Nesta entrevista, o diplomata David Silveira da Mota Neto revisita uma trajetória profundamente marcada pela convivência com diferentes culturas, idiomas e realidades políticas ao redor do mundo. Filho de diplomata, sua formação foi construída entre continentes, passando por países como França, África do Sul, Argélia, Reino Unido e Estados Unidos. Ao longo da conversa, ele aborda desde suas primeiras experiências ainda na infância até os desafios e aprendizados da carreira diplomática. Também reflete sobre o funcionamento do Instituto Rio Branco, as dinâmicas internas da profissão e a influência política nas promoções. Com um olhar crítico e sensível, compartilha recomendações para futuros diplomatas, destacando a importância da adaptação, da tolerância e da compreensão humana no exercício da função.


Chico Vartulli – Como a diplomacia faz parte de sua vida?

David Mota – A diplomacia faz parte intrínseca de minha existência. Como filho de diplomata, um ano apenas após nascer no Rio de Janeiro, em 7 de fevereiro de 1960, embarquei com meus pais e minha irmã Laura rumo a Paris e, depois, Genebra, somente retornando ao Brasil em 1967.

Frequentei, portanto, desde a infância, estabelecimentos de ensino de língua francesa, que aprendi a dominar antes mesmo que a língua portuguesa. O uso da língua portuguesa era limitado ao meu ambiente familiar e, por isso, meu conhecimento do idioma era basicamente fonético.

Ao voltar ao Rio de Janeiro, frequentei o Liceu Franco-Brasileiro, o qual, naquela época, possuía uma seção dedicada ao ensino de cada um dos idiomas. Foi lá que encerrei meus anos de estudo no primário do sistema francês de ensino.

Em 1970, interrompi meu primeiro ano do ginásio no Liceu Franco-Brasileiro, que retomei na École Bilingue de Paris, para onde minha mãe, minha irmã e eu fomos provisoriamente instalados durante a participação de meu pai na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, junto à qual ele já fora acreditado na década dos anos 50, antes, portanto, do meu nascimento.

Em 1971, meu pai assumiu a chefia da Legação do Brasil junto à República Sul-Africana, então liderada pelo Partido Nacional, que havia instaurado, nos anos do pós-guerra, o regime de discriminação racial denominado Apartheid.

Guardo recordações memoráveis da minha estada de um ano e meio naquele belo país, onde frequentei a escola inglesa e aprendi a dominar o idioma inglês. Foi durante passeios pelos Parques Nacionais Kruger Park e Lions’ Park que conheci de perto a fauna e a flora da savana africana, que já me fascinavam desde a idade de 8 anos.

Foi também na África do Sul dos anos 70 que pude presenciar, com meus olhos inocentes, as primeiras cenas de discriminação oficial e ostensiva contra as populações de origem africana e asiática. Cheguei a testemunhar, em plena luz do dia, no centro da Cidade do Cabo, cenas de violência policial contra aqueles que eram eufemisticamente denominados “não-europeus”.

Aos doze anos, meu pai foi nomeado embaixador em Argel, para onde fui viver em companhia de minha mãe.

No espaço de dois anos, minha família mudou-se do extremo sul ao extremo norte do continente africano. Passei cinco anos de ricas experiências na Argélia, belo país de costas mediterrâneas adornadas por ruínas romanas, uma bela vegetação e, ao fundo, a cadeia de montanhas Atlas, da Era Terciária, portanto de perfil topográfico análogo à cadeia de montanhas alpinas, do outro lado do Mar Mediterrâneo.

Atrás das montanhas do Atlas, após o planalto dos Aurès, surge o deserto do Saara com sua imensidão fascinante, de dunas ondulantes e sob um céu límpido, cuja luminosidade, variável ao longo do dia, altera o colorido da areia desértica.

Foram cinco anos enriquecedores, onde concluí meus estudos ginasiais no sistema de ensino francês — a Argélia fora colonizada pela França durante cento e trinta anos e, uma década antes de nossa chegada, tornara-se independente após sangrenta guerra de libertação. O francês tornara-se, portanto, o segundo idioma mais utilizado no país, depois do árabe.

Aos dezessete anos, uma vez aprovado pelo « baccalauréat » (versão francesa do vestibular), orientei-me para cursar a prestigiosa Escola de Ciências Políticas de Paris (a chamada “Sciences-Po”), mas meu pai achou por bem que eu voltasse ao Brasil.

Não foi fácil, àquela altura, mudar completamente de ambiente cultural, mas era, na visão do meu pai, uma maneira de aprofundar meus conhecimentos, ainda superficiais, da língua e da realidade brasileira.

Deixei minhas ambições acadêmicas e minhas raízes culturais de lado e voltei ao Rio de Janeiro. Nas palavras de Cazuza, que se tornou posteriormente um amigo, “eu, que tinha apenas dezessete anos, baixava a cabeça pra tudo, fazia o que era para acontecer”.

Assumi, no Rio, meu lado essencialmente bicultural e mergulhei fundo na minha identidade carioca, da qual sou muito orgulhoso. Aprendi que não perdia nada ao mudar de rumo de vida, apenas explorava novos caminhos, que eram complementares e não mutuamente excludentes.

Foram, sem dúvida, anos formadores de quem sou até hoje, uma pessoa forjada pela diversidade, pela tolerância, pela atração pelo desconhecido e pela marginalidade, pelo rechaço às convenções, ao conformismo burguês, à hipocrisia social, à discriminação racial e homofóbica e à desigualdade social que maculam o Brasil.

Após quatro anos de Direito, que foram irrelevantes para mim, pois não acreditava, em plena vigência da ditadura militar, nos princípios, nas normas e nas regras que compunham o ordenamento jurídico brasileiro, o qual considerava obsoleto em relação aos regimes democráticos dos países desenvolvidos.

Foi então que surgiu a possibilidade de ingressar na carreira diplomática, com a qual me identificava, pois já era, antes da palavra ser cunhada, uma pessoa globalizada. A carreira diplomática requer de seus integrantes uma abertura de visão, uma perspectiva global dos problemas que afetam nosso país e nosso planeta.

Senti-me acolhido por colegas mais antigos que conheciam, pessoalmente ou por reputação, meu pai.

Se, por um lado, meu sobrenome abriu-me portas, por outro, expôs-me mais ao julgamento de terceiros do que a maioria de meus colegas recém-formados. E eu mal suportava a cidade de Brasília, fugindo ao Rio de Janeiro sempre que podia. Três anos e meio depois de haver chegado, diplomata recém-formado, pedi remoção para a Embaixada no Cairo, onde fui muito feliz. A arqueologia sempre havia-me fascinado, desde a leitura dos livros de Tintim.

De lá para cá, minha vida caracterizou-se por outra sucessão de designações de postos (Embaixadas e Consulados) no exterior, intercalados por sofridas temporadas em Brasília.

Estendi-me talvez um pouco demais sobre dados de minha biografia, mas o fiz com o propósito de ilustrar como a carreira diplomática havia influenciado minha vida pessoal — praticamente em todos os aspectos.

Até mesmo o fato de meu casamento com uma cidadã colombiana e do nascimento de meus dois filhos terem ocorrido em Londres, quando lá estava desempenhando atividades consulares, já é um exemplo ilustrativo, bem como o fato de ter seguido os sistemas de ensino francês e inglês durante minha infância e adolescência.

Meu interesse, desde cedo, por ciências políticas e relações internacionais foi em muito influenciado pela educação de meu pai, experiente diplomata do Serviço Exterior Brasileiro. O contínuo acesso, desde cedo também, ao mundo diplomático iniciaram-me em um ambiente social bastante particular. Meu contato com a diversidade das culturas, tradições e religiões existentes nos países que percorri contribuiu significativamente para o desenvolvimento de minha visão abrangente do mundo.

David Silveira Admirando a vista da Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Chico Vartulli – Quais os principais postos que lhe marcaram?

David Mota – Guardo boas lembranças de todos os países onde morei, seja como diplomata, seja como filho de diplomata.

Não posso deixar, no entanto, de dar um lugar de destaque à França, que me legou sua vasta cultura e toda minha formação acadêmica até chegar ao ensino superior.

Em segundo lugar, indicaria o Reino Unido, pois foi o país onde casei e tive filhos, e de cuja vasta cultura desfrutei, além de uma experiência acadêmica na London School of Economics, além da experiência profissional.

Minha experiência de vida na Califórnia foi marcante também. Fui chefe do Escritório Comercial do Consulado-Geral em Los Angeles, o que me permitiu conhecer de perto os diversos polos de atividade comercial e acadêmica da Califórnia meridional.

A pujança econômica da Califórnia é tamanha que, por si só, o estado norte-americano ostenta o sexto PIB do planeta. A vida cultural de Los Angeles, em todos os setores da criação e atividade artística, é uma referência única no planeta. Tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional, foi, portanto, uma rica experiência de vida.

Portugal foi outro posto marcante para mim, pelos fortes laços históricos, econômicos e culturais que unem os dois países. Fui chefe do Setor de Promoção Comercial da Embaixada em Lisboa, numa época em que a crise econômica e financeira global, deflagrada em 2008, ainda causava estragos internacionais significativos, sobretudo na União Europeia.

O Brasil, com o qual Portugal celebrara importantes acordos e instrumentos de cooperação bilaterais, figurava como importante parceiro para alavancar investimentos empresariais entre os dois países.

A EMBRAER, por exemplo, inaugurou, em 2012, em Évora, no Alentejo, complexo de fábricas de montagem de aviões de treinamento e combate Tucano e de transporte de tropas KC130, destinados ao mercado europeu e internacional.

Portugal é um país abençoado por Deus, a exemplo do Brasil. A luminosidade e a beleza de suas paisagens, a riqueza de seu patrimônio histórico — em virtude de constituir o país europeu que manteve praticamente a mesma superfície territorial há mais tempo — em muito contribuíram para dotá-lo de um patrimônio cultural singular.

A delimitação de suas fronteiras data de 1242, com a expulsão dos ocupantes mouros.

Poderia citar vários outros postos que tiveram impacto significativo em minha vida pessoal e profissional, mas a lista seria longa…

Chico Vartulli – Tem lembranças importantes de quando acompanhou seu pai como embaixador?

David Mota – Sem dúvida!

Por exemplo, os dias em que via meu pai prestes a embarcar, às vezes vestido de fraque, no automóvel que o Protocolo disponibiliza para que os embaixadores apresentem credenciais ao chefe de Estado anfitrião, com escolta de motociclistas devidamente uniformizados para a ocasião.

Participar de recepções oficiais oferecidas por meus pais na residência oficial da Embaixada, muitas delas por ocasião da comemoração da data nacional.

Outro exemplo foi acompanhar meus pais às festividades de comemoração da data nacional do Luxemburgo, Estado junto ao qual meu pai, enquanto embaixador junto ao Reino da Bélgica, também era acreditado (a chamada acreditação cumulativa).

A data nacional, a exemplo de outras monarquias europeias, coincide com a data de aniversário do Grão-Duque, celebração que dura dois dias, num magnífico cenário natural e arquitetônico, em parte medieval, e em meio a coloridas decorações festivas, ainda mais reluzentes na estação da primavera.

David Saindo da Royal Academy of Arts, em Londres.

Chico Vartulli – Como avalia a formação do Instituto Rio Branco?

David Mota – O Instituto Rio Branco cumpre papel fundamental na formação do diplomata brasileiro. Vem se aperfeiçoando ao longo do tempo, possui hoje sede própria, independente da sede do Ministério, porém situada nas proximidades.

O auditório das novas instalações permite a realização de debates fecundos sobre diferentes aspectos das relações internacionais, abordando temas da agenda da atualidade, descrevendo a inserção do Brasil no cenário mundial, com a participação de especialistas brasileiros e estrangeiros.

São dois anos de formação acadêmica e profissional, o que garante ao formando equivalência com cursos de pós-graduação.

O Instituto organiza, ademais, estágios em postos no exterior, em sua maioria nos países da América Latina e Caribe, por durações que podem variar em função das turmas, mas, no meu caso, naquele ano, foi de 45 dias, na Embaixada do Brasil em Lima. Foi uma das experiências mais proveitosas que poderia imaginar.

Chico Vartulli – É fácil viver em países com cultura tão diferente com a sua família enquanto diplomata?

David Mota – Minha experiência foi, em grande parte, beneficiada pelo fato de ter morado, desde criança, em países estrangeiros, com culturas diferentes.

Fui educado em idiomas diversos (francês e inglês), aprendi o espanhol morando em países que o praticam como idioma oficial e o alemão durante meus anos de formação acadêmica, tendo a oportunidade posterior de praticar o idioma a passeio ou a trabalho.

Também, em virtude de minha vivência desde cedo em terras estrangeiras, tive contato com religiões distintas, com histórias diferentes e realidades socioculturais díspares.

Por essa razão, tive condições propícias à adaptação a países com culturas exógenas, podendo também contribuir para que os demais integrantes da minha família compartilhassem minha capacidade de adaptação. O diplomata é, por natureza ou necessidade, uma pessoa global.

Chico Vartulli – As promoções na carreira têm influência política?

David Mota – As promoções de funcionários da carreira diplomática, como em toda instituição pública, podem beneficiar-se de influência política externa, mas são casos isolados.

As promoções (e remoções) beneficiam-se, sobretudo, da competência profissional, da proximidade dos funcionários junto a determinadas chefias da “Casa” (como é apelidado internamente o Itamaraty), da influência dos diplomatas ou de seus familiares junto às esferas de poder ou da administração do Ministério.

Chico Vartulli – Que recomendações deixa para futuros diplomatas?

David Mota – Recomendo uma boa capacidade de adaptação a países e culturas diferentes, um agudo discernimento da psicologia, da personalidade, da vaidade e da história pessoal dos diplomatas exercendo cargos de chefia.

Sobretudo no exterior, as especificidades de caráter e as características pessoais de um chefe de posto, nesse sentido, podem pesar mais do que os atrativos da vida local.

Essa característica é ainda mais flagrante nos postos pequenos, com lotações reduzidas de funcionários e onde incidem condições de vida difíceis.

Existem casos de desavenças entre funcionários e de incompatibilidades entre chefes e seus subordinados que podem adquirir dimensões desproporcionais, devido a idiossincrasias pessoais.

Muitas injustiças, assédios e perseguições já ocorreram e continuam ocorrendo ao longo da história do Itamaraty.

Para resumir, além das qualificações acadêmicas e profissionais, recomendaria aos candidatos à carreira diplomática seguir os seguintes traços de comportamento:

⁃ resiliência;
⁃ humildade;
⁃ paciência;
⁃ sensibilidade;
⁃ paciência;
⁃ tolerância.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação 

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Coluna comandada por Chico Vartulli, Vivências internacionais trazem uma série de entrevistas com personalidades onde falam sobre suas experiências e curiosidades no exterior sobre cultura, arte e diversão.

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