Há atrizes que vivem o teatro, mesmo quando estão longe dos palcos convencionais. Elaine Baracho (@ebaracho) é uma delas. Formada no Tablado, onde estudou por dez anos e teve Maria Clara Machado entre seus mestres, ela construiu uma trajetória que atravessa teatro, televisão e cinema, sem abrir mão da inquietação que move quem escolhe a arte como ofício e forma de estar no mundo. Seu reencontro com o circuito comercial, em Lábios que Beijei (@labiosquebeijei.teatro), no Teatro Glauce Rocha, não representa propriamente uma volta, mas a retomada de um espaço que nunca deixou de ocupar.
Durante anos, Elaine levou a palavra para além das salas de espetáculo. Em livrarias, bares e outros espaços alternativos, desenvolveu um projeto de declamação de poemas que desafiava as fronteiras entre interpretação, performance e literatura. No Blue Angel, conhecido bar alternativo de Copacabana que já não existe, a atriz encontrou um território fértil para experimentar outras possibilidades de atuação, aproximando a poesia de públicos e ambientes distantes dos rituais tradicionais do teatro.
Foi ali que a irreverência também encontrou espaço para provocar. O ator Guilherme Karam, amigo de Elaine, levou Fernanda Montenegro, Jacqueline Laurence e amigas à uma exposição que era realizada no Blue Angel. Na ocasião, elas assistiram à atriz interpretar poemas de Charles Bukowski e o curioso “Poema da buceta cabeluda”, de Bráulio Tavares. A escolha do repertório, que transitava entre o provocador, o literário e o inesperado, traduzia o espírito de uma experiência artística que não parecia interessada em pedir licença para existir. Mais do que declamar versos, Elaine investigava os limites da presença cênica e a potência da palavra quando retirada de seu lugar habitual.
Agora, em cena como a prostituta Twist em Lábios que Beijei, texto de Júlio Kadetti baseado na obra de Aguinaldo Silva, Elaine mergulha na memória da Lapa dos anos 1960 e 1970, entre a boemia, a diversidade e as marcas da repressão política. A personagem exige uma entrega emocional que dialoga com a maturidade de uma atriz cuja trajetória foi construída tanto diante das câmeras quanto em experiências menos previsíveis. Nesta entrevista, Elaine fala sobre formação, televisão, personagens que deixaram marcas, liberdade artística e a diferença entre ter trabalho como atriz e fazer da atuação uma identidade. Acompanhe a entrevista a seguir.
Rodolfo Abreu: Você começou no teatro muito cedo e já estava no elenco de Ubu-Rei, no Tablado, em 1984. Quando olha para aquela Elaine que estava começando, o que reconhece na atriz que você é hoje — e o que mudou completamente?
Elaine Baracho: Estudo e faço teatro profissional desde 1983, formada pelo tablado que cursei por 10 anos tendo como professores Maria Clara Machado, Maria Vorhess, Thais Baloni, Ricardo Kosovski e tive a honra de estrelar como personagem principal Ubu Rei ,um marco histórico, peça adulta que Maria Clara Machado colocou em cartaz depois de 30 anos só fazendo teatro infantil, fiz a Mãe Ubu. No cinema fiz o curta metragem “O Assalto de Hilton Kaufman .Trabalhei ao lado de grandes Mestres como Carlos Wilson da Silveira (Damião), Hilton Have ,Aderbal Freire Filho, Paulo José,Ticiana Studart, Sérgio Britto. Essa vivência com grandes nomes da nossa dramaturgia me dá uma base profunda para interpretar a Lapa os anos de chumbo e dar vida a história de Júlio Kadetti, baseada no livro de Aguinaldo Silva, “Lábios que Beijei”. É fascinante porque une duas potências: a resistência cultural da Lapa e a formação de um dos maiores contadores de histórias desse país. Retratar esse período é mostrar como a arte e a boemia serviram de refúgio e resistência em um dos momentos mais sombrios do Brasil. A Lapa dos anos 1960 e 70 era o coração pulsante da juventude da diversidade e da liberdade de expressão no Rio, mesmo sob constante vigilância. Colocar essa Lapa e a repressão militar em cena nos permite criar um contraste dramático muito forte entre o medo da ditadura e a coragem de viver e amar. Tentam calar a cultura, mas a arte encontra caminhos para sobreviver. Queremos emocionar o público e ressaltar a importância de valorizar a nossa história e a liberdade. E é essa intensidade que o público vai ver no palco com uma precisão dramática ao se falar de um período tão delicado e marcante do Brasil. Naquela jovem atriz do Tablado, reconheço a mesma paixão visceral e o compromisso com o fazer teatral enquanto a maturidade me trouxe mais liberdade e domínio do meu próprio espaço.
Rodolfo Abreu: O teatro foi um ponto de partida importante na sua trajetória e a televisão acabou tornando seu rosto mais conhecido. Como foi para você atuar nessas duas frentes e o que cada uma trouxe para sua trajetória artística?
Elaine Baracho: Atuar nessas duas frentes me permitiu equilibrar a densidade artesanal do palco com agilidade e o alcance da televisão. O que o teatro trouxe: formou minha base e o rigor ético desde o Tablado, ensinando o compromisso com o texto, a escuta, a vivência coletiva. Cada projeto no audiovisual exige um tom diferente, e o conjunto desses trabalhos reflete a busca constante por diversidade de linguagens. O que a televisão me trouxe : aprimorou o domínio da câmera, a sutileza do gesto e a capacidade de comunicação direta com público amplo, tornando meu trabalho reconhecido.
Rodolfo Abreu: Sua carreira no audiovisual atravessou diferentes emissoras, novelas, séries e filmes. Que trabalhos no audiovisual você considera que mais marcaram sua carreira e trouxeram diferentes nuances da sua atuação?
Elaine Baracho: Cada trabalho é um trabalho e sem sombra de dúvidas deixam marcas profundas: os trabalhos que mais marcaram minha carreira e me trouxeram diferentes nuances de atuação foram as novelas, A Favorita (eu e Claudia Raia tivemos que dividir a cena com uma ratazana enorme e adestrada), Avenida Brasil, A Lei do Amor, Pega Pega, Totalmente Demais, a novela Alto Astral com direção de Jorge Fernando foi bem marcante porque trouxe de volta a personagem icônica de Claudia Raia “Tonhão”, do extinto TV Pirata, que eu era muito fã e tive a honra e prazer de contracenar com ela. Um trabalho que me tocou muito foi o Programa Linha Direta com Pedro Bial, roteiro de Camila Appel e direção geral de Monica Almeida, onde fiz Dona Benedita, a mãe de um jovem que foi assassinado de uma forma muito violenta e cruel. Uma novela que também me deixou marcas foi a novela que fui contratada na Pandemia: Um Lugar ao Sol, era muito estranho ir gravar naquele Projac vazio e cheio de regras difíceis.
Rodolfo Abreu: Há uma curiosidade muito particular na sua trajetória: você acabou interpretando várias personagens em situações prisional. Foi uma coincidência ou também uma personagem acabou levando outras produções a te escalarem para esse tipo de papel? E o que pode dizer sobre esse universo, o que aprendeu que trouxe para sua vida?
Elaine Baracho: Foi uma coincidência do mercado, que acabou virando um exercício profundo de humanização e empatia na minha carreira. É o famoso efeito dominó no audiovisual quando um ator interpreta uma personagem marcante em determinada situação, como o ambiente prisional a indústria tende a enxergar esse talento e escalá-lo para papéis mais densos. Uma oportunidade foi puxando a outra .O grande desafio e o trunfo do meu trabalho foi não encarar esses papéis como iguais. Cada mulher em situação de privação de liberdade carrega sua própria história, suas dores e contradições humanas. Aprendizado para a vida. Interpretar essas realidades trouxe uma compreensão muito profunda sobre a invisibilidade social, a Resiliência e a força das mulheres em momentos extremos. Ensinou a não julgar, ao olhar com mais compaixão e a usar a arte como ferramenta de Escuta e denúncia social.
Rodolfo Abreu: Você ficou 15 anos afastada dos palcos. O que aconteceu nesse intervalo? Foi uma distância deliberada do teatro ou a vida profissional simplesmente foi conduzindo você por outros caminhos?
Elaine Baracho: É preciso fazer uma correção carinhosa nessa ideia eu nunca me afastei do teatro, o que aconteceu foi que me afastei apenas do circuito comercial do palco tradicional, atuando em diversos outros lugares como bares, livrarias, praças públicas e na Academia Brasileira de Letras e no audiovisual.
Rodolfo Abreu: “Lábios que Beijei”, com direção de Marco Miranda, marca justamente esse reencontro com o teatro. O que havia nesse texto, nessa história de Aguinaldo Silva e nesse convite de Guilherme DelRio e Isabella Barros que fez você voltar ao teatro?
Elaine Baracho: Essa volta ao circuito comercial do palco tradicional a convite da minha querida amiga, atriz e produtora Isabella Barros e do ator e produtor Guillerme DelRio se deu pelo simples fato de que me apaixonei por essa linda história de vida do Aguinaldo Silva e esse texto marcante e profundo do Júlio Kadetti e essa personagem linda e densa que é Twist, estranho seria se eu não me apaixonasse.Tudo encaixou lindamente!
Rodolfo Abreu: Twist é uma personagem muito desafiadora. Ela vive a solidão, a carência e deixa claro para o público os impactos das transformações sociais e políticas que o Brasil passava no início dos anos 1970. Como foi para você construir com sua atuação essa personagem no palco?
Elaine Baracho: A construção da personagem Twist exigiu um trabalho intenso de pesquisa histórica, sensibilidade dramática e entrega física no palco. Por se tratar de uma figura marcante que expõe a dor a vulnerabilidade e o contexto sócio político, tem uma entrega profunda onde empresto minhas próprias dores memórias e vulnerabilidade. Para dar vida e verdade à dor da personagem nesse momento da peça, a fronteira entre atriz e a personagem se torna fluida por meio do autor. Empatia e memória coletiva. A emoção emprestada deixa de ser individual e passa a carregar o peso do luto coletivo e do sufocamento da época. Há catarse e verdade em cena. A técnica teatral canaliza em emoções e é uma busca que continua existindo mesmo quando as câmeras estão desligadas e as cortinas se fecham.

Rodolfo Abreu: Sua personagem, Twist, tem um monólogo bastante intenso nessa peça, que parte de uma situação pessoal da personagem, porém também reflete o que a sociedade estava vivendo nos anos de chumbo. O quanto de emoção sua e de sentimentos você empresta à personagem nesse momento da peça?
Elaine Baracho: Para que a intensidade do monólogo soe genuína, acesso sentimento reais de solidão, medo e indignação, oferecendo a personagem o peso da minha própria vivência humana. A dor individual de Twist reflete as feridas abertas pelos anos de chumbo; por isso a atuação busca ressoar o sofrimento silenciado de toda uma geração. Equilíbrio entre emoção e técnica: embora o sentimento seja visceral.
Rodolfo Abreu: Nesta peça você contracena com um elenco diverso e muito talentoso que foi dirigido por Marco Miranda. Como foi para você o processo de ensaios e como é o dia a dia com toda a equipe de “Lábios que beijei”?
Elaine Baracho: O processo de ensaios e a convivência diária no espetáculo lábios que beijei foram marcados por intensa troca artística, escuta generosa e uma construção coletiva potente sob a direção de Marco Miranda. O diretor conduziu os ensaios criando um ambiente seguro para o elenco explorar a profundidade dramática do texto incentivando improviso e a busca pela verdade de cada personagem. A pluralidade e o talento da equipe resultaram em uma troca riquíssima cena, onde a diversidade de bagagens agregou camadas a narrativa da peça. O dia a dia com a equipe é pautado pelo afeto, cumplicidade e apoio mútuo, criando uma energia leve nos bastidores que se reflete na entrega entrosamento do grupo no palco.
Rodolfo Abreu: Você atravessou gerações de atores, linguagens e maneiras de fazer televisão e teatro. O que você diria que mudou na profissão de atriz desde o início da sua carreira?
Elaine Baracho: A profissão de atriz passou por transformações profundas com a rápida evolução da tecnologia, o ritmo de produção e a relação com público. As principais mudanças ao longo das décadas incluem ritmo e estilo de atuação: no passado a interpretação herdava muito do teatro com projeção vocal acentuada e gesticulação ampla. A televisão e o cinema modernos trouxeram câmeras e microfones mais sensíveis exigindo uma atuação mais naturalista, minimalista e contida. Antigamente havia mais tempo para ensaios, leitura de mesa e construção da personagem. Hoje, com o volume das produções para streaming e TV, as gravações são extremamente ágeis e exigem adaptação e prontidão imediatas. A presença digital tornou-se uma extensão do trabalho. Se antes o mistério cercava a vida dos atores, hoje a proximidade com os fãs e a gestão de imagens nas redes sociais influencia inclusive a escalação para trabalhos. Houve um avanço importante na representatividade de papéis e histórias, além de maiores espaço para que as próprias atrizes produzam ,escrevam e direcionem seus projetos, conquistando mais espaço.
Rodolfo Abreu: Existe uma diferença entre “ser atriz” e “ter trabalho como atriz”. Depois de uma trajetória tão longa, em que momento você percebeu que uma coisa havia se tornado, definitivamente, a sua identidade?
Elaine Baracho: Existe, sim, uma diferença profunda entre exercer a profissão de atriz, aceitar papéis, cumprir contratos e ter trabalho na área, e ser atriz na essência do termo. Ter trabalho como atriz está ligado às oportunidades do mercado, aos ciclos da carreira e ao ganho financeiro. Já ser atriz é uma postura diante da vida, uma forma única de observar o mundo, compreender a natureza humana e canalizar emoções. A percepção de que a atuação deixou de ser apenas um meio de vida para se tornar a própria identidade raramente acontece em um único estalo efêmero; ela costuma se consolidar através de marcos muito marcantes. Quando a criação precede a oportunidade: no instante em que você percebe que, mesmo sem um papel em vista, continua observando o comportamento das pessoas na rua, analisando textos e criando universos na mente. A atuação deixa de ser um emprego e passa a ser sua lente de ver o mundo na superação das incertezas: a carreira artística é feita de altos e baixos, rejeições e períodos de Inter safra. Percebe-se a atriz definitivamente acontece quando, mesmo diante das maiores incertezas e dificuldades do mercado, a ideia de fazer qualquer outra coisa simplesmente deixa de fazer sentido. No encontro com a maturidade e autonomia. Vou passar do tempo e o acúmulo de bagagem, e a necessidade da validação externa diminui. Atuação deixa de ser uma busca por reconhecimento e passa a ser uma necessidade vital de expressão e partilha com o público.
Rodolfo Abreu: Que outros projetos estão em seu radar para um futuro próximo?
Elaine Baracho: Meu radar não se limita apenas a aceitar novos papéis, mas escolher experiências que façam sentido artístico e pessoal. O palco continua sendo o território do respiro, do exercício contínuo da atuação e do contato direto e vivo com o público. Por enquanto desejo muito viver ainda mais a Twist em Lábios que beijei.









