Há muitas maneiras de conhecer uma cidade. Caminhar por suas ruas talvez seja uma delas. É uma percepção que me acompanha desde que, ainda durante minha formação acadêmica, entrei em contato com as crônicas de João do Rio e com a ideia do flâneur, aquele personagem que percorre a cidade observando seus tipos, suas ruas, seus hábitos e costumes. Anos mais tarde, essa maneira de pensar o caminhar pela cidade ganharia uma dimensão feminina a partir da leitura de Lauren Elkin, em Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres.

Surgia ali a compreensão sobre a importância de caminhar como uma forma de se apropriar do espaço urbano e de compreender a sua história, bem como a memória de uma cidade.
Anos depois, essa percepção ganharia outros sentidos nas minhas caminhadas pela região portuária do Rio de Janeiro. Não raro, percorríamos o Cais do Valongo, o Jardim Suspenso do Valongo, o antigo Largo do Depósito, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio e o Cemitério dos Pretos Novos. Caminhar por aquela parte da cidade permitia compreender as histórias e as memórias que permeavam cada pedra, cada construção e cada símbolo presente naquele lugar.

Mas havia também os bares e restaurantes.
Alguns deles se transformaram em pontos de encontro de alunos, colegas e pesquisadores. A partir daí, a gastronomia também passou a despertar meu interesse como uma possibilidade de compreender a história do Rio de Janeiro. Afinal, bares e restaurantes podem ser muito mais do que estabelecimentos onde se come e se bebe. São lugares de encontros e trocas, onde se constroem redes sociais e culturais e, sobretudo, memórias.

Um desses lugares era o Restaurante 28, estabelecimento centenário localizado na Rua Barão de São Félix, na região da Gamboa. O restaurante era conhecido pelo famoso prato à base de cabrito cozido na panela com molho, acompanhado por batatas coradas. Mas não era apenas a comida que levava as pessoas até ali. O 28 era um local de encontro semanal, um espaço acolhedor e sociável, marcado também pela amabilidade de seus proprietários.
Em 2011, recebeu a charmosa placa azul da Prefeitura que reconhecia o local como Patrimônio Cultural da Cidade.
Porém, quatro anos depois, fechou suas portas.
O fechamento ocorreu justamente em um momento de profundas transformações na região portuária. Durante um longo período, a rua Barão de São Félix permaneceu interditada. Com as obras do Projeto Porto Maravilha, oficialmente lançado em 2009, aquela parte da cidade passava por grandes intervenções urbanas. O projeto recebeu críticas de urbanistas, ativistas e políticos, que chamavam a atenção para questões como as tentativas de remoção de moradores, a ausência de políticas habitacionais e os riscos de especulação imobiliária e gentrificação. Ao mesmo tempo, novos investimentos ligados ao turismo chegavam à região.

Não se trata de estabelecer uma relação simples entre essas transformações e o desaparecimento do restaurante. Mas o 28 encerrou suas atividades naquele contexto.
O certo é que deixou saudade para muitos de seus assíduos frequentadores.
Apesar das tentativas de substituí-lo por outro lugar como ponto de encontro, nada conseguiu reescrever sua memória. Talvez porque alguns lugares acabem se tornando inseparáveis das experiências vividas neles. Uma mesa, um prato conhecido, os proprietários, os garçons, as conversas e as pessoas que sabemos que encontraremos quando chegarmos passam a fazer parte de uma determinada maneira de viver a cidade.
Perto dali, no Largo da Prainha, outro estabelecimento também se tornou parte dessa história. O Angu do Gomes, fundado em 1955 e reconhecido como patrimônio cultural carioca, funcionou durante muitos anos em um pequeno sobrado no Largo. Com o aumento do movimento, acabou transferido para outro imóvel no próprio local. O restaurante passou por uma verdadeira metamorfose, acompanhando também as mudanças ocorridas na região da Pedra do Sal, que atualmente é um lugar que atrai muitos cariocas e turistas, especialmente aos finais de semana.

Hoje, caminhar por ali revela uma região marcada pelo surgimento de novos bares, pela música, pela presença de visitantes e pela valorização da chamada Pequena África, território que abarca Gamboa, Saúde e Santo Cristo e guarda uma história profundamente ligada à diáspora africana, à escravidão e à própria formação da história do Rio de Janeiro.

Talvez por isso os bares tradicionais devam ser pensados também como parte da história da cidade. Neles permanecem hábitos, receitas, conversas, encontros e formas de sociabilidade que ajudam a compreender os bairros e seus moradores. Alguns sobrevivem às transformações. Outros, mudam de endereço, de proprietários e de frequentadores. Outros, simplesmente desaparecem.
Mas a memória permanece.

Por isso, continuo acreditando que, para verdadeiramente conhecer o Rio, é preciso caminhar por suas ruas, adentrar seus becos, descortinar histórias desconhecidas e frequentar seus bares. A cidade também se revela nesses espaços de sociabilidade, nos encontros casuais e nas descobertas inesperadas.
Porque a história do Rio não está apenas nos monumentos que permanecem de pé, se encontra naqueles lugares onde as pessoas se encontraram, sentaram-se à mesa, conversaram, viveram, experimentaram a cidade.
Esta coluna se baseia no capítulo “Patrimônio, gastronomia e sociabilidades na história do Rio de Janeiro”, de autoria de Luciene Carris, publicado no livro Costa, Amanda Danelli; Carris, Luciene. A cidade e o poeta: Antonio Edmilson Martins Rodrigues, um historiador do Rio de Janeiro (Telha, 2024).
Crédito das imagens
1. Alexandre Macieira / MultiRio / CC BY 3.0 BR / Wikimedia Commons
2. Autor não identificado / Bahia Illustrada / Biblioteca Nacional / Domínio público / Wikimedia Commons
3. Gabibzz / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons
4. J. P. Engelbrecht / Prefeitura do Rio / CC BY 3.0 / Wikimedia Commons
5. Tomaz Silva / Agência Brasil / CC BY 3.0 BR / Wikimedia Commons
6. Marc Ferrez / Domínio público / Wikimedia Commons
7. Goliv04053 / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons
8. Juliana Cunha Oliv / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons


