Cirurgiã-dentista, mestre em Periodontia pela UERJ, especialista em Medicina Integrativa, instrutora de Mindfulness e artista visual, Leliene Rodrigues inaugura, no Rio de Janeiro, a Casa AXIS — espaço dedicado ao encontro entre arte, ciência, práticas contemplativas e desenvolvimento humano. A abertura será acompanhada da exposição Poética do Encontro, que reúne 19 obras produzidas ao longo de aproximadamente 20 anos de pesquisa em fotografia, vídeo, objetos e instalações.

Nesta entrevista à Vislun, Leliene fala sobre a construção de sua trajetória, as conexões entre arte e cuidado, a importância da percepção e o desejo de criar um espaço em que diferentes formas de conhecimento dialoguem para ampliar a experiência humana.

Chico Vartulli – Qual é o balanço que você faz dos 30 anos de sua trajetória como cirurgiã-dentista?

Leliene Rodrigues – Iniciei minha formação em Medicina. Foi assim que entrei na área da saúde e, após um ano cursando as disciplinas básicas, que me proporcionaram uma compreensão mais integrada do organismo, optei pela Odontologia. Essa trajetória já moldou em mim um olhar mais amplo sobre o cuidado.

Escolhi a Odontologia porque percebia nela a possibilidade de integrar ciência, técnica, arte e cuidado. Ao longo dos anos, compreendi que a boca revela muito mais do que aspectos físicos. Ela expressa hábitos, emoções, relações, escolhas e a maneira como vivemos, tornando-se um importante indicador da saúde em suas dimensões física, mental, emocional, relacional, simbólica e espiritual. Foi essa compreensão que transformou minha prática clínica e me conduziu à odontologia integrativa, à medicina periodontal e à busca de linguagens que ampliassem a qualidade da presença, como a prática do mindfulness.

Embora minha formação acadêmica e a experiência na docência tenham sido fundamentais, a clínica continua sendo minha maior escola. Ao longo desses 30 anos, aprendi que cada paciente chega trazendo muito mais do que uma demanda odontológica. Traz uma história, medos, expectativas, hábitos e formas particulares de cuidar de si. Com isso, meu papel deixou de ser apenas o de tratar uma condição clínica. Passei a compreender que também contribuo para ampliar a percepção que cada pessoa tem de si mesma e do próprio processo de cuidado. Ao fazer esse balanço, percebo que dificilmente outra área da saúde reuniria, de forma tão completa, ciência, técnica, estética e cuidado como a Odontologia. Talvez esse seja o maior aprendizado dessa trajetória: a prevenção começa muito antes do diagnóstico. Ela nasce da qualidade da atenção que dedicamos a nós mesmos.

Leliene Rodrigues em registro descontraído, artista cuja pesquisa transita entre fotografia, vídeo, objetos, instalações e experiências participativas. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Como você concilia a Odontologia com as artes visuais?

Leliene Rodrigues – Entendo que esses fazeres nunca estiveram dissociados. Ao contrário, sempre se complementaram e se fortaleceram mutuamente.

O exercício da Odontologia exige observação, análise de proporções, atenção aos detalhes, sensibilidade estética, escuta, silêncio, delicadeza e presença. A arte, por sua vez, amplia essas capacidades, convidando-nos a olhar com mais profundidade para o mundo e para as relações. Por isso, não vejo essas atividades como profissões distintas, mas como duas linguagens que exercitam, de maneiras diferentes, a mesma disposição para perceber, compreender e cuidar.

Chico Vartulli – Como se deu sua formação como artista visual?

Leliene Rodrigues – Acredito que minha formação artística começou ainda na infância, em Barbacena, Minas Gerais, nas aulas de desenho e pintura incentivadas por minha mãe e na atenção aos detalhes que meu pai cultivava em nosso cotidiano.

Já no Rio de Janeiro, construí esse percurso paralelamente à Odontologia. Iniciei meus estudos em História da Arte com o professor Hélio Márcio Dias Ferreira, que mais tarde se tornou um grande amigo. Depois vieram o Parque Lage e o Atelier da Imagem, onde aprofundei minha formação em desenho, pintura, fotografia e vídeo com artistas como Paulo Batelli e Marcello Portella. Um marco importante aconteceu em 2006, quando participei da imersão Procedência e Propriedade, de Charles Watson. Foi ali que ingressei de forma mais profunda no universo da arte contemporânea. A partir desse momento, o olhar artístico deixou de ser apenas uma prática e passou a se tornar uma forma de estar no mundo.

Em 2010, integrei o Programa de Aprofundamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com Luiz Ernesto, Lívia Flores e a saudosa Glória Ferreira. Depois disso, continuei desenvolvendo projetos e estudos com artistas e pesquisadores como Franz Manata, Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale. As exposições individuais e coletivas também fazem parte da minha formação. Minha pesquisa investiga as formas como percebemos o mundo e nos relacionamos com o outro. Transitando entre fotografia, vídeo, objetos, instalações e experiências participativas, abordo temas como corpo, memória, afeto, linguagem e alteridade, convidando o público a ocupar um papel ativo na construção da experiência.

Chico Vartulli – Como nasceu a Casa AXIS?

Leliene Rodrigues – A Casa AXIS nasceu da minha experiência clínica. Depois de décadas ouvindo pacientes, compreendi que muitas questões vão além do que é dito. A boca expressa aquilo que, muitas vezes, ainda não foi percebido pela própria pessoa. Ela revela hábitos, formas de viver e pequenos sinais que, quando observados com atenção, ampliam nossa compreensão sobre a saúde e o cuidado.

Ao mesmo tempo, a arte expande nossa capacidade de observação. As práticas de atenção consciente nos ajudam a perceber os processos enquanto eles acontecem, tornando nossas escolhas mais livres, responsáveis e coerentes com a maneira como desejamos viver.

Costumo dizer que a Casa AXIS nasceu para ampliar o cuidado. É um espaço de encontro onde arte, práticas contemplativas, ciência e experiências se unem para desenvolver a percepção, estimular capacidades cognitivas e promover o bem-estar integral. Acredito profundamente que o potencial humano pode ser cultivado ao longo de toda a vida, desde que exista abertura para aprender, observar e escolher conscientemente.

Chico Vartulli – Quais serão as atividades?

Leliene Rodrigues – Prefiro falar em vivências do que em atividades. A Casa AXIS reúne arte, contemplação, práticas de mindfulness, conversas, exposições e oficinas em experiências voltadas ao bem-estar e ao desenvolvimento humano. Embora utilizem diferentes linguagens, todas compartilham um mesmo propósito: cultivar a atenção, ampliar a percepção e desenvolver capacidades humanas fundamentais para o cuidado.

As práticas contemplativas ocupam um lugar central nesse percurso. Elas nos convidam a desacelerar, observar com mais profundidade e construir uma relação mais consciente conosco, com o outro e com o ambiente. Contemplar não significa apenas olhar, mas aprender a perceber.

Nas últimas décadas, a neurociência tem demonstrado que práticas como o mindfulness e determinadas experiências artísticas favorecem processos relacionados à atenção, à memória, à flexibilidade cognitiva, à autorregulação emocional e à tomada de decisões. Essas capacidades influenciam diretamente a maneira como aprendemos, nos relacionamos e fazemos escolhas ao longo da vida. Por isso, a Casa AXIS propõe experiências que vão além da sensibilidade estética. Busca criar condições para o desenvolvimento da presença, da consciência e de capacidades que fortalecem o cuidado consigo, com o outro e com o mundo.

O curador Franz Manata e a artista visual Leliene Rodrigues, que apresenta a exposição Poética do Encontro na abertura da Casa AXIS, no Rio de Janeiro. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Poderia nos adiantar alguns detalhes da exposição Poética do Encontro?

Leliene Rodrigues – Gosto de pensar Poética do Encontro como um convite. A exposição reúne trabalhos produzidos em diferentes momentos da minha trajetória e que compartilham uma mesma investigação: como percebemos a nós mesmos, o outro e o mundo.

As obras abordam temas como memória, pertencimento, liberdade, cuidado e alteridade. Algumas convidam o visitante a participar diretamente; outras pedem apenas tempo, silêncio e disponibilidade para observar. Em todas elas, o encontro acontece na relação que cada pessoa estabelece com a obra, a partir de sua própria experiência.

Chico Vartulli – O que será exposto?

Leliene Rodrigues – A mostra reúne 19 obras, entre fotografias, vídeos, objetos e instalações, produzidas ao longo de aproximadamente 20 anos de pesquisa artística. Embora criadas em momentos distintos, elas dialogam entre si ao investigar temas como pertencimento, memória, liberdade, alteridade e cuidado.

Muitas dessas obras nasceram de experiências pessoais, mas não permanecem no campo autobiográfico. Meu interesse é transformar vivências em questões compartilháveis. Objetos cotidianos, como gaiolas, ninhos, mesas e cadeiras, deixam de cumprir sua função original para abrir espaço a novos significados. Algumas instalações foram concebidas especialmente para a Casa AXIS. A arquitetura da casa também integra a experiência. É um espaço que preserva as marcas do tempo, onde luz, matéria e transformação dialogam naturalmente com as obras. Conviver com essa impermanência tem ampliado meu próprio olhar e atravessado o desenvolvimento da pesquisa.

Há também uma dimensão afetiva muito presente na exposição. Minha família não aparece como personagem, mas como origem dos valores que sustentam meu trabalho: cuidado, pertencimento, acolhimento, liberdade e generosidade. Essas referências permanecem vivas na maneira como compreendo a arte, a saúde e as relações humanas. Acredito que as obras só se completam na presença do outro. Cada visitante chega com sua própria história e é nesse encontro que novos sentidos podem surgir. A curadoria de Franz Manata reforça essa proposta ao conduzir o público por uma experiência em que a arte se torna um exercício de presença, observação e escuta.

Chico Vartulli – Quais são as características do seu fazer artístico?

Leliene Rodrigues – Meu trabalho nasce da observação. Antes de produzir uma obra, costumo passar muito tempo olhando, escutando e convivendo com aquilo que me mobiliza. O silêncio, a contemplação e a presença fazem parte desse processo tanto quanto o desenho, o grafite, a fotografia, o vídeo ou os objetos que construo.

Tenho interesse por objetos relacionais e por trabalhos que convidam o público a participar da experiência. Não penso a participação apenas como interação física, mas como uma disponibilidade para perceber. A obra só se completa quando encontra alguém disposto a habitá-la com seu próprio olhar.

Ao longo dos anos, fui percebendo que minha pesquisa não está centrada em uma linguagem específica, mas em uma pergunta que atravessa tudo o que faço: como ampliar nossa capacidade de perceber? Acredito que muitos encontros transformadores acontecem justamente quando interrompemos o ritmo automático da vida e nos permitimos observar com mais atenção.

Chico Vartulli – Quais são seus projetos futuros?

Leliene Rodrigues – Hoje percebo que tudo o que venho construindo faz parte de uma mesma pesquisa. Meus próximos passos não representam uma mudança de direção, mas o aprofundamento desse percurso.

Quero consolidar a Casa AXIS como um espaço de experiências, onde arte, contemplação, escrita, práticas de atenção e encontros possam dialogar de forma integrada. Da mesma maneira, desejo ampliar o trabalho desenvolvido na Oral Zenit, fortalecendo uma abordagem da saúde que valorize a prevenção, a percepção e o cuidado integral.

Também pretendo organizar esse conhecimento em cursos, livros, palestras e outras experiências formativas. Depois de muitos anos na clínica, na docência e na pesquisa artística, sinto vontade de compartilhar esse percurso de forma mais estruturada. No fundo, todos esses projetos caminham na mesma direção. Continuo interessada em compreender como ciência, arte e atenção consciente podem contribuir para ampliar nossa percepção e, a partir dela, transformar a maneira como cuidamos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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