Meu entrevistado é o ator e diretor Tadeu Aguiar, artista que construiu sua trajetória entre a interpretação e a direção e que mantém, depois de décadas de carreira, a mesma paixão pelo teatro que começou ainda na infância.
Na conversa, Tadeu relembra sua formação, os grandes artistas com quem trabalhou, fala sobre sua relação com os musicais, revela projetos que ainda deseja realizar e conta sobre uma das maiores paixões de sua vida: seus cachorros.
Chico Vartulli – Olá, Tadeu! Qual é o balanço que você faz da sua trajetória como ator e diretor?
Tadeu Aguiar – Eu acho que ser ator foi fundamental para o diretor que me tornei. O palco me ensinou a ouvir, a observar e, principalmente, a entender que teatro se faz junto.
Quando dirijo, nunca esqueço que sou ator e sei o que significa estar do outro lado. Gosto de construir com os artistas, de criar um espaço de confiança e troca.
O balanço que faço é de muita gratidão. Pelos trabalhos, pelos encontros e por tudo que ainda continuo aprendendo. Depois de tantos anos, entro num teatro com a mesma paixão que me fez começar. E acho que isso é o mais importante.
Chico Vartulli – Quando você começou a se interessar pela carreira artística?
Tadeu Aguiar – Ah, desde pequenininho. Eu devia ter uns seis anos. Meu pai tinha um estúdio fotográfico e eu pegava os refletores dele, levava para o fundo de casa e fazia teatrinho. Inventava as histórias, criava as cenas… Então, acho que começou ali, de uma maneira muito espontânea, como uma brincadeira de criança.
Mas o curioso é que essa brincadeira nunca passou. Desde muito pequeno, eu já tinha dentro de mim essa certeza de que, de alguma maneira, eu seria artista. Eu nunca me imaginei fazendo outra coisa.
Depois, claro, a vida foi transformando aquela brincadeira numa profissão, vieram o teatro, os personagens, a direção, os espetáculos, tanta gente que passou pela minha vida… Mas aquele menino de seis anos que pegava os refletores do pai para fazer teatro no fundo de casa continua aqui.
E, quando eu penso que isso começou há mais de 60 anos, é muito emocionante. Porque não foi uma profissão que eu escolhi em determinado momento da vida. De certa forma, foi uma coisa que sempre esteve comigo.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como ator?
Tadeu Aguiar – Minha formação como ator começou na Universidade de São Paulo, onde tive uma base acadêmica muito importante. Mas eu sempre digo que a minha grande escola foi mesmo o palco.
Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de trabalhar com artistas extraordinários como Raul Cortez, Bibi Ferreira, Cleide Yáconis, Jorge Dória, Miriam Mehler, Natália Timberg e Wolf Maya, entre tantos outros. Conviver e estar em cena com esses artistas brilhantes foi uma verdadeira escola. Eu observava muito, ouvia muito e aprendia o tempo todo.
Depois vieram inúmeros espetáculos e também a direção, que ampliou ainda mais o meu olhar sobre o trabalho do ator.
Então, quando me perguntam sobre a minha formação, eu penso que ela é a soma de tudo isso: a Universidade de São Paulo, os quase 50 anos de palco, os grandes artistas com quem trabalhei e cada espetáculo que fiz. E o mais bonito é que essa formação nunca termina. Até hoje continuo aprendendo.
Chico Vartulli – Você tem dirigido e atuado em musicais. Por que o interesse nesse gênero teatral?
Tadeu Aguiar – Eu tenho dirigido muitos espetáculos musicais e acho que o que mais me encanta nesse gênero é justamente a possibilidade de reunir tantas formas de expressão artística dentro de um mesmo espetáculo.
No musical, você tem a interpretação, o canto, a dança, a música, a cenografia, a luz… tudo trabalhando junto para contar uma história. É uma soma de muitas artes.
E eu gosto muito dessa complexidade, porque, para mim, nada pode estar ali gratuitamente. A música precisa continuar aquilo que o ator não consegue mais dizer apenas com as palavras, assim como a dança também precisa contar alguma coisa.
Talvez seja por isso que eu me identifique tanto com o teatro musical: ele me dá a possibilidade de trabalhar com todas essas linguagens ao mesmo tempo, mas sempre colocando o teatro e a emoção em primeiro lugar.
Chico Vartulli – O que mais lhe exige: atuar ou dirigir? Justifique.
Tadeu Aguiar – Acho que dirigir me exige mais. Como ator, eu sou responsável pelo meu personagem, pela minha relação com os outros atores e pela emoção que preciso levar para a plateia. Na direção, eu tenho que olhar para tudo. Tenho que enxergar o ator, a música, a luz, o cenário, o ritmo, o conjunto inteiro.
E talvez, por eu ser ator, eu me envolva muito com quem está no palco. Eu sei o que aquele ator está sentindo, conheço suas inseguranças e procuro ajudá-lo a encontrar o melhor caminho.
Então, dirigir me exige muito porque eu acabo carregando o espetáculo inteiro comigo. Mas atuar me coloca num lugar de exposição e de entrega que a direção não coloca. São exigências diferentes. E acho que uma coisa alimenta profundamente a outra.
Chico Vartulli – Tem algum musical que você tem interesse em realizar e ainda não conseguiu? Caso sim, por que lhe interessa?
Tadeu Aguiar – Tem dois trabalhos que eu gostaria muito de fazer. Um deles é Mack & Mabel, do Jerry Herman. É um musical que conta a história de Mack Sennett, um grande cineasta, e de Mabel Normand, uma atriz do cinema americano. É uma história muito bonita, e eu adoraria interpretar o Mack.
E tem também O Grito dos Anjos, uma peça que eu já fiz três vezes. Eu interpretava o personagem mais jovem e tive o privilégio de contracenar, em diferentes montagens, com Rogério Fróes, Antônio Petrin e Othon Bastos, três atores extraordinários.
Hoje, aos 66 anos, aconteceu uma coisa muito bonita: o tempo me levou para o outro personagem. Agora eu gostaria de voltar à peça para interpretar justamente o papel que eles fizeram. Seria quase como reencontrar a minha própria história no teatro, só que do outro lado.
Chico Vartulli – Você é apaixonado pelos pets. Como é o Tadeu “pai” dos cachorrinhos?
Tadeu Aguiar – Ser pai de pets é uma das coisas mais extraordinárias da minha vida. Eu me emociono com eles o tempo todo. Às vezes, fico olhando enquanto estão dormindo e meus olhos se enchem de lágrimas. Eu oro por eles, esses seres tão indefesos, tão carinhosos, tão honestos, tão gentis, que dependem tanto da gente e, ao mesmo tempo, nos dão tanto amor.
Eu tenho seis cachorros, todos adotados, e eles são a minha família. Cada um tem sua personalidade, seu jeito de pedir carinho, seu jeito de demonstrar amor.
E, de tudo que eu falei aqui hoje — da minha carreira, do teatro, dos espetáculos, de tudo que construí —, se você me perguntar o que é mais importante na minha vida, eu não tenho nenhuma dúvida: são os meus cachorros. Eles são uma parte essencial da minha felicidade.
Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?
Tadeu Aguiar – Eu nunca penso num futuro muito distante. Penso sempre no futuro mais próximo, no que está me mobilizando agora.
Neste momento, meus planos são seguir com a turnê de Diana – A Princesa do Povo, voltar a cartaz com A Cor Púrpura, que é um dos espetáculos mais importantes e mais marcantes da minha carreira, e depois fazer Olga – O Musical, escrito pelo meu marido, Eduardo Bakr.
E temos ainda um novo musical americano que vamos anunciar nos próximos meses. Curiosamente, ele também nasceu de um filme. Tenho feito muitos espetáculos que vieram do cinema, como Ou Tudo ou Nada, Uma Babá Quase Perfeita, Beetlejuice, Mudança de Hábito e Love Story. E agora vem mais um, baseado em um filme muito famoso dos anos 80.
Por enquanto, não posso contar qual é. Mas posso dizer que estou muito feliz e muito entusiasmado com o que vem pela frente. Eu não faço grandes planos para o futuro. Prefiro continuar tendo projetos que me deem vontade de acordar e ir para o teatro.



