Na coluna desta edição, conversei com Bernardo Aguiar, percussionista, pesquisador e criador brasileiro que acaba de lançar o álbum visual Káminhos Benaguiá. Concebido como uma experiência audiovisual integrada, o projeto reúne música, imagem, texturas sonoras, referências culturais e memórias de uma trajetória marcada pela percussão, pela música brasileira e por encontros artísticos no Brasil e no mundo.

Chico Vartulli – Olá, Bernardo Aguiar! Você poderia comentar, de forma geral, sobre o projeto do álbum visual Káminhos Benaguiá?

Bernardo AguiarKáminhos Benaguiá é um álbum visual concebido como uma experiência audiovisual integrada, em que som e imagem foram pensados juntos, desde a origem. Mas claro, apesar de eu assinar a concepção visual de todo o trabalho, o meu terreno firme é a música. Então, acima de tudo, trata-se de uma criação musical.

O resultado disso se expressa em cinco faixas audiovisuais. Ou seja, não são clipes, porque geralmente o clipe nasce quando você já tem a música pronta e depois cria imagens para ilustrá-la.

Em Káminhos Benaguiá, não é isso que acontece. O sentido sonoro acompanha o sentido imagético, e vice-versa. São narrativas sonoro-visuais. As criações de imagem e de som dialogam diretamente entre si e, dessa maneira, algumas histórias vão sendo contadas.

É um projeto profundamente ligado à minha trajetória, aos muitos caminhos que percorri como músico, percussionista, pesquisador e criador, e isso se expressa até no nome do trabalho.

Para contar essas histórias, parto do meu terreno mais firme, que é o universo percussivo. E, a partir dele, vou a fundo nos timbres, ambiências, referências culturais, cores e formas. Acho que a palavra “textura” é uma chave importante nesse projeto, porque diz respeito tanto ao mundo das imagens quanto ao mundo do som. É justamente por meio dessa mistura de texturas que construo a unidade dessas faixas audiovisuais.

Musicalmente, é um álbum visual brasileiro e universal. Brasileiro porque nasce das minhas muitas vivências nesse nosso Brasilzão. E universal porque dialoga com tantas coisas que assimilei nas minhas andanças pelo mundo.

O trabalho conta também com a presença de artistas convidados, brasileiros e internacionais, que expandem cada faixa à sua maneira.

É um projeto pensado para ser experienciado principalmente no YouTube, onde essa relação entre som e imagem acontece de forma mais completa. E, ao mesmo tempo, já aponta para muitos desdobramentos futuros, como livro, shows e novas experiências audiovisuais.

Bernardo Aguiar em seu estúdio, cercado por instrumentos que integram a pesquisa sonora de Káminhos Benaguiá. — Foto: Daniel Lôbo / Divulgação

Chico Vartulli – Qual é a importância do álbum para a sua trajetória?

Bernardo Aguiar – De certa forma, o próprio nome do álbum já responde um pouco a essa pergunta. Káminhos Benaguiá reúne alguns dos muitos caminhos que trilhei, expressos em formato de arte ampliada. Nasce da vontade de criar uma unidade para tantas coisas que vivi graças à música e é, também, uma ode aos caminhos que percorri, uma celebração que faço a tanta coisa incrível que vivenciei.

O que me motivou foi justamente a vontade de compartilhar com o público esse tanto de experiências e vivências que me atravessaram ao longo da vida. E, para realizar esse projeto, precisei me perguntar: como expressar tudo isso? Um formato híbrido foi a maneira que encontrei para dar forma a esses muitos caminhos.

É bonito pensar que o álbum é fruto da minha trajetória, mas também já começa a abrir novos caminhos. Mal lancei o projeto e já sinto isso acontecendo.

Em alguns projetos dos quais participei, eu já atuava como músico, arranjador, produtor e como alguém que pensa conceito. Isso tudo já existia em mim, mas aparecia diluído em diferentes contextos e colaborações. Em Káminhos Benaguiá, essas muitas dimensões passam a estar reunidas em uma mesma visão.

Esse trabalho me coloca em um lugar de maior consciência sobre coisas que eu já vinha fazendo há muito tempo e que agora passam a caminhar juntas de forma mais clara.

Acho que, também para o público, passo a ser percebido como alguém que concebe um universo musical inteiro, e não apenas como intérprete ou colaborador dentro de um projeto maior. E, para além da música em si, apareço também como criador de imagens e palavras, alguém que caminha por uma concepção artística mais ampliada.

Como disse, esse álbum é audiovisual, e o livro que virá na sequência aprofundará, em palavras, os universos que atravessam esse trabalho.

Então, de certa forma, esse projeto não me reinventa, mas revela com mais nitidez algo que já estava aqui: uma forma de pensar música como construção de mundos.

Chico Vartulli – Como está estruturado o álbum?

Bernardo Aguiar – O álbum é formado por cinco faixas audiovisuais que compartilham uma unidade conceitual, mas, ao mesmo tempo, apresentam universos distintos entre si. Cada música possui sua própria atmosfera, sua própria paleta sonora e visual, com diferentes instrumentações, narrativas e direções estéticas.

Existe um trabalho muito forte de texturas, ambiências e construção imagética. O som influencia diretamente a imagem, e a imagem também influencia o som. Tudo foi pensado de maneira integrada.

O álbum conta ainda com participações de músicos convidados, brasileiros e internacionais, que expandem esses universos sem descaracterizar a identidade do trabalho. São colaborações construídas a partir de afinidade artística e de uma visão musical muito conectada com essa ideia de alquimia sonora e visual.

Chico Vartulli – Qual é o balanço que você faz dos seus 30 anos de carreira como músico?

Bernardo Aguiar – É um sentimento de muita felicidade por tudo que já vivi, mas também de muita vontade de fazer ainda muito mais coisa. Minha vontade de realizar segue a pleno vapor. Como disse, Káminhos Benaguiá são os caminhos que percorri. É, de certa forma, um balanço. Sou eu olhando para tudo isso, mas também olhando para os novos caminhos que começam a surgir a partir desse momento.

Minha trajetória passou por muitos lugares diferentes: escolas de samba, rodas, projetos instrumentais, gravações, turnês internacionais, trabalhos autorais, pesquisas culturais, experiências audiovisuais. E, se hoje sou um músico brasileiro que viaja o mundo tocando, isso se deve diretamente ao legado que assimilei na minha terra, o Brasil, país trilhardário de cultura pulsante, de músicos e musicistas incríveis.

Ao longo dessas décadas, uma coisa ficou muito clara para mim: a música brasileira é um universo praticamente infinito. Quanto mais a gente mergulha nela, mais percebe sua profundidade, sua sofisticação e sua potência criativa.

Se viajo pelo mundo tocando, não é porque faço jazz, mas porque toco música brasileira com uma pegada universal. E, ao mesmo tempo em que vou circulando por diferentes lugares do mundo, também vou me percebendo cada vez mais como um cidadão do mundo, assimilando formas artísticas, sonoridades, visões e experiências que encontro pelo caminho. Tudo isso molda a minha maneira de pensar música.

Sigo traçando caminhos, aprendendo, pesquisando e descobrindo coisas novas o tempo todo. Sinto-me em um momento muito potente justamente por conseguir olhar para trás e enxergar tanta riqueza, olhar para a frente e perceber tanta coisa ainda por vir, e também olhar para o presente e celebrar.

Sinto que hoje consigo enxergar com mais clareza o músico que sou e organizar melhor tudo aquilo que fui acumulando artisticamente ao longo da vida. Káminhos Benaguiá nasce muito dessa maturação.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação no campo da música?

Bernardo Aguiar – Minha formação musical aconteceu muito pela vivência. Apesar de não vir de uma família de músicos profissionais, cresci cercado de música. Meus pais tinham muitos amigos que se reuniam para tocar nas chamadas “violadas”, então, desde pequeno, convivi com instrumentos, rodas, festas e essa música acontecendo de forma coletiva.

Com nove anos, mergulhei no universo das escolas de samba. Fiquei completamente fascinado por aquilo. Acho que ali começou uma parte muito importante da minha formação: entender música como corpo, comunidade, rua, celebração, acontecimento coletivo.

Muito cedo percebi que a riqueza da música brasileira está justamente nesses espaços públicos, nas esquinas, nos terreiros, nas rodas, nas festas populares. Até hoje, quando viajo pelo mundo dando oficinas ou tocando em universidades, é isso que tento transmitir: grande parte da sofisticação da música brasileira nasce nesses espaços de convivência e coletividade.

Depois, com 13 anos, fui parar em uma orquestra de pandeiros chamada Pandemonium. Ali tudo aconteceu muito rápido. Eu tinha muita fome de aprender. Em pouco tempo, virei solista do grupo e comecei a conviver com mestres fundamentais para minha trajetória, como Marcos Suzano, Carlos Negreiros, Darcy do Jongo e Robertinho Silva. Foi também no Pandemonium que comecei a atuar profissionalmente.

A partir daí, fui entrando em muitos outros projetos. Com 17 anos, já estava tocando com músicos importantes da cena brasileira e, em alguns momentos, substituindo o próprio Marcos Suzano em trabalhos que ele não podia fazer. Foi assim que cheguei ao Pife Muderno, do Carlos Malta, grupo do qual faço parte há mais de duas décadas.

Considero o Pife Muderno uma verdadeira universidade musical. O Malta traz muito dessa escola ligada ao Hermeto Pascoal, então também recebi essa influência de maneira muito forte.

Ao mesmo tempo, como eu já estava vivendo música intensamente na prática, senti vontade de abrir a cabeça em outras direções. Acabei me formando em Ciências Sociais, porque tinha muito interesse pelas humanidades, pela cultura e pelas formas de organização da vida coletiva. Vejo claramente como isso atravessa minha maneira de pensar música até hoje.

Acho que a mesma curiosidade que me levou para as Ciências Sociais foi a que me levou também a mergulhar cada vez mais nas culturas populares brasileiras e nas diferentes culturas do mundo.

Nunca tive uma formação musical acadêmica tradicional. Meu aprendizado foi muito informal, mas sempre muito atento. Claro que estudei, pesquisei e organizei conhecimentos, mas minha principal escola sempre foi a experiência direta da música acontecendo.

Minha formação passa muito pela escuta, pela observação e pela convivência. Pelos encontros com mestres e mestras, pelas viagens, pelas turnês, pelas rodas, pelos terreiros, pelos festivais, pelas trocas culturais. Tenho uma curiosidade muito grande pelas culturas do mundo e sempre enxerguei a música como uma expressão profunda da humanidade. Isso foi me formando não só como músico, mas também como pessoa.

Carlos Malta e Bernardo Aguiar em encontro de gerações e sonoridades que mantém viva a riqueza da música brasileira. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Como você se define como músico?

Bernardo Aguiar – Antes de qualquer coisa, sou um músico brasileiro. É a música brasileira que fundamenta a minha linguagem. E, quando falo de música brasileira, estou falando de algo extremamente amplo, múltiplo e profundo. A partir daí, me percebo no mundo fazendo música universal. Então, me defino como um músico brasileiro universal.

Sem dúvida, a percussão é o meu eixo principal. Ela organiza minha percepção musical e é a partir dela que edifico meus mundos sonoros. Mexendo com espaço, texturas, atmosferas e dinâmicas sonoras, vou construindo as minhas criações. Então sou percussionista, sim, com muito orgulho. O universo percussivo é o meu terreno sólido. E, partindo daí, a minha criatividade transborda naturalmente para outras áreas musicais, ou não.

Gosto de ligar pontos, juntar mundos, criar outros mundos. Gosto de me inspirar em elementos para além da música e de traduzir em som as coisas que vou vivenciando no dia a dia. Um filme, uma paisagem, uma conversa, um livro, uma experiência de viagem, questões sociais, políticas, espirituais… tudo isso pode atravessar minha criação.

Vejo-me como alguém interessado em construir experiências musicais, criar narrativas, ambientes e mundos sonoros. Um músico muito atravessado pela curiosidade, pela pesquisa e pelo desejo de conexão entre diferentes linguagens artísticas e culturais.

Chico Vartulli – Quais são as suas múltiplas experiências no campo da música?

Bernardo Aguiar – Ao longo da trajetória, participei de muitos universos diferentes dentro da música. O meu fundamento musical foi desenvolvido nas baterias de escola de samba do Rio de Janeiro, mergulhado nesse universo coletivo, percussivo e popular.

Depois, fui adentrando projetos instrumentais, gravações, turnês, pesquisas culturais, trabalhos audiovisuais, produção musical, direção artística, oficinas e experiências de imersão em diferentes contextos musicais pelo Brasil e pelo mundo. Colaborei com diversos projetos ao longo dessas três décadas.

Ao longo desses caminhos, tive a oportunidade de atuar ao lado de artistas muito diversos, como Carlos Malta, Hamilton de Holanda, Yamandú Costa, Martinho da Vila, Roberta Sá, Guinga, O Rappa, Gilberto Gil e também músicos internacionais ligados ao jazz e à música instrumental contemporânea, como a banda Snarky Puppy, Susana Baca, Dave Matthews e outros artistas de diferentes partes do mundo.

Circulei por muitos festivais, teatros, universidades e centros culturais em países da Europa, África, Ásia e Américas. Já toquei em um monte de quebrada por aí, mas também em espaços rebuscados como Juilliard School, Berklee Valencia e Carnegie Hall. Acho bonito perceber como a música brasileira segue sendo apreciada em tantos contextos tão diferentes.

Em 2009, fundei o Pandeiro Repique Duo, um projeto que coloca lado a lado esses dois instrumentos típicos da alma carioca. Fazemos música só com pandeiro e repique e, para isso, evocamos muito um conceito que gosto de trabalhar, que é a “melodia do ritmo”.

Assim, eu e Gabriel Policarpo buscamos expandir o universo percussivo brasileiro para uma perspectiva mais universal. Do Pandeiro Repique Duo nasceu também o PRD Mais, um projeto que aprofunda ainda mais essa ideia da percussão sendo capaz de dizer tudo.

No ano passado, concebi também um show em homenagem ao meu grande mestre da percussão, alguém que estou sempre reverenciando: Naná Vasconcelos.

Hoje trabalho muito em estúdio, aprofundando-me na produção musical. Crio trilhas, produzo discos e desenvolvo projetos que trabalham som e imagem de forma integrada, como acontece agora em Káminhos Benaguiá.

Então acho que minhas experiências musicais passam por isso tudo e muito mais. São muitos territórios diferentes, mas sinto que existe um eixo que conecta tudo isso: a música brasileira universal, a percussão e a curiosidade. A vontade constante de aprender, trocar, pesquisar e construir pontes entre diferentes mundos musicais e humanos.

Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?

Bernardo Aguiar – Neste primeiro momento, estou muito focado no lançamento do meu álbum visual Káminhos Benaguiá. Quero agora transformar toda essa ebulição criativa em experiência ao vivo. Estou concebendo um show que não será exatamente uma reprodução do álbum visual, mas sim a tradução desse novo momento de extrema fertilidade musical que estou vivendo. E, claro, quero circular o máximo possível com esse show por aí.

Também estou nos preparativos finais para lançar um livro que nasce diretamente desse universo do álbum. Um desdobramento em palavras de muitos dos caminhos conceituais, sensoriais e humanos que atravessam o projeto.

Tenho gostado muito de perceber como a música está me levando também para outras formas de criação. Por exemplo, tenho dois projetos audiovisuais engatilhados, ambos frutos das minhas andanças pela Amazônia.

Um deles é um documentário que estou dirigindo e produzindo em homenagem à Casa da Poesia, espaço criado pelo grande poeta Thiago de Mello em pleno interior amazônico. O outro é o Amazônia BioMusical, que, assim como Káminhos Benaguiá, é um projeto bem fora da caixa, que parte dos sons, ambiências, imagens e texturas amazônicas em direção à percussão e às experiências híbridas entre som, imagem e narrativa.

Fora isso, sigo tocando e desenvolvendo os projetos que já fazem parte da minha trajetória. O Choro Batucada, por exemplo, é uma roda muito especial que fundamos há cerca de um ano e meio, com uma pegada bem própria, muito carioca, e que acontece toda terça-feira no Glorioso Cultura, no Catete, no Rio de Janeiro.

Também sigo com minhas turnês internacionais junto ao meu grupo Via Mundi, além dos trabalhos com Martinho da Vila, Pife Muderno, Aline Paes e tantos outros projetos que continuam acontecendo paralelamente.

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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