O texto de Nelson Rodrigues é trágico, emocionante, crítico, denunciador, reflexivo e antimachista. Opõe-se à valorização extrema do dinheiro, questiona as verdades absolutas e aquelas apresentadas como inquestionáveis, valoriza as versões, ataca a imprensa sensacionalista e permanece contemporâneo.

Narra a história do bicheiro Boca de Ouro, uma figura mítica pertencente ao mundo da contravenção — o “Drácula de Madureira”, como propagandeava a imprensa. A partir do olhar de Dona Guigui, ex-amante de Boca e procurada pela imprensa após o assassinato dele, conhecemos uma revisão do personagem em três narrativas, construídas a partir de um crime cometido pelo próprio contraventor. Os relatos oscilam segundo a disposição emocional de Dona Guigui.

O espectador é, então, apresentado a três versões da mesma passagem na história do contraventor. Com isso, a força da “tragédia carioca” concentra-se na incerteza sobre quem ele é, pois não há um relato único. O retrato de Boca de Ouro é construído a partir de diversos fragmentos, cada um apresentando uma narrativa própria e distinta, não havendo espaço para verdades absolutas.

O texto deixa transparecer que não há verdades absolutas e inquestionáveis. O que há são versões, diversos pontos de vista e narrativas distintas, o que constitui uma crítica mordaz à imprensa sensacionalista.

O texto apresenta ainda uma crítica mordaz, que soa bastante atual, ao poder do dinheiro em nossa sociedade, capaz de corromper e destruir os valores éticos e morais. Ao redor do personagem Boca de Ouro gravita uma série de personagens simples e humildes, das regiões periféricas da cidade, que acabam submetidas ao contraventor em função de seu poder econômico. Ele submete e corrompe!

A montagem de Boca de Ouro apresenta diferentes versões de uma mesma história e questiona a existência de verdades absolutas, em uma crítica à imprensa sensacionalista e ao poder do dinheiro. — Foto: Claudia Ribeiro / Divulgação

O elenco é integrado por Tuca Andrada, Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches. Eles estão unidos, entrosados, ajustados, pulsantes e vibrantes. Atuam com interpretações refinadas e emocionam. Dominam o texto, transmitindo-o com clareza e utilizando uma linguagem acessível e assimilável. Também apresentam boa retórica. Dominam o palco, movimentando-se intensamente e preenchendo todos os espaços. Apresentam boa empatia com o público. Portanto, oferecem atuações de qualidade e comoventes.

No equilibrado e competente elenco, Tuca Andrada empresta nuances bem-vindas ao protagonista, deixando transparecer cinismo e arrogância, além da malandragem de todo bom bicheiro. Ele tem dinheiro e quer comprar tudo e todos.

Também se destacam Ana Velloso (Dona Guigui) e o casal Gustavo Wabner (Leleco) e Maria Clara Aquino (Celeste), que atuam com mérito e conferem um aspecto bem rodriguiano às suas interpretações.

A direção de Sergio Módena é potente, ousada, cuidadosa, competente, acertada e sensível, com marcações precisas que deixam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.

Os figurinos criados por Karen Brusttolin são de bom gosto, apresentam uso correto das cores, são adequados, bem solucionados e confeccionados, além de facilitarem a locomoção dos atores pelo palco.

A cenografia criada por Aurora dos Campos é clean, criativa e apresenta os elementos bem dispostos pelo palco. Cadeiras, mesas e macas são móveis e mudam constantemente de posição, deixando transparecer a movimentação do espaço cênico.

A iluminação de Tomás Ribas apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do elenco. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando a atuação dos atores e atrizes.

A trilha sonora, composta por Guilherme Gila, é funcional e adequada e busca “explorar o conflito, a temperatura emocional, e por vezes o tom melodramático das cenas”, segundo as palavras presentes no release da peça enviado pela assessoria de imprensa.

A nosso ver, a cena de abertura, que se passa em um consultório odontológico, inicia muito bem o espetáculo ao apresentar o protagonista e sua obsessão por ouro, dentes e pelo caixão que terá quando falecer.

Boca de Ouro é um texto crítico e reflexivo que apresenta diversas versões sobre um personagem, e não um ponto de vista único e inquestionável. A peça também faz uma crítica ao poder do dinheiro, que confere poder a quem o possui e corrompe a sociedade. Soma-se a isso um elenco de qualidade e uma direção competente e precisa.

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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