O texto de Fernando de Carvalho é baseado na obra de ficção científica Frankenstein, de Mary Shelley. Relaciona literatura e teatro; é reflexivo, crítico e questionador; oscila entre momentos de bom humor e outros de tensão; coloca em evidência a voz de Mary Shelley, trazendo-a para o mundo contemporâneo; revisita formulações incrustadas no senso comum sobre a Criatura; e procura realizar uma leitura mais autêntica da obra, afastando-se das versões cinematográficas. Exclui da trama a figura de Viktor Frankenstein, colocando frente a frente a autora e sua Criatura. Relaciona corpo, criação e tecnologia e atualiza a narrativa com questões contemporâneas, como a inteligência artificial.
O texto apresenta uma reflexão importante sobre o nosso tempo, atravessado pela tecnologia, que ocupa hoje um lugar central na sociedade, e sobre a forma como a utilizamos. Alerta para a necessidade de repensar seus maus usos, mostrando que ela deve facilitar a vida e ampliar possibilidades. Salienta, ainda, que não deve ser utilizada com fins voltados à ambição científica e financeira ou a questões bélicas, como a construção de bombas, produtos da ganância e da ambição humanas. Essa visão não humanista precisa ser combatida.
O elenco é integrado pelas atrizes Ana Quintas e Larissa Souza. Ambas apresentam atuações de qualidade e comoventes. Larissa Souza interpreta Mary Shelley, autora inglesa do século XIX e inauguradora do gênero de ficção científica, que é recriada e retorna ao mundo contemporâneo por meio da inteligência artificial. Ela é uma personagem feita de dados, pois sua existência terrena já terminou. Ao retornar, encontra-se com a Criatura, criada a partir de partes de corpos humanos, personagem da narrativa ficcional de Shelley e interpretada por Ana Quintas. Como a Criatura existe nas páginas da obra, atravessou séculos e gerações. Autora e Criatura se encontram por meio de choques elétricos e passam a interagir.
As duas atrizes estão unidas, entrosadas, afinadas, pulsantes e comoventes. Interpretam adequadamente e emocionam. Dominam o texto, transmitindo-o com clareza e utilizando uma boa retórica. Também dominam o palco, movimentando-se intensamente e ocupando seus diferentes espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público, chamando-o a participar por meio de perguntas. E o público responde! Portanto, são atuações de mérito e comoventes.
A direção de Fernanda Alpino é potente, ousada e irreverente, com marcações precisas que tornam a apresentação dinâmica e bem conduzida, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Aun Helden são criativos, primam pela originalidade, são confeccionados em látex e facilitam a movimentação das atrizes pelo palco.
A cenografia de Fernando de Carvalho recria um laboratório com os elementos que integram esse universo. É bem solucionada e estabelece uma boa interação com a iluminação.
A iluminação criada por Ana Quintas e Larissa Souza apresenta um belo desenho de luz, que valoriza a interpretação das atrizes e contribui para o ritmo e o dinamismo do espetáculo. As variações luminosas acompanham os diferentes contextos das cenas, complementando as falas e as emoções apresentadas no palco. Há também um intenso jogo de luzes e sombras, além da luz emitida pelos choques eletromagnéticos.
A trilha sonora de Gaspar Barrios é boa e funcional.
Frankenstein de Mary Shelley revisita o clássico fundador da ficção científica e apresenta questões que permanecem centrais na sociedade contemporânea. Conta com duas atrizes competentes, em interpretações convincentes, e com cenografia, trilha sonora e iluminação formando uma bonita associação cênica e visual.
Excelente produção cênica!


