O texto de Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Quitéria Kelly é ficcional; crítico; reflexivo; satírico; irônico; irreverente; de humor ácido; mescla momentos de humor com outros de tensão; projeta-se para o futuro; é distópico; problematiza, no presente, os comportamentos da classe média brasileira e suas contradições; valoriza o universo feminino; contemporâneo.
O texto se passa no futuro, no ano de 2040, para refletir, no presente, sobre a classe média brasileira — retrógrada, conservadora e contraditória —, que afirma compartilhar determinados valores democráticos, mas, na prática, realiza o oposto daquilo que defende. A narrativa reflete sobre o tempo presente e sobre as agitações e os conflitos sociais pelos quais passa nossa sociedade. Alerta para que corrijamos nossos equívocos no momento atual, a fim de que não continuemos cometendo-os daqui a quinze anos.
O elenco é integrado por Rafa Guedes, Thuyza Fagundes e Carol Cantídio. Os artistas estão unidos, entrosados e afinados. Apresentam interpretações refinadas, divertidas e cômicas. Representam uma típica família de classe média, enclausurada no condomínio de luxo Nova Canaã, cercado por muros e marcado pelo máximo conforto, deixando transparecer seus moralismos, medos sociais e preconceitos.
Dominam o texto, apresentando-o de forma leve e descontraída, com linguagem acessível, bom humor e boa retórica. Dominam o palco, movimentando-se intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem boa comunicação com o público. Portanto, realizam uma apresentação divertida e merecedora de elogios.
A direção de Quitéria Kelly é criativa e irreverente, com marcações precisas que tornam o texto dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Virginia Borges são simples, monocromáticos, na cor branca, e adequados à proposta do espetáculo.
A cenografia criada por Manar Zind apresenta um ar futurista e clean. É bem planejada, adequada e distribui os elementos cenográficos de forma equilibrada pelo palco, explorando formas geométricas. Observamos três estruturas móveis que se encaixam, além de uma tela. Nesses elementos, há a reprodução de projeções mapeadas que auxiliam na construção da narrativa.
A iluminação criada por David Costa apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas. Ademais, há a utilização de efeitos especiais, como a fumaça, que incrementam ainda mais as cenas.
A direção de movimento é de Ana Cláudia Viana, que imprimiu coreografias, performances e poses adequadas às cenas do espetáculo, conferindo dinamismo e movimentação intensa ao elenco.
A trilha sonora de Ian Medeiros é funcional e auxilia na construção da narrativa.
Gente de Classe apresenta um texto crítico que reflete, de forma irônica e satírica, sobre os problemas e as contradições da classe média brasileira; um elenco com atuações comoventes, divertidas e bem-humoradas; e uma cenografia criativa e limpa.
Excelente produção cênica!


