No início do século XX, o Rio de Janeiro parecia viver numa intensa transformação. Bondes elétricos, veículos de tração animal, vitrines, letreiros, cafés, teatros, cinematógrafos e grandes obras urbanas alteravam de uma maneira tão veloz a paisagem da capital. A cidade se expandia, o comércio se intensificava e o cotidiano de seus habitantes passava a exigir um novo olhar. Luzes, sons, deslocamentos e uma multidão em movimento pelas ruas compunham uma experiência urbana marcada por sensações de fascínio e de estranhamento.

O contexto foi marcado pelo crescimento da população, pelas obras e pelas derrubadas de muitas construções antigas, que faziam da cidade um lugar considerado “caótico, estimulante”, o que ensejava sentimentos complexos como “fascínio e medo”. Nas ruas, era possível encarar novas formas de sociabilidades, o encontro inesperado com desconhecidos, os bondes cheios, os letreiros e as vitrines de lojas criavam uma nova forma de experiência urbana.

Já se percebia que a Belle Époque carioca não se restringia às novas fachadas elegantes ou aos espaços frequentados pelas alta sociedade carioca. A rua se converteu em um ponto de encontro da cidade, não era apenas um lugar de passagem. A rua tornava visíveis “as múltiplas relações de interdependência entre os agentes culturais” e permitia perceber como interesses e experiências muito diferentes se movimentavam e formavam “redes de interações complexas”.
É compreensível que essas redes passavam por muitos lugares. Das ruas chegava-se aos palcos, às serestas, aos batuques, às praças, aos cafés, às livrarias e aos salões. Depois, muitas ideias, personagens, ritmos e histórias circulavam, para as redações de jornais, para as crônicas de muitos escritores e para as salas de cinema. Era muito mais do que um cenário imóvel, a cidade se apresentava através do “movimento e da fluidez dos rastros” deixados por quem circulava entre esses diferentes espaços.
Um personagem observado na rua podia aparecer no teatro. Uma expressão popular podia ser incorporada por um cronista. Uma canção ouvida no palco voltava às ruas e às festas. Jornais, teatro, música, cinema e literatura se alimentavam daquilo de se vivia nas ruas. O resultado era um verdadeiro “caleidoscópio de imagens, cenas e linguagens”, capaz de mostrar também as disputas, negociações, formas de vigilância e de espetáculo presentes no cotidiano carioca.
O cronista da cidade João do Rio foi um que soube perceber como poucos de sua geração essa força das ruas. Em A alma encantadora das ruas, perguntava: “Mas, a quem não fará sonhar a rua?” Para conhecê-la, era preciso caminhar, observar e perceber aquilo que muitas vezes escapava ao olhar apressado. Músicos ambulantes, mercadores, cocheiros, trabalhadores, mendigos e tantos outros personagens que compunham o tecido da cidade.

Os cafés também faziam parte dessa geografia cultural. No Rio dos primeiros anos do século XX, eram pontos de conversa, debate e criação. Outro escritor digno de nota é Lima Barreto, que frequentou alguns desses espaços, especialmente o Café Papagaio. Em suas lembranças, deixou uma frase simples que resume bem essa rotina: “Ao café, vínhamos conversar.” Ali, uma conversa podia começar por um acontecimento banal e terminar em discussões calorosas sobre literatura e política ou até sobre reformas sociais.

Para Lima Barreto, a cidade era um material precioso para a sua escrita. Nos cadernos que ele intitulou de Retalhos, o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, reunia notícias de jornais sobre assuntos diversos, como críticas às suas obras e acontecimentos políticos e culturais, além de registrar anotações e esboços. Nesse cotidiano de pesquisa e de pesquisa, ele recortava notícias, colava os fragmentos e escrevia à margem as reflexões sugeridas por cada passagem. Não raro os recortes se tornavam “matéria-prima” para um processo criativo que passava pela observação, pelo arquivo e pela reinvenção.
Por outro lado, vale a pena apontar que a palavra escrita, por sua vez, não circulava somente entre aqueles leitores silenciosos. Não é demais destacar que o índice de analfabetismo era altíssimo. Então, era comum a leitura em voz alta nas casas, bem como debaixo dos postes iluminados, nos bondes, nos botequins, nas praças e, evidentemente, nas ruas do Centro da cidade.
Como apontou a pesquisadora Carmem Negreiros, em Belle Époque Carioca & Lima Barreto, o Rio de Janeiro estava longe de ser apenas o cenário de uma Belle Époque feita de luxo e glamour. Era uma cidade plural, marcada por contrastes, disputas e reinvenções.

Para compreender essa cidade em transformação, talvez seja preciso abandonar a ideia de um “retrato imóvel” e passar a lê-la ou percebê-la através dos rastros deixados por aqueles que nela circulavam, ou seja, aquilo que saía das ruas e chegava aos palcos, passava dos cafés aos jornais, da música à literatura e, depois, retornava novamente às ruas. Como um movimento contínuo de circulação e de transformação, a cidade alimentava a produção cultural e, ao mesmo tempo, era continuamente recriada por ela.
Para quem quiser se aprofundar nesse Rio de ruas, redes, cultura e criação, vale a pena a leitura de Belle Époque Carioca & Lima Barreto: redes, ruas e criação, de Carmem Negreiros. São Carlos: Pedro & João Editores, 2025.
Crédito das imagens
1. Avenida Central, nas proximidades do cruzamento com a Rua do Rosário — Wikimedia Commons — Fotografia de Marc Ferrez; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.
2. Theatro Municipal e Avenida Central — Wikimedia Commons — Fotografia de Marc Ferrez, cerca de 1909; domínio público.
3. Centro do Rio de Janeiro, 1889 — Wikimedia Commons — Fotografia de Marc Ferrez; domínio público.
4. João do Rio em 1909 — Wikimedia Commons — Autoria desconhecida; fotografia publicada na revista Fon-Fon! em 1909; domínio público.
5. Fachada da Confeitaria Colombo — Wikimedia Commons — Fotografia de Augusto Malta, 1926; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.
6. Lima Barreto, 1917 — Wikimedia Commons — Autoria e fonte original desconhecidas; fotografia de 1917; domínio público.
7. Panorama do Centro do Rio a partir do Morro do Castelo — Wikimedia Commons — Fotografia de Marc Ferrez, cerca de 1885–1895; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.



