O texto de Estevão Ciavatta Pantoja, com colaborações de Antônio Nobre e Fábio Scarano, Daniela Thomas e Regina Casé, é um monólogo que mistura ficção e realidade; crítico, reflexivo, bem-humorado, preservacionista e contemporâneo; e associa conhecimento científico-tecnológico a saberes dos povos originários e africanos.
Apresenta um resumo sobre a vida no planeta Terra, “pequeno grão de areia”, e a importância que o reino da natureza, com toda a sua potência e diversidade, teve para a sua formação. Clama para que a conexão entre o mundo natural e o homem seja restabelecida, configurando uma relação harmônica, complementar e recíproca, e não destruidora e de exploração irracional dos seres humanos sobre a natureza, como a que impera hoje em dia.
Ademais, mostra que o mundo contemporâneo se tornou tecnológico, hiperconectado, e aponta as consequências desse fato para a vida cotidiana. Celulares, smartphones, redes sociais, entre outros meios, nos colocam em um mundo de mensagens ininterruptas, que se fazem presentes o tempo inteiro. Estamos todos conectados e viciados em WhatsApp e e-mails.
O texto tem a preocupação de sublinhar que é preciso cuidar da Terra, tratá-la com carinho e afeto, sem ser propagandista ou levantar polêmica. Por isso, torna-se necessário refletir, libertar o sentimento e preservar o “pequeno grão de areia”.
Sublinha ainda que a devastação e as queimadas doem demais. É urgente e necessária a proteção dos mananciais, das matas e dos animais. Pois o futuro só virá com mais vigor se nós, seres humanos, tratarmos a Terra com amor. Magnífica mensagem!
A peça teatral é marcada pelo bom humor e pela descontração, misturados à crítica. Logo no início do espetáculo, um aparelho celular começa a tocar e não é atendido. O público começa a ficar incomodado. De repente, uma funcionária do teatro, com quem a atriz deixou a sua bolsa, avisa que é o seu aparelho que está tocando. Regina pede desculpas ao público e informa que é o seu filho. E assim ocorre ao longo do espetáculo, com o celular tocando diversas vezes e, em sua maioria, a atriz atendendo.

A peça sublinha a hiperconectividade do mundo contemporâneo, a intensidade de mensagens que trocamos e a dependência que temos dos modernos meios técnico-científicos. Não conseguimos mais nos desgarrar dos celulares e smartphones. Aonde quer que vamos, eles nos acompanham.
Regina Casé protagoniza o espetáculo com qualidade e comove. É uma encenação concentrada na figura da atriz e na valorização do texto narrado. Ela apresenta uma interpretação refinada, de alta qualidade, e emociona. Domina o texto, transmitindo-o com clareza, bom humor, retórica de primeira qualidade e linguagem acessível. Aliás, o humor atravessa todo o espetáculo.
Ela assume a função de mestra e, sobre um palco de teatro, sublinha a importância de manter em funcionamento a engrenagem da vida na Terra. Domina o palco, com movimentação intensa e dinâmica, apresentando-se de pé, sentada e até deitando-se sobre o palco. Estabelece boa comunicação com o público, interagindo com a plateia o tempo inteiro. Portanto, uma atuação impecável, merecedora de muitos elogios.

A direção de Estevão Ciavatta e Daniela Thomas focou no texto e deixou a atriz à vontade naquela ribalta para realizar sua interpretação de qualidade. E ela soube aproveitar a oportunidade.
O figurino criado por Claudia Kopke é simples e visualmente sem expressividade. O ponto negativo do espetáculo.
A cenografia de Daniela Thomas está associada à apresentação de Regina. Ela é constituída por um telão de LED que projeta imagens relacionadas à narrativa da atriz sobre a vida no planeta Terra. A atriz vai narrando e as imagens são exibidas. Há também rochas ao longo do palco. No centro, há um fio que cai do teto e, pendurada a ele, uma esfera azul que simboliza o “pequeno grão de areia”, o planeta Terra.
A iluminação criada por Beto Bruel é da melhor qualidade. Ela apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação da atriz. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.
A música original criada por Amaro Freitas é funcional e complementa o contexto das cenas.
Viva! Vida! é um monólogo que apresenta um texto com uma mensagem crítica e reflexiva sobre a relação do homem com o planeta Terra; a atriz Regina Casé com uma atuação convincente e comovente; e uma cenografia e iluminação de qualidade e adequadas ao contexto da peça.
Excelente produção cênica!


