Com uma trajetória consolidada nas artes cênicas, Samir Murad (@samirmurad.ator) pertence a um grupo de artistas que construiu sua carreira a partir da pesquisa continuada, da investigação de linguagem e do aprofundamento técnico do ofício teatral. Ao longo dos anos, o ator desenvolveu um trabalho autoral marcado pela experimentação cênica, pelo estudo do corpo como ferramenta dramatúrgica e pela busca de processos criativos que unem tradição, filosofia e diferentes referências culturais. Mais do que interpretar personagens, Samir investe em criações que nascem de longos períodos de estudo e elaboração artística, transformando o palco em espaço de reflexão, experiência estética e provocação sensível.
Em plena atividade, Samir tem levado seus espetáculos solo que trazem para o público mitos como Antonin Artaud em “Para acabar de vez com o julgamento de Antonin”, Édipo em “Édipo e seus duplos – ou porque dois é igual a três”, Padre Cícero em “Cícero – a anarquia de um corpo santo” e o caixeiro viajante de “O cachorro que se recusou a morrer”. No audiovisual também está presente. Recentemente atuou na novela “A Nobreza do Amor” (TV GLOBO) em participação que em breve estará no ar, além do papel de Dr. Silvério, o advogado que viveu na novela “Terra e Paixão” (TV Globo).


Mas é no palco do teatro que surge mais uma oportunidade de ver o talento de Samir Murad de perto em junho. O solo “Cícero – A Anarquia de um Corpo Santo” volta em cartaz em junho no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). O espetáculo transforma a trajetória do Padre Cícero em uma investigação cênica sobre poder, espiritualidade e memória.
Na entrevista a seguir, Samir Murad fala sobre seu solo de teatro físico inspirado em referências como Antonin Artaud e o Butoh japonês, costurando elementos do cordel, do cangaço e da cultura nordestina a uma estética experimental e profundamente sensorial. O resultado é uma experiência teatral que ultrapassa a narrativa biográfica para provocar reflexões sobre o Brasil contemporâneo e os cruzamentos cada vez mais intensos entre religião e política. Acompanhe a conversa.

Rodolfo Abreu: Sua peça “Cícero – a anarquia de um corpo santo” coloca o personagem entre a vida e a morte para contar sua história. De onde partiu essa escolha dramatúrgica?
Samir Murad: Essa escolha partiu de um elemento conceitual, que foi o Livro Tibetano dos Mortos, que foi um livro que o Antonin Artaud leu e achou que poderia ser um elemento extremamente aproveitado em termos teatrais, tanto conceitualmente para o ator quanto em termos estéticos.
Eu descobri que esse momento do desencarne, nesse livro, funciona como se a pessoa que morre estivesse vendo um filme onde toda a sua vida passa diante dela. Eu me vali desse elemento e pensei que seria uma ótima maneira para que o Cícero pudesse contar fatos e histórias ao espectador, relembrando episódios significativos da sua trajetória e refletindo sobre seus acertos, erros e questionamentos. Revendo sua vida desde a infância até o momento da morte. Esse foi o ponto de partida. Nesse percurso pelo próprio passado, ele encontra figuras fundamentais como a Beata Maria, Lampião, Floro Bartolomeu e José Marrocos, personagens decisivos para a construção do mito do Padre Cícero.
A peça também traz a questão do milagre não como uma verdade pronta, mas como algo a ser pensado e questionado. Hoje as pessoas recebem muita informação sem refletir sobre ela. Então, o espetáculo propõe justamente isso: um teatro que faz perguntas, que provoca reflexão e emoção ao mesmo tempo.

Rodolfo Abreu: O espetáculo utiliza fortemente o teatro físico. Como é o desafio de construir essa narrativa através do corpo?
Samir Murad: Esse trabalho de pesquisa tem Antonin Artaud como referência principal e vai muito para o teatro físico. Em ‘Cícero’, especificamente, eu trabalho bastante com uma dança-teatro chamada Butoh, inspirada no teatro japonês.
Originalmente, o Butoh não utiliza texto, é somente movimento. Eu fiz uma adaptação e uso os movimentos junto com a palavra. O espetáculo estreou em 2019 e, para mim, continua sendo um grande desafio físico porque é um trabalho muito exaustivo. Vou me preparando e me adaptando a cada nova temporada. Já se passaram sete anos desde a estreia e seguimos fazendo o espetáculo.
É um trabalho muito original do ponto de vista estético, musical e performático. O público entende um pouco mais da história desse homem que revisita sua própria vida e seu passado, enquanto trabalhamos conceitos orientalistas, transcendência e espiritualidade, ao mesmo tempo em que discutimos religião e política. Parece muita coisa, mas em uma hora de espetáculo o público consegue atravessar tudo isso.

Rodolfo Abreu: A trilha sonora do espetáculo também cria um diálogo entre culturas. Como foi construída essa pesquisa musical?
Samir Murad: Nessa pesquisa fiz link entre o Nordeste e o Oriente em termos musicais. Esse diálogo já existia, não fui eu que criei. Muitos ritmos nordestinos foram inspirados em músicas orientais.
A trilha sonora passeia por registros que vão da música nordestina a sonoridades de vários países do Oriente. Essa mistura criou uma atmosfera musical bastante curiosa, complexa e interessante de ouvir.
É uma trilha que provoca emoções muito difusas e diferentes sensações no espectador. Ela ajuda a construir esse universo ritualístico e mítico do espetáculo. Então, quem vier assistir também vai embarcar nessa experiência sonora.



