Nas colunas anteriores, caminhamos pela Praça XV e vimos como o passado ainda aparece nos espaços do Centro do Rio como uma espécie de fantasmagoria urbana. Algo que está ali presente nas ausências, nos vestígios e nas memórias.

Há poucos minutos a pé da Praça XVI, encontramos outro lugar repleto de histórias: a Cinelândia, nome popular da Praça Marechal Floriano, assim chamada em homenagem ao segundo presidente da República. Antes dos cinemas, dos cafés e dos grandes prédios, a região era ocupada pelo antigo Convento da Ajuda. A demolição no início da década de 1920 permitiu uma mudança radical que mudou a paisagem do Centro carioca.

Convento da Ajuda, em 1911, construção que ocupava a região antes das transformações urbanas que deram origem à Cinelândia moderna. — Fonte: Wikimedia Commons²
Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, em 1912, eixo urbano que ajudou a consolidar a imagem moderna do Centro do Rio. — Fonte: Autor desconhecido / Wikimedia Commons³

A ideia partiu do empresário espanhol Francisco Serrador que projetou um centro moderno de entretenimento, inspirado não só nos bulevares das grandes cidades europeias, mas especialmente na Broadway, a mais famosa região dos teatros do mundo, localizada na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Assim nascia o “Quarteirão Serrador”, que reuniu num único espaço cinemas, teatros, hotéis, restaurantes, confeitarias, bombonières, lojas e escritórios. Muitos edifícios ali foram construídos em concreto armado, uma tecnologia ultra-moderna na época, e que ajudavam a mostrar uma cidade que desejava parecer mais moderna e cosmopolita.

Francisco Serrador, empresário espanhol que idealizou o Quarteirão Serrador e impulsionou a transformação da Praça Floriano na futura Cinelândia. — Fonte: Wikimedia Commons⁴

Não por acaso, em pouquíssimo tempo, recebeu o apelido de Cinelândia. No auge, funcionaram ali onze cinemas. Ir ao cinema, naquela época, era mais do que assistir a um filme, era uma experiência completa. Envolvia caminhar pela praça, encontrar conhecidos, tomar café, comprar doces e participar da vida social do Centro. Um dos primeiros cinemas do conjunto foi o Cine Capitólio, inaugurado em 23 de maio de 1925. No ano seguinte, numa matéria publicada na revista Cinearte elogiou o espaço, com destaque para “luxo, arte, gosto, conforto e higiene”. As salas eram amplas, iluminadas, ventiladas e ofereciam uma experiência muito diferente dos antigos cinemas populares, que já existiam no Rio de Janeiro. Com o passar o tempo, famílias inteiras passaram a frequentar aquele novo ambiente.

A decoração encantava seus frequentadores, entusiastas dos novos tempos. Escadarias, lustres, foyers e detalhes inspirados nos teatros europeus davam ao público a sensação de estar em um lugar especial. Mesmo assim, os ingressos eram mais acessíveis do que os espetáculos do Theatro Municipal. Por isso, a Cinelândia reunia pessoas de diferentes classes sociais, e criava uma convivência rara em uma cidade marcada historicamente por tantas desigualdades.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro, inaugurado em 1909, um dos principais marcos arquitetônicos e culturais da Cinelândia. — Fonte: Mircezar / Wikimedia Commons⁵
Praça Marechal Floriano, entre 1917 a 1923, em registro histórico do Acervo do Instituto Moreira Salles, com o Theatro Municipal e a monumentalidade arquitetônica da Cinelândia em destaque. — Fonte: Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons⁶

Entre as lembranças daquele tempo estava a Bombonière Pathé, inaugurada em 1928. Pequena e elegante, com móveis revestidos de mármore verde, ficou conhecida pelos baleiros e pelas balas de goma coloridas. Para muitos cariocas, ela fazia parte do ritual de ir ao cinema.

Outro prédio de destaque foi o Palácio Monroe. Com sua fachada eclética, ele compunha, ao lado do Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional e da Escola Nacional de Belas Artes, um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do Rio. A imponente construção abrigou a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. A demolição, em 1976, em razão das obras do metrô, ainda é criticada, pois é considerada uma grande perda para o patrimônio carioca.

Palácio Monroe, um dos edifícios mais emblemáticos da antiga Cinelândia, demolido em 1976, em registro do Acervo do Instituto Moreira Salles. — Fonte: Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles⁷

Mas a Cinelândia nunca foi feita apenas de cinemas e prédios monumentais. Os seus cafés e bares também ajudaram a escrever sua história. O Amarelinho, fundado em 1921 como Café Rivera, ganhou esse nome por causa da cor da fachada.  Políticos, jornalistas, artistas e intelectuais, como Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, Mário de Andrade e Joel Silveira, entre tantos outros, eram “frequentadores de carteirinha”.

Ali naquelas mesas se falou sobre arte, literatura e política. Ditadura, redemocratização, Diretas Já, movimento estudantil e Fora Collor eram temas sensíveis que certamente passaram pelas mesas do bar. E, de algum modo, isso tudo ainda ocorre hoje, talvez em menor escala. De certo modo, o Amarelinho acompanhou muitas mudanças do Brasil. Essa mistura entre cultura, poder e vida cotidiana fez da Cinelândia um dos grandes palcos políticos do Rio. Em 1942, recebeu manifestações em apoio à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Depois, foi cenário do movimento “O Petróleo é Nosso”. Em 1968, recebeu a Passeata dos Cem Mil, contra a ditadura militar, após a morte do estudante Edson Luís.

Cinelândia em registro histórico de Augusto Malta, com a Praça Floriano e seus edifícios monumentais como cenário da vida urbana carioca. — Fonte: Augusto Malta / Brasiliana Fotográfica / Fundação Biblioteca Nacional⁸
Restaurante Amarelinho, na Cinelândia, tradicional ponto de encontro de políticos, jornalistas, artistas e intelectuais no Rio de Janeiro. — Fonte: Wikimedia Commons⁹

Hoje, quem passa pela Cinelândia talvez observe como uma praça movimentada do Centro. Mas, se olharmos atentamente, é possível perceber que seus prédios, bares, antigos cinemas e monumentos ainda nos revelam muitas histórias. A Cinelândia foi lugar de diversão, encontro, debate e protesto, e também um lugar de memória na história do Rio de Janeiro.


Crédito das imagens

1. Halley Pacheco de Oliveira. Fonte: Wikimedia Commons.
2. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.
3. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.
4. Arquivo Nacional. Fonte: Wikimedia Commons.
5. Mircezar. Fonte: Wikimedia Commons.
6. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
7. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
8. Brasiliana Fotográfica. Fonte: Wikimedia Commons.
9. Autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons.

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Luciene Carris é colunista da Revista Vislun, doutora em História pela UERJ e pesquisadora da história do Rio de Janeiro. Seus textos conectam passado e presente com linguagem acessível e olhar crítico sobre a formação da cidade.

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