No Rio de Janeiro do século XIX, dançar valsa era muito mais do que acompanhar uma música em compasso ternário. Era participar da vida social da cidade. Os bailes aconteciam em diversos lugares, como salões particulares, teatros, clubes e sociedades recreativas, especialmente no Centro do Rio de Janeiro, onde se concentravam os principais espaços de sociabilidade da Corte.

Um dos endereços mais importantes era o Cassino Fluminense, instalado na Rua do Passeio, em frente ao Passeio Público. O prédio, hoje identificado pelo número 90, foi alugado pela sociedade em 1845 e se tornou um dos mais prestigiados salões de baile do Império. Ali ocorreram festas frequentadas pela elite política e social carioca. A importância do lugar aparece também na circulação das músicas. A valsa Os Arreiros de Hespanha, por exemplo, fez bastante sucesso nos bailes do Cassino antes de ser publicada para execução ao piano.
Outro ponto interessante era o Campo de Santana, atual Praça da República. Bem ali funcionou o Teatro Provisório, inaugurado em 1852, e depois rebatizado, em 1854, como Teatro Lírico Fluminense. Criado depois do incêndio do Teatro São Pedro de Alcântara, tornou-se um dos principais espaços de ópera, concertos e grandes companhias de dança da cidade. O teatro permaneceu no Campo de Santana até sua demolição, em 1875.

Havia muitos bailes realizados por sociedades recreativas e musicais. José de Alencar, observador atento da vida carioca, menciona em suas crônicas concertos da Phil’harmonica e bailes de clubes. O autor de O Guarani revelou como essas associações organizavam parte importante do calendário social e cultural da cidade. Mas, em uma passagem bem-humoradam ele reclamou que o Rio “já não sabia dançar”, porque nos bailes se conversava, jogava-se, fumava-se e tratava-se de casamentos mais do que se dançava.

Por outro lado, havia ainda espaços menos aristocráticos, a exemplo do Salão do Caçador, criado em 1859 no Largo de São Domingos, desparecido com a abertura da Avenida Presidente Vargas durante a década de 1940. O local era frequentado pela população mais pobre e marginalizada, bastante diferente daqueles que circulavam nos grandes salões da Rua do Passeio, o que demonstra como a dança se difundiu por toda a sociedade carioca.
Mas boa parte das valsas acontecia dentro das próprias casas. Nos salões particulares, o piano era peça central da sociabilidade. Tocavam-se partituras adquiridas nas lojas do Centro, recebiam-se convidados e organizavam-se saraus e pequenas reuniões dançantes. A valsa era especialmente marcante porque permitia uma proximidade física incomum para a sociedade da época. Os pares dançavam enlaçados, girando pela sala. José de Alencar descreveu esse movimento como uma progressiva aproximação dos corpos, em que a timidez inicial podia dar lugar a uma certa vertigem provocada pela música e pela dança.

Outro dado curioso diz respeito aos locais onde podia-se adquirir as partituras. A Rua dos Ourives concentrava casas de música, litografias e comerciantes ligados ao piano. Naquela rua, funcionava o armazém de pianos e músicas de Raphael Coelho Machado, os sucessores de Pierre Laforge, assim como outros pontos de venda de partituras. A Rua do Ouvidor, por exemplo, integrava esse circuito, com depósitos de pianos e estabelecimentos onde se encontravam publicações musicais. Assim, entre salões, lojas e tipografias, a valsa não era apenas dançada, era impressa, comprada e levada para dentro de muitos lares cariocas.

Assim, o mapa da valsa oitocentista registra boa parte do coração do Centro do Rio, tais como a Rua do Passeio, o Campo de Santana, os clubes do Centro e salões particulares. Aliás, seguir esses endereços pode ser forma curiosa de descobrir uma cidade em que a música, o namoro, a etiqueta e a vida urbana se encontravam no mesmo salão.

Sobre esse assunto, vale a pena a leitura do livro da musicóloga e pesquisadora Martha Tupinambá de Ulhôa, Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo século XIX: de folhetins, música de salão e serestas. Rio de Janeiro: Fólio Digital, 2022.
Crédito das imagens
1. Tito Martins / licença CC BY-SA 3.0 / Wikimedia Commons
2. Pieter Gotfred Bertichen / Coleção Brasiliana Itaú / Brasiliana Iconográfica / domínio público / Wikimedia Commons
3. Arquivo Nacional / domínio público / Wikimedia Commons
4. Alberto Henschel / fonte original indicada: Pedro Karp Vasquez, O Brasil na fotografia oitocentista / domínio público / Wikimedia Commons
5. Anders Zorn / National Gallery of Art / domínio público / Wikimedia Commons
6. Marc Ferrez / Acervo do Instituto Moreira Salles / domínio público / Wikimedia Commons
7. James Stephanoff / domínio público / Wikimedia Commons


