento. Nesta conversa com Chico Vartulli, ele relembra sua formação, suas referências e encontros importantes de sua trajetória, além de falar sobre a exposição atual e os projetos que já começam a ganhar forma.
Chico Vartulli – Olá, Ascânio! Qual é o balanço que você faz da sua carreira como escultor?
Ascânio MMM – Eu me considero um otimista. Tudo o que pesquisei e criei até agora, dos brancos de madeira até os Poex de alumínio e cor, teve um resultado positivo. Em 1972, tentei passar da madeira para o alumínio. Não funcionou porque eu não tinha as ferramentas adequadas. Voltei para a madeira.
Assumi o alumínio como matéria-prima dez anos depois, quando fiz a primeira escultura para um espaço público, em um edifício residencial na Rua Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro. Dois arquitetos da João Fortes Engenharia, Claudio Fortes e Roberto Victor Breves, que foram meus colegas na Faculdade de Arquitetura, viram a peça e me convidaram a instalar uma escultura na alameda de palmeiras centenárias do Edifício Argentina, na Praia de Botafogo, 228. A apresentação do trabalho aconteceu em 1983.
A partir daí, instalei outras esculturas públicas, como a da Prefeitura do Rio de Janeiro, na Avenida Presidente Vargas; nos hotéis Royalty Copacabana e Barra da Tijuca; na sede da GlaxoSmithKline, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro; no Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo, na Sé; no Edifício Salvador Dali, em Belo Horizonte; e na Assembleia Legislativa de Teresina, no Piauí. No exterior, tenho peças na sede da Caixa Geral de Depósitos de Lisboa e no Largo do Cortinhal, em Fão, Portugal, e no Edifício Nissin, em Tóquio, Japão.

Chico Vartulli – Quais são as novidades que você apresenta ao público na sua exposição Poex?
Ascânio MMM – Na série anterior, intitulada Quacors — as primeiras sílabas de quadrados e cores —, iniciada em 2018, os contornos eram regulares, retangulares ou quadrados. Surgiu a necessidade de experimentar. Hoje, as peças têm os perímetros irregulares para aumentar a dinâmica das superfícies geométricas, e acrescentei novos tons de cores.
Precisei usar tinta spray sobre as placas de alumínio já pintadas de branco em estufa a 200 °C para alcançar uma paleta que me satisfizesse. As opções de tinta eletrostática são bem limitadas. A propósito do aumento de cores nas esculturas de parede, o crítico Felipe Scovino diz no texto de apresentação de Poex: “Ascânio é um escultor que pensa como pintor”.
Chico Vartulli – Como está estruturada a exposição? Quais são as suas produções que integram a mostra?
Ascânio MMM – São dez trabalhos inéditos da série Poex1, que ocupam três paredes da Galeria Silvia Cintra+Box 4. Essas peças são formadas por 180 a 400 quadrados de alumínio de 5 x 5 cm, cortados em fatias de 2,2 cm, com e sem cor.
Tendo a quarta parede como fundo, a escultura de chão, também inédita, é um penetrável composto por dois módulos semicirculares que se encaixam. Na parte superior, há espelhos suspensos a 3 e 3,5 metros do chão. O visitante pode entrar na escultura e ter ali uma experiência de infinitude e mistério. Intitulada Quasos/Poligonal, ela pesa 140 quilos. As 11 peças foram criadas nos últimos três anos, entre 2024 e 2026.
Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como escultor?
Ascânio MMM – Cheguei ao Rio, em 1959, com minha família, vindo de Fão, distrito de Braga, no norte de Portugal, onde nasci, com um projeto: ser arquiteto. Quando estava terminando o ensino médio, queria aprender a desenhar, e uma colega me indicou a Escola Nacional de Belas Artes. Passei no vestibular em 1963.
Nos intervalos das aulas, eu ia ao Museu Nacional de Belas Artes, o primeiro em que entrei. A escola estava sediada no mesmo prédio. Ali conheci o trabalho dos escultores Franz Weissmann e Amilcar de Castro e dos pintores Aloisio Carvão, Ivan Serpa e outros, premiados nos Salões de Arte Moderna. Encantei-me e decidi: é isso que eu quero na vida.
Porém, mantive o propósito de quando cheguei ao Brasil. Entre 1965 e 1969, os anos de chumbo, cursei e me graduei em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em abril de 1966, participei pela primeira vez de uma exposição com um objeto. Foi a coletiva I Salão de Abril, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Trabalhei como arquiteto até 1976. A partir do ano seguinte, passei a me dedicar integralmente às artes plásticas.

Chico Vartulli – Quais foram as suas referências, teóricas e práticas, no campo da escultura?
Ascânio MMM – Cito três: o crítico e curador de arte Frederico Morais [BH, 1936–] foi o primeiro que me apoiou nas artes e escreveu muito sobre a geração à qual pertenço [Cildo Meireles, Barrio, Wanda Pimentel, Antonio Manuel, Raymundo Colares e outros]. Minha primeira mostra individual, na Galeria Celina, no Rio de Janeiro, teve texto de apresentação de Frederico.
Rosalind E. Krauss [EUA, 1941–], autora do livro seminal Caminhos da escultura moderna, sobre conceitos e história da arte; e Lygia Pape [Friburgo, RJ, 1927–RJ, 2004], integrante do Grupo Frente e signatária do Manifesto Neoconcreto de 1959. Admiro muito a obra dela e prezo a chance de ter convivido com ela no MAM Rio, onde os artistas se reuniam naqueles tempos: Barrio, Antonio Manuel, Raymundo Colares, Wanda Pimentel, Ivan Serpa, Cildo Meireles, Luiz Alphonsus e Guilherme Vaz.
Chico Vartulli – Qual é a definição de arte que você partilha?
Ascânio MMM – Sou influenciado pelo neoconcretismo, um movimento surgido no Rio de Janeiro, em 1959, que recusou a rigidez racional do Concretismo. O poeta e crítico Ferreira Gullar redigiu o Manifesto Neoconcreto, cujos principais signatários foram Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape.
Chico Vartulli – Qual é o escultor de cujo trabalho você é fã? Justifique.
Ascânio MMM – Sou fã de Franz Weissmann [Áustria, 1911–RJ, Brasil, 2015] e de Alexander Calder [EUA, 1898–EUA, 1996], porque eram artistas-artesãos, faziam os próprios objetos.
Frequentei a fábrica de carrocerias de ônibus Ciferal, em Ramos, com Weissmann, cujo irmão era dono, onde ele construía suas esculturas. Nós nos conhecemos na escada do MAM Rio. Eu estava com uma individual no museu em 1976, e ele veio falar comigo. Desde então, mantivemos uma amizade dentro e fora do circuito da arte.
Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?
Ascânio MMM – O mais importante é manter o meu dia a dia no ateliê, no Centro do Rio, exercendo a liberdade de inventar. O embate diário do ateliê é imprescindível para minha caminhada criativa.
Inaugurada a mostra Poex, no último dia 15 de agosto, já estou pensando em uma nova série em que os tubos quadrados de alumínio deixam de ser apenas estruturais para entrarem como componentes geométricos dos trabalhos. Este provavelmente será outro conjunto inédito para a próxima individual na galeria paulistana Casa Triângulo, em 2027.
- Poex é a abreviação de “poética experimental”, expressão proposta por Paulo Herkenhoff a respeito da pesquisa do artista, no livro Ascânio MMM: poética da razão. ↩︎


