Ao longo de uma carreira construída em diferentes continentes, Mathieu Seigle fez da hotelaria uma linguagem universal. Com passagens pela Europa, Ásia e América Latina, o executivo desenvolveu uma visão de liderança baseada no respeito às culturas, na valorização das pessoas e na busca permanente pela excelência. Nesta entrevista exclusiva ao colunista Chico Vartulli, ele relembra sua trajetória internacional, fala sobre os desafios de viver em diferentes países, a influência da diversidade em sua vida pessoal e profissional e comenta sua atual missão à frente do Fairmont Rio de Janeiro Copacabana.

Chico Vartulli – Como nasceu seu amor pela hotelaria?

Mathieu Seigle – A hotelaria faz parte da minha vida desde muito cedo. Meu pai também construiu sua carreira nesse setor, e algumas das minhas primeiras lembranças de infância são dentro de hotéis. Enquanto muitas crianças viam um hotel apenas como um lugar para dormir, eu enxergava um espaço onde histórias aconteciam.

Foi ali que percebi que um hotel vai muito além de um edifício: é um lugar onde as pessoas celebram momentos importantes, criam memórias e vivem experiências que podem marcar suas vidas. Acho fascinante trabalhar em uma profissão cujo propósito é cuidar das pessoas.

Depois vieram os estudos em Hotelaria e Negócios Internacionais, concluídos com dupla diplomação, e uma carreira internacional que apenas reforçou a certeza de que havia escolhido a profissão certa.

O executivo hoteleiro Mathieu Seigle em Cartagena, na Colômbia, durante uma de suas experiências internacionais. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Quais as melhores experiências que já teve no exterior?

Mathieu Seigle – Tive o privilégio de construir minha carreira em diferentes países, culturas e continentes, e cada experiência contribuiu de forma única para a pessoa e o líder que sou hoje.

Ao longo dessa trajetória, aprendi que a hospitalidade é uma linguagem universal, mas que ela se expressa de maneiras muito diferentes em cada cultura. Trabalhar em ambientes tão diversos me ensinou a ouvir antes de agir, a respeitar diferentes formas de pensar e a adaptar meu estilo de liderança sem perder de vista os mesmos valores: excelência, respeito pelas pessoas e paixão por servir.

Também tive a oportunidade de participar de projetos de abertura, reposicionamento e transformação de hotéis, experiências que exigem visão estratégica, resiliência e, acima de tudo, a capacidade de inspirar equipes em momentos de mudança. Ver um hotel evoluir é gratificante, mas ver pessoas crescerem, desenvolverem suas carreiras e conquistarem novos desafios é, sem dúvida, a maior recompensa.

Viver em tantos países também ampliou minha visão de mundo. Aprendi que as melhores ideias surgem quando combinamos diferentes perspectivas e que a diversidade não é apenas uma característica das equipes, mas uma verdadeira vantagem competitiva para qualquer organização.

Hoje, tenho a alegria de estar de volta ao Brasil. Minha relação com o país começou muito antes da minha chegada ao Fairmont: vivi parte da infância em Salvador e iniciei minha trajetória na Accor, em 2011, no Sofitel Rio de Janeiro. Por isso, este retorno tem um significado muito especial, tanto profissional quanto pessoal.

No fim das contas, mais do que os hotéis ou os destinos, o que realmente marcou minha trajetória foram as pessoas que encontrei em cada lugar. São essas experiências, culturas e relações humanas que continuam inspirando a forma como lidero equipes e busco criar experiências memoráveis para nossos hóspedes todos os dias.

Chico Vartulli – É difícil para sua família se adaptar às mudanças de residência e cultura?

Mathieu Seigle – Toda mudança exige um período de adaptação, principalmente quando envolve novos idiomas, costumes e uma rotina completamente diferente.

Mas nós encaramos cada mudança como uma oportunidade de crescimento. Fazemos questão de conhecer profundamente a cultura local, experimentar a gastronomia, criar amizades e viver cada destino como moradores e não apenas como visitantes.

Acredito que essa forma de viver esteja formando nossas filhas como cidadãs abertas ao mundo, capazes de compreender e respeitar diferentes culturas. Para nós, essa é uma das maiores riquezas que essa profissão nos proporciona.

Chico Vartulli – Acredita que viver fora do seu país natal traz um amadurecimento grande?

Mathieu Seigle – Sem dúvida. Viver em diferentes países é uma das experiências mais enriquecedoras que alguém pode ter, tanto no âmbito pessoal quanto profissional.

Ao longo da minha trajetória na Europa, Ásia e América Latina, percebi que não existe uma única maneira de liderar, de se comunicar ou de alcançar resultados. Cada cultura traz uma perspectiva diferente, e aprender a compreendê-la amplia nossa capacidade de adaptação e de empatia.

Na China, aprendi o valor da disciplina, da visão de longo prazo e da busca constante pela excelência. Na Espanha, vivi uma cultura em que as relações humanas e a proximidade têm um papel fundamental. Já na América Latina, especialmente na Colômbia, no Peru, no México, na Argentina e, agora, novamente no Brasil, encontrei uma enorme criatividade, resiliência e uma impressionante capacidade de encontrar soluções mesmo diante dos desafios.

Essas experiências transformaram profundamente a minha forma de liderar. Hoje, acredito que a liderança não se constrói impondo respostas, mas fazendo as perguntas certas, ouvindo as pessoas, respeitando as diferenças e criando um ambiente em que todos se sintam parte da solução.

No fim, viajar e viver em tantos países me ensinou que, independentemente da cultura, as pessoas valorizam as mesmas coisas: respeito, confiança, reconhecimento e propósito. São justamente esses valores que procuro cultivar todos os dias com as equipes que tenho o privilégio de liderar.

Hotel Casa Fuster, em Barcelona, Espanha, referência da arquitetura modernista e da hotelaria de luxo. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – A sua própria família é um exemplo da diversidade: esposa colombiana e filha brasileira. Como isso influencia sua visão de mundo?

Mathieu Seigle – Nossa família representa muito bem essa diversidade. Minha esposa é colombiana, eu sou franco-irlandês, nossas filhas nasceram em países diferentes e cresceram convivendo naturalmente com vários idiomas, culturas e tradições. Essa diversidade faz parte da nossa rotina e da forma como enxergamos o mundo.

Essa convivência nos lembra diariamente que existem muitas maneiras de pensar, viver e se relacionar. Aprendemos a valorizar as diferenças porque elas ampliam nossa visão e nos tornam pessoas melhores.

Levo esse aprendizado também para o ambiente profissional. Acredito que equipes diversas são mais criativas, inovadoras e preparadas para compreender as expectativas de hóspedes do mundo inteiro. Na hotelaria, a diversidade não é apenas um valor; é uma vantagem competitiva e um dos principais ingredientes para criar experiências verdadeiramente memoráveis.

Chico Vartulli – Você se sente um cidadão do mundo?

Mathieu Seigle – Nasci em Londres, cresci em diferentes países e hoje moro no meu 15º país. Ao longo da minha trajetória, tive o privilégio de viver e trabalhar na Europa, na Ásia e na América Latina. Cada cultura, cada experiência e cada destino contribuíram para formar a pessoa e o líder que sou hoje.

A Colômbia ocupa um lugar muito especial na minha vida, tanto pela minha experiência profissional quanto pela minha família. O Brasil também tem uma presença muito forte na minha história: fez parte da minha infância e agora representa um novo capítulo da minha carreira.

Talvez seja justamente por isso que me sinto em casa em tantos lugares diferentes. Afinal, a hospitalidade tem uma linguagem universal: acolher pessoas.

Chico Vartulli – Cada país onde você se instalou representou o começo de uma nova vida?

Mathieu Seigle – Sem dúvida.

Cada mudança representa uma página em branco. É preciso construir novas relações, conquistar a confiança das equipes, compreender uma nova cultura e descobrir a identidade daquele hotel.

É justamente essa fase que mais me entusiasma. Gosto de observar antes de agir, entender o que funciona, identificar oportunidades e construir uma visão compartilhada para o futuro.

Transformar uma operação nunca é resultado do trabalho de uma única pessoa. É uma construção coletiva, baseada na confiança, no desenvolvimento das pessoas e em um propósito comum.

Chico Vartulli – Como está sendo sua adaptação ao Rio de Janeiro?

Mathieu Seigle – Está sendo uma experiência extremamente inspiradora.

Depois de experiências na Europa, na Ásia e em diferentes países da América Latina, voltar ao Rio de Janeiro representa um novo capítulo muito especial. O Rio é admirado no mundo inteiro por sua beleza, sua energia e seu estilo de vida, mas também possui um enorme potencial para a hotelaria de luxo.

Tenho uma ligação antiga com o Brasil. Vivi parte da minha infância em Salvador e comecei minha trajetória profissional no país, em 2011, aqui no Rio, quando o hotel ainda era Sofitel. Por isso, assumir hoje o Fairmont Rio de Janeiro Copacabana tem um significado muito especial.

Cheguei com muita curiosidade e respeito. Antes de propor qualquer mudança, procurei conhecer as pessoas, ouvir as equipes e compreender profundamente a cultura do hotel.

Meu objetivo é contribuir para que o Fairmont Rio continue evoluindo, fortalecendo ainda mais sua posição como uma das grandes referências da hotelaria de luxo na América Latina. Acredito que, quando uma equipe trabalha unida em torno de um propósito comum, a experiência do hóspede naturalmente alcança outro nível.

Minha convicção, depois de tantos países e culturas, é que a verdadeira hospitalidade não conhece fronteiras. Ela começa com a capacidade de acolher, ouvir e cuidar das pessoas. É isso que continua me inspirando todos os dias.

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Coluna comandada por Chico Vartulli, Vivências internacionais trazem uma série de entrevistas com personalidades onde falam sobre suas experiências e curiosidades no exterior sobre cultura, arte e diversão.

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