Aos 30 anos de carreira, a flautista, cantora e compositora carioca Gabriela Koatz vive um momento de virada: depois de uma trajetória consolidada como instrumentista, ela lança o EP Todas as Coisas Que Eu Sou e se apresenta, pela primeira vez, também como cantora no palco do Little Club, no dia 22 de abril, em Copacabana. O projeto marca não apenas uma celebração de percurso, mas também um gesto de afirmação artística — um autorretrato que reúne influências, experiências e novas camadas de expressão.
Em entrevista, Gabriela fala sobre esse novo momento da carreira e a decisão de assumir o protagonismo também na voz. “Sempre participei de conjuntos musicais (…). Em Todas as Coisas Que Eu Sou, me coloco em evidência tanto na flauta quanto na voz”, resume. Na conversa, ela também relembra o início precoce na música e como essa trajetória, entre o erudito e o popular, ajudou a moldar sua identidade artística.
A artista também aborda a influência da musicoterapia em sua trajetória, a busca por um repertório que equilibre emoção e desafio técnico e os planos futuros, que incluem pesquisa acadêmica, congresso na Itália e novos projetos autorais. Entre memórias, reflexões e desejos, a entrevista revela uma artista em movimento, que transforma escuta em criação — e faz de Todas as Coisas Que Eu Sou não um ponto de chegada, mas um convite para o que ainda está por vir.
Chico Vartulli – Você está lançando seu primeiro EP solo, Todas as Coisas Que Eu Sou. Quais são as novidades que você gostaria de destacar nessa produção?
Gabriela Koatz – Sempre participei de conjuntos musicais, instrumentais e corais, camerísticos ou de orquestra, tocando flauta ou cantando em contraponto a uma melodia principal, que soava na soma do todo de cada músico integrante. Em Todas as Coisas Que Eu Sou, me coloco em evidência tanto na flauta quanto na voz, marcando também a novidade de me lançar como cantora. O EP apresenta ainda aos ouvintes arranjos que Ivan Azevedo escreveu especialmente para este trabalho.
Chico Vartulli – Quando você começou a se interessar pela música?
Gabriela Koatz – Desde muito pequena já demonstrava meu interesse pela música. Lembro de passar o dia cantando, de inventar músicas na minha cabeça e de descobrir um gravador portátil que eu ligava atrás de qualquer som, barulho ou ruído da casa, da cozinha, dos objetos e das paredes, com a intenção de transformar tudo em música. Não tive uma infância muito abastada de bens materiais, mas fui muito rica em acesso à cultura. Então passava as tardes brincando de batucar e descobrir sons diferentes no próprio corpo, na voz e nos materiais. Assistia ao balé no Theatro Municipal com minha avó e ficava mais interessada em ver os músicos da orquestra no fosso do que em acompanhar os passos de dança. Aos 8 anos, ganhei uma bolsa de estudos para o Curso Fundamental do Conservatório Brasileiro de Música e não parei mais de estudar.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação na área?
Gabriela Koatz – Costumo dizer que fui praticamente alfabetizada em música na mesma época em que fui alfabetizada na escola e que, por isso, minha leitura de partituras é mais fluente até do que a de português. Comecei no Curso Fundamental, acompanhando as séries escolares com a formação musical: tinha aulas de teoria e percepção, um instrumento melódico, um harmônico, prática de conjunto e canto coral. Cheguei a iniciar em violino, violão, teclado, piano e percussão, mas a flauta doce e o coral me conquistaram desde o início. Depois, seguindo a escolarização, fiz o Curso Técnico de Música com habilitação em Flauta Transversal, seguindo naturalmente para o bacharelado em Musicoterapia e em Flauta Transversal, quando estudei com a grande mestra Odette Ernest Dias. Penso em seguir com o mestrado em uma etapa futura.
Chico Vartulli – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) na área?
Gabriela Koatz – A formação como flautista implica algumas referências “obrigatórias”, como Bach, Pixinguinha, Carlos Malta e Hermeto Pascoal. Já pela formação clássica, me identifico com música experimental contemporânea e com compositores que transitam entre a música de concerto e a música popular, como Radamés Gnattali, Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri e Piazzolla. O repertório, antes de tudo, tem que emocionar, mas também busco tocar o que me desafia técnica e esteticamente, como bossa nova e jazz. Sou muito eclética, então estou sempre me reinventando e participando de diferentes frentes musicais, como grupos de forró e samba, além do teatro ao vivo.
Chico Vartulli – Por que o seu interesse pela flauta?
Gabriela Koatz – Posso me considerar uma pessoa de sorte, pois comecei a estudar música pela flauta doce e me identifiquei imediatamente. Se eu tivesse sido musicalizada pelo violão, hoje eu seria economista! rsrs. Eu passava o dia inteiro tocando “Asa Branca”. Logo depois, quebrei o braço esquerdo e tive que continuar tocando apenas com a mão direita. Depois que tirei o gesso, meu irmão me ensinou a tocar a introdução de “Asa Branca”, que utiliza notas das duas mãos, e percebi que já estava mais avançada do que as outras crianças da turma. Infelizmente, os instrumentos musicais no Brasil são muito caros e só pude estudar flauta transversal porque um primo do meu pai me emprestou uma flauta que ele tinha guardada havia cerca de 20 anos. Fui ter minha primeira flauta somente depois que já estava na faculdade.

Chico Vartulli – Além de ser formada em música, você também é formada em musicoterapia. O que é a musicoterapia? Quais são os seus objetivos?
Gabriela Koatz – A Musicoterapia é uma formação de nível superior que utiliza recursos da música, como sons, timbres, ritmos, melodias e harmonias, com objetivos terapêuticos específicos para um paciente, um grupo ou uma comunidade. Esses objetivos podem envolver melhora de sintomas, dores e quadros psíquicos, reabilitação de funções psicomotoras, apoio a tratamentos tradicionais para dependência química, câncer e HIV, além de auxiliar nas funções cognitivas, de memória e aprendizagem, bem como em aspectos psicossociais. É uma tecnologia leve que promove saúde, qualidade de vida e bem-estar para todas as idades.
Chico Vartulli – Como musicoterapeuta, quais são as suas áreas de atuação? Quais são os projetos que você desenvolve?
Gabriela Koatz – Sou apaixonada por trabalhar com crianças e com reabilitação neuromotora. Trabalho na Escola de Música da UFRJ, onde desenvolvo um coral infantojuvenil para alunes neurodivergentes. Também realizo atendimentos individuais para crianças que necessitam de estímulos na fala, linguagem, aprendizagem e autorregulação emocional. Além disso, contribuo no setor de reabilitação neuropediátrica com reabilitação psicomotora para crianças com necessidades especiais complexas, envolvendo sustentação de tronco, marcha e outras questões de mobilidade e motricidade. Também colaboro em grupos de pesquisa voltados para inclusão e diversidade, com esse olhar para a reabilitação, e ministro supervisão de estágio de Musicoterapia em Reabilitação para os discentes da graduação da UFRJ.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Gabriela Koatz – Pretendo continuar fazendo shows e divulgando o meu EP aos “quatro ventos”, sem parar de estudar harmonia e improvisação com grandes mestres da música. Futuramente, quero desenvolver uma pesquisa de mestrado em etnomusicologia sobre o impacto das canções religiosas de matrizes africanas em pacientes em instituições totais. Esse tema já acompanha minha prática clínica e abordarei o assunto em um artigo que apresentarei no Congresso Mundial de Musicoterapia, neste ano, na Itália. Quem sabe também não consigo fazer alguns shows por lá? Posteriormente, quero continuar compondo e usando a minha musicalidade para dar voz às mulheres, para que se sintam cada vez mais empoderadas para enfrentarmos juntas o machismo estrutural que segue vitimando tantas mulheres. A arte salva!


