Nascida em Itaúna, Minas Gerais, Raquel Saliba é artista visual, graduada em Psicologia e com formação em Psicanálise. Desde 2011, dedica-se exclusivamente à arte, especialmente às esculturas em cerâmica e bronze. Ao longo de sua trajetória, morou em diferentes países, como França, Austrália e Inglaterra, onde realizou cursos de arte e escultura. Desde 2017, voltou a morar no Brasil, no Rio de Janeiro, e mantém ateliês na capital e em Armação dos Búzios, além de frequentar cursos no Parque Lage.

“Meu fascínio pelo figurativo e pela cerâmica vem da história do nosso passado. A cerâmica é um dos vestígios culturais utilizados pela arqueologia para reconstruir narrativas históricas anteriores à escrita.

Minhas figuras são seres sem forma e sem gênero definidos, moldados em argila, e variam entre 0,10 m e 2,10 m de altura.”

Nesta edição, Chico Vartulli conversa com a conceituada ceramista e artista visual Raquel Saliba, que apresenta sua trajetória, suas referências artísticas e o trabalho desenvolvido em torno da cerâmica, do corpo feminino e da violência contra as mulheres.

Esculturas de cerâmica da série Corpo, produzidas com queima Anagama e a gás, por Raquel Saliba. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Como se deu sua formação artística?

Raquel Saliba – Desde criança, tive contato com a arte e com a argila no ateliê da minha prima e madrinha, Adel Souki. Em 2011, fiz aulas de cerâmica no ateliê de Eloiza Frattari. Com ela, aprendi a esculpir, e assim começou minha paixão pelas esculturas. Em 2013, mudei-me para Londres, onde fiz cursos de cerâmica e escultura em algumas escolas, como Heatherlay’s School, Morley College e University Arts of London.

Em Londres, Daniela Couto me convidou para apresentar meu trabalho no espaço deles, em São Paulo, na Orbi Brasil, em 2015, onde fui apresentada como escultora. Voltei a morar no Brasil em 2017, no Rio de Janeiro, e comecei a participar de cursos no Parque Lage. Depois, começaram os convites para exposições coletivas e individuais em Armação dos Búzios, Rio de Janeiro, Paris, São Paulo, Belo Horizonte e Córdoba, na Argentina.

Chico Vartulli – Você estudou Psicologia. Conte um pouco sobre essa mudança de vida.

Raquel Saliba – Sim, sou graduada em Psicologia e tenho formação em Psicanálise. Trabalhei em hospitais psiquiátricos e tinha meu consultório. Em 1992, ganhei uma bolsa para estudar na França durante um ano, em Estrasburgo.

Mas, em 2001, parei de clinicar para acompanhar minha família. Mudamo-nos para a Austrália, onde morei por sete anos. A arte, porém, sempre esteve presente em minha vida, mesmo durante meus estudos de Psicanálise e Psicologia.

Chico Vartulli – Seu trabalho com a cerâmica merece algum destaque?

Raquel Saliba – Quando falamos em cerâmica, vem-nos à mente a ideia dos objetos utilitários, que são muito usados, bonitos e têm uma história milenar. Mas trabalho com esculturas em cerâmica, que nos remetem aos trabalhos arqueológicos, à arte popular brasileira e às artes indígenas e africanas.

Na visão de Christie Brown, a arqueologia e a psicanálise podem ser comparadas no que se refere aos pedaços, aos fragmentos, aos cortes, aos vazios, aos insights e ao conhecimento que nos provocam uma reflexão sobre o ser. Os fragmentos da cerâmica nos dão informações sobre nosso passado, sobre nossos ancestrais. E eu trabalho por meio desses fragmentos.

Chico Vartulli – Na sua avaliação, a arte brasileira ocupa uma posição de destaque?

Raquel Saliba – Sim, nas artes plásticas, na música e no cinema, que também têm tido importante destaque nos últimos anos. Nossa arte é muito rica: vai de Tarsila, Portinari e Di Cavalcanti à arte de D. Isabel, com suas figuras no Vale do Jequitinhonha, e à linda arte indígena.

Chico Vartulli – Poderia citar alguns nomes de artistas que inspiram ou já inspiraram sua carreira?

Raquel Saliba – Começo com minhas referências favoritas na escultura: a espetacular Bárbara Hepworth, Giacometti, Aleijadinho, Properzia Rossi, Simone Leigh, entre outros.

Na cerâmica, minha maior e melhor referência é Adel Souki, pois, desde criança, eu brincava em seu ateliê, em Belo Horizonte. Ela sempre me apoiou e foi quem me ajudou a fazer minha primeira queima no meu forno a gás, em Armação dos Búzios.

Duas artistas que me inspiram não somente como artistas, mas também como mulheres, pela dedicação e pelo amor à arte, são Adel Souki e Anna Bella Geiger, por quem tenho um carinho especial. Em março e abril deste ano, fizemos juntas uma linda exposição no Museu da Cidade, na Gávea. Foi uma honra estar ao lado de Anna Bella, a convite do curador Shannon Botelho.

Chico Vartulli – A arte visual figurativa se manifesta em diferentes nuances. Conte-nos um pouco sobre essa escolha.

Raquel Saliba – Tenho paixão pelo figurativo, talvez pelo ser humano, eu diria, até mesmo por ter feito meus estudos na área de Humanas. Tentei não me deixar levar pela “crítica” ao figurativo, porque, se não fosse assim, eu nem teria feito minhas esculturas. Ouvi muitas críticas, mas, mesmo assim, segui meu caminho e minha paixão pelas esculturas figurativas.

Sempre tive fascínio pela arte grega e romana, tanto pelas esculturas tridimensionais quanto pelos baixos-relevos. Para minha primeira exposição individual, em 2019, tive que fazer um estudo sobre as eras Paleolítica e Neolítica e a Idade dos Metais, para entender melhor meu próprio trabalho, tanto na cerâmica quanto no bronze.

Raquel Saliba ao lado de três esculturas de cerâmica da série Seres. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Como entra em seu trabalho a questão da violência contra as mulheres e do feminicídio? Destaque alguns pontos.

Raquel Saliba – Desde 2019, quando fiz meu primeiro torso feminino, queria desenvolver um trabalho sobre o corpo feminino, o corpo como linguagem.

Em 2021, após ver todos os dias nos jornais notícias sobre a violência contra as mulheres e os altos índices de feminicídio, decidi me dedicar um pouco mais a esse tema. Hoje, a cada seis horas, uma mulher é morta no Brasil por feminicídio e, a cada dez minutos, uma mulher é morta no mundo por feminicídio. Em 2016, era uma mulher morta a cada duas horas.

Mas os números ainda são alarmantes, e me pergunto todos os dias: o que estamos fazendo para proteger as mulheres? Muitas delas denunciam os agressores, mas acabam sendo mortas por eles.

A revolução da figura feminina nos séculos XX e XXI foi fundamental para nosso “grito de liberdade”, mas a violência contra as mulheres ainda é enorme. O Brasil é o quinto país do mundo em mortes violentas de mulheres.

O Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro e estupro de vulnerável informados às autoridades em 2025, uma média de 227 vítimas por dia. Desse total, cerca de 86% das vítimas são mulheres. A grande maioria das vítimas são crianças e adolescentes do sexo feminino: mais de 70% dos casos envolvem menores de 14 anos.

E a pergunta é: até quando as mulheres sofrerão esse tipo de violência? O que poderíamos fazer para protegê-las?

Chico Vartulli – Quais são seus projetos futuros?

Raquel Saliba – Em qualquer área em que trabalhamos, temos que estar sempre aprimorando nosso conhecimento por meio de estudos e práticas. Já tenho algumas exposições em andamento para o fim deste ano e para o próximo.

Quero visitar alguns países, como o Líbano e outros países árabes, para conhecer melhor o papel das mulheres no dia a dia. Como sou neta de libaneses, conheço um pouco da cultura, mas tenho curiosidade e vontade de ampliar meus conhecimentos.

Tenho um projeto de voltar a clinicar em algum momento da minha vida, dando prioridade ao atendimento de mulheres que sofrem violência doméstica. Já fiz um trabalho social entre 1999 e 2001 no Museu Histórico Nacional, onde atendi adolescentes de comunidades carentes. Era um projeto da Sra. Ruth Cardoso junto com o museu. Na época, a diretora era a Sra. Vera Tostes. Foi um lindo projeto.

No momento, minha rotina de trabalho e produção não me permite voltar a clinicar, pois estou com muito trabalho. Futuramente, quero ter tempo para me dedicar aos estudos da clínica psicanalítica. Enquanto isso, vou desenvolvendo e me aprimorando na arte e nas esculturas.

Compartilhar.

Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

Adicione um comentário
Você precisa fazer o para publicar um comentário.