Nas colunas anteriores, caminhamos pela Praça XV e vimos como o passado ainda aparece nos espaços do Centro do Rio como uma espécie de fantasmagoria urbana. Algo que está ali presente nas ausências, nos vestígios e nas memórias.
Há poucos minutos a pé da Praça XVI, encontramos outro lugar repleto de histórias: a Cinelândia, nome popular da Praça Marechal Floriano, assim chamada em homenagem ao segundo presidente da República. Antes dos cinemas, dos cafés e dos grandes prédios, a região era ocupada pelo antigo Convento da Ajuda. A demolição no início da década de 1920 permitiu uma mudança radical que mudou a paisagem do Centro carioca.


A ideia partiu do empresário espanhol Francisco Serrador que projetou um centro moderno de entretenimento, inspirado não só nos bulevares das grandes cidades europeias, mas especialmente na Broadway, a mais famosa região dos teatros do mundo, localizada na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos.
Assim nascia o “Quarteirão Serrador”, que reuniu num único espaço cinemas, teatros, hotéis, restaurantes, confeitarias, bombonières, lojas e escritórios. Muitos edifícios ali foram construídos em concreto armado, uma tecnologia ultra-moderna na época, e que ajudavam a mostrar uma cidade que desejava parecer mais moderna e cosmopolita.

Não por acaso, em pouquíssimo tempo, recebeu o apelido de Cinelândia. No auge, funcionaram ali onze cinemas. Ir ao cinema, naquela época, era mais do que assistir a um filme, era uma experiência completa. Envolvia caminhar pela praça, encontrar conhecidos, tomar café, comprar doces e participar da vida social do Centro. Um dos primeiros cinemas do conjunto foi o Cine Capitólio, inaugurado em 23 de maio de 1925. No ano seguinte, numa matéria publicada na revista Cinearte elogiou o espaço, com destaque para “luxo, arte, gosto, conforto e higiene”. As salas eram amplas, iluminadas, ventiladas e ofereciam uma experiência muito diferente dos antigos cinemas populares, que já existiam no Rio de Janeiro. Com o passar o tempo, famílias inteiras passaram a frequentar aquele novo ambiente.
A decoração encantava seus frequentadores, entusiastas dos novos tempos. Escadarias, lustres, foyers e detalhes inspirados nos teatros europeus davam ao público a sensação de estar em um lugar especial. Mesmo assim, os ingressos eram mais acessíveis do que os espetáculos do Theatro Municipal. Por isso, a Cinelândia reunia pessoas de diferentes classes sociais, e criava uma convivência rara em uma cidade marcada historicamente por tantas desigualdades.


Entre as lembranças daquele tempo estava a Bombonière Pathé, inaugurada em 1928. Pequena e elegante, com móveis revestidos de mármore verde, ficou conhecida pelos baleiros e pelas balas de goma coloridas. Para muitos cariocas, ela fazia parte do ritual de ir ao cinema.
Outro prédio de destaque foi o Palácio Monroe. Com sua fachada eclética, ele compunha, ao lado do Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional e da Escola Nacional de Belas Artes, um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do Rio. A imponente construção abrigou a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. A demolição, em 1976, em razão das obras do metrô, ainda é criticada, pois é considerada uma grande perda para o patrimônio carioca.

Mas a Cinelândia nunca foi feita apenas de cinemas e prédios monumentais. Os seus cafés e bares também ajudaram a escrever sua história. O Amarelinho, fundado em 1921 como Café Rivera, ganhou esse nome por causa da cor da fachada. Políticos, jornalistas, artistas e intelectuais, como Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, Mário de Andrade e Joel Silveira, entre tantos outros, eram “frequentadores de carteirinha”.
Ali naquelas mesas se falou sobre arte, literatura e política. Ditadura, redemocratização, Diretas Já, movimento estudantil e Fora Collor eram temas sensíveis que certamente passaram pelas mesas do bar. E, de algum modo, isso tudo ainda ocorre hoje, talvez em menor escala. De certo modo, o Amarelinho acompanhou muitas mudanças do Brasil. Essa mistura entre cultura, poder e vida cotidiana fez da Cinelândia um dos grandes palcos políticos do Rio. Em 1942, recebeu manifestações em apoio à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Depois, foi cenário do movimento “O Petróleo é Nosso”. Em 1968, recebeu a Passeata dos Cem Mil, contra a ditadura militar, após a morte do estudante Edson Luís.


Hoje, quem passa pela Cinelândia talvez observe como uma praça movimentada do Centro. Mas, se olharmos atentamente, é possível perceber que seus prédios, bares, antigos cinemas e monumentos ainda nos revelam muitas histórias. A Cinelândia foi lugar de diversão, encontro, debate e protesto, e também um lugar de memória na história do Rio de Janeiro.
Crédito das imagens
1. Halley Pacheco de Oliveira. Fonte: Wikimedia Commons.
2. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.
3. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.
4. Arquivo Nacional. Fonte: Wikimedia Commons.
5. Mircezar. Fonte: Wikimedia Commons.
6. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
7. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
8. Brasiliana Fotográfica. Fonte: Wikimedia Commons.
9. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.


