Com quase duas décadas de pesquisa em cerâmica e uma trajetória que inclui exposições e residências em países como Japão, Índia, Áustria, Alemanha e Taiwan, a artista visual brasileira Flavia Pircher apresenta, a partir de 7 de outubro, no LUFAPO HUB, em Coimbra, Portugal, a instalação Mar Salgado. Com curadoria de Paoletti Avelar, a obra reúne peças e fragmentos em porcelana e faiança, imagens, diferentes massas, cor e pó, além de incorporar moldes e telas serigráficas históricos da antiga fábrica portuguesa de cerâmica onde será apresentada. A partir desses materiais, Flavia investiga memória, identidade e as transformações provocadas pelo encontro entre diferentes culturas na formação do Brasil.

O ponto de partida é a própria relação da artista com sua herança portuguesa e com as diferentes matrizes que constituem a cultura brasileira. Estar em Portugal deu a essa reflexão um novo sentido. Em Mar Salgado, Flavia refaz simbolicamente a travessia do Atlântico no sentido inverso ao das rotas coloniais, levando a Portugal uma cultura que assimilou, ressignificou e transformou, ao longo dos séculos, aquilo que lhe foi imposto e explorado, em permanente diálogo com as influências indígenas, africanas e tantas outras que formam o Brasil.

“Por isso o mar se tornou tão importante. É o mesmo mar que um dia levou e que agora traz. E o que retorna já não é português, indígena, africano ou europeu isoladamente. É outra coisa. É essencialmente brasileiro”, explica.

Memória transformada em matéria

O próprio espaço onde Mar Salgado é apresentado integra a instalação. O LUFAPO ocupa uma antiga fábrica portuguesa de faiança e azulejos, e Flavia trabalha com elementos de sua memória material, dando novos usos a moldes e telas serigráficas que fizeram parte de sua produção.

“Não estou apenas falando sobre memória. Estou trabalhando fisicamente com ela. O que um dia foi instrumento de produção torna-se instrumento para produzir uma nova narrativa. E agora ela é construída por uma brasileira.”

A artista não pretende romantizar o passado colonial nem reduzir o trabalho a uma acusação. É justamente a contradição dessa herança que lhe interessa.

“Mar Salgado fala de encontros, imposições, perdas, permanências e transformações. A história não pode ser desfeita, mas pode ser revisitada. Podemos olhar novamente para seus fragmentos e decidir o que fazemos com eles no presente.”

A cerâmica funciona, nesse contexto, não apenas como suporte, mas como parte da narrativa. Argila, porcelana e faiança recebem marcas, são submetidas ao fogo, deformam-se, fragmentam-se e se transformam — processo que Flavia aproxima da própria formação de uma cultura.

“A cerâmica é quase inevitável para esse trabalho porque ela própria é memória. A argila recebe marcas, guarda impressões, passa pelo fogo, transforma-se e nunca retorna exatamente ao estado anterior.”

O título Mar Salgado estabelece ainda um diálogo com o imaginário português e com Fernando Pessoa. Se no poeta o sal aparece associado às lágrimas, Flavia amplia essa imagem: “O sal preserva, mas também corrói. Ele permanece sobre a pele. De alguma maneira, somos todos marcados pelas histórias que nos antecederam.”

Do mundo para o Brasil

As experiências de Flavia em diferentes países também ajudaram a aprofundar seu interesse pela identidade brasileira. O contato com outras tradições cerâmicas fez com que voltasse o olhar para os saberes, materiais, cultura popular e matrizes indígenas do Brasil.

“Viajar fez com que eu entendesse melhor o Brasil. Quando estamos dentro da nossa própria cultura, muitas coisas parecem naturais. É quando nos afastamos que começamos a perceber aquilo que realmente nos constitui”, afirma.

Em Mar Salgado, a artista reúne pesquisas desenvolvidas ao longo dos últimos anos, entre elas técnicas de impressão e transferência de imagens para a cerâmica. Desta vez, porém, a matéria assume um protagonismo ainda maior: sua organização, sobreposição, deformação, ruptura e até desaparecimento também constroem a narrativa.

“A técnica continua fundamental para mim, mas cada vez mais como meio, nunca como finalidade. Hoje me interessa pensar a cerâmica como linguagem, como instalação, como experiência e como possibilidade de provocar perguntas.”

Para Flavia, o trabalho também marca um movimento em sua própria trajetória. “Não sei se considero Mar Salgado uma chegada. Prefiro pensar que seja uma nova travessia. E, como acontece com o próprio mar, ainda não sei exatamente em que margem ela vai me deixar.”

SERVIÇO
Mar Salgado — Flavia Pircher
Curadoria: Paoletti Avelar
Abertura: 7 de outubro de 2026, às 17h
Local: LUFAPO HUB — Coimbra, Portugal
Visitação: segunda a sábado, das 10h às 17h. 

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