Há artistas que não apenas escrevem o humor de uma época, eles ajudam a definir o modo como o país ri de si mesmo. Pensar em Gugu Olimecha é pensar numa linhagem de autores que compreenderam o teatro popular como espelho do cotidiano brasileiro, mas também como trincheira de liberdade. E talvez seja justamente por isso que sua obra continue pulsando com tanta força, mesmo anos após sua partida.
A decisão do Teatro Rival Petrobras de revisitar sua comédia “As Loucas de Copacabana”recoloca a obra de Gugu Olimecha no centro de uma discussão importante sobre memória cultural e permanência do teatro popular brasileiro. Afinal, o Rival foi um dos territórios mais importantes da trajetória de Gugu. Nos anos 1980, aquele palco da Cinelândia recebeu montagens de teatro de revista de autoria de Olimecha que carregavam sua assinatura irreverente, debochada e profundamente carioca. Não eram apenas peças: eram acontecimentos culturais.
Quem viveu aquele período conta que havia algo elétrico nas criações de Gugu Olimecha. O humor vinha acompanhado de música, crítica social, exagero cênico e um senso popular único. Seus espetáculos conversavam com o público sem qualquer distanciamento intelectual. O riso nascia da identificação imediata da política, da malandragem, das transformações urbanas, dos costumes e contradições do país.
Seu trabalho no teatro de revista consolidou uma assinatura muito própria. Espetáculos como O Rio de Cabo a Rabo, O Último dos Nukupyrus e A Tocha na América transformaram-se em marcos de uma cena que misturava crítica política, comicidade popular e musicalidade. Em cena, passaram nomes inesquecíveis como Elke Maravilha, Jalusa Barcelos, Marco Miranda, Marta Anderson, Ilva Niño, Nedira Campos, Olney Cazarré, Rosana Garcia, Silva Filho, Nizo Neto, Djenane Machado, Nádia Carvalho, Paulo Celestino Filho, Silvio Fróes, Brigitte Blair, Leda Borges e Ettore Zuim, entre muitos outros artistas que ajudaram a construir uma era vibrante nos palcos cariocas.
O movimento conduzido pelo Teatro Rival Petrobras evidencia também como a preservação da memória do teatro de revista e de seus autores ainda depende de iniciativas que mantenham essas trajetórias em circulação dentro da cena cultural.

Filho de tradicional família circense, nascido como Edson Jarbas Olimecha em 20 de julho de 1942, Gugu começou cedo no Circo Olimecha, pertencente ao pai. Talvez venha daí sua compreensão tão orgânica da comunicação direta com o público. O circo ensinou ao futuro dramaturgo aquilo que nenhuma teoria acadêmica consegue reproduzir: a percepção exata do instante em que a plateia entrega o riso — ou o nega.
E pensar que Gugu Olimecha ainda produziu – e muito – para a televisão… Escreveu para alguns dos programas humorísticos mais populares do país. Na TV Globo contribuiu para atrações que marcaram gerações, como Sai de Baixo, Zorra Total, Escolinha do Professor Raimundo, Chico Anysio Show e Os Trapalhões. Há uma geração inteira que talvez nunca tenha ouvido seu nome diretamente, mas cresceu assistindo ao humor que ele ajudou a escrever.
E isso diz muito sobre o apagamento frequente dos autores de comédia no Brasil. Dramaturgos do riso raramente recebem o mesmo reconhecimento destinado a outros autores. Como se fazer rir fosse tarefa menor. Não é. Talvez seja uma das mais difíceis. Porque o humor exige inteligência imediata, sensibilidade social e capacidade de captar o espírito do tempo antes mesmo que ele seja plenamente compreendido. Gugu Olimecha tinha isso.
Seu último trabalho, na redação do Zorra Total entre 2011 e 2014, encerrou uma trajetória que atravessou décadas sem perder relevância. E talvez o mais bonito nessa homenagem do Rival seja justamente perceber que sua memória permanece em circulação. Não como peça de museu, mas como linguagem viva.
Num tempo em que o humor muitas vezes parece refém do algoritmo, revisitar Gugu Olimecha é lembrar de um teatro que lotava salas porque falava diretamente ao povo, sem abrir mão da inteligência crítica. Um teatro que ria do país para compreender melhor suas dores e contradições.
No fundo, Gugu Olimecha fez do riso um documento de época. E poucos autores conseguem deixar uma herança tão profundamente carioca — e tão brasileira — quanto a dele.
Referência
Espetáculo “As Loucas de Copacabana” — Gugu Olimecha


