Regente titular do Coral Paulistano, do Theatro Municipal de São Paulo, Maíra Ferreira foi uma das monitoras artísticas da 15ª edição da Ciclovia Musical, idealizada pela premiada diretora Giane Martins e realizada em 30 de agosto, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. À frente de um dos mais importantes coros do país, Maíra levou ao evento sua experiência como regente e sua paixão pela música de concerto — e também por uma cidade que pode ser descoberta de bicicleta, entre patrimônios históricos e experiências culturais.

Durante a programação, cerca de 350 ciclistas participaram dos roteiros guiados, percorrendo cinco espaços culturais do Ipiranga, onde acompanharam concertos gratuitos. Em cada parada, Maíra conversava com o público, apresentava aspectos das obras e contextualizava os concertos, criando pontes entre os músicos, o repertório e espectadores com diferentes níveis de familiaridade com a música de concerto. Formada em piano erudito pelo Conservatório de Tatuí e pela Unicamp, onde também cursou Regência Plena, Maíra concluiu mestrado em Regência Coral nos Estados Unidos, sob orientação dos maestros Eric Stark e Henry Legge. Na entrevista, fala sobre a importância de democratizar o acesso à música de concerto, sua trajetória na regência, o trabalho à frente do Coral Paulistano e o desejo de valorizar cada vez mais a produção musical contemporânea, especialmente a brasileira.

Chico Vartulli – Qual é a relevância de um evento como a Ciclovia Musical para a música de concerto?

Maíra Ferreira – Um evento como a Ciclovia Musical é muito interessante para a formação de público e para a divulgação dessa música de concerto, porque ela acessibiliza. Normalmente, a música de concerto está associada às salas de concerto. Nesse caso, não só os espaços onde essa música é apresentada são outros, como também a maneira como você acessa, por meio de um evento mais informal, em que você está vestindo uma roupa esportiva. Então, para mim, essa é a grande, ou a maior, importância para se conseguir novos públicos.

Maíra Ferreira durante apresentação. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Qual é a importância da Ciclovia Musical para a popularização da música?

Maíra Ferreira – Mais uma vez, corroborando o que eu disse na resposta da primeira pergunta, eu não diria a popularização da música, mas acho que o acesso à música de concerto, que é uma música dita mais séria, feita num ambiente mais formal. A Ciclovia Musical vem também para mudar a imagem de formalidade da música de concerto. O evento abre portas para as pessoas frequentarem outros espaços. E, quando se trata da primeira experiência de alguém com música erudita, que o evento seja a porta de entrada para isso.

Chico Vartulli – Quais têm sido as suas principais atividades no cargo de maestra titular do Coral Paulistano, do Theatro Municipal de São Paulo?

Maíra Ferreira – Como regente titular do Coral Paulistano, eu cuido da parte artística, da escolha da temporada e das músicas do repertório. Estou em todos os ensaios, preparando os cantores e regendo nos concertos, seja no palco do Theatro Municipal, na sala do conservatório ou em outros espaços. Claro que eu divido isso com a assistente Isabela Siscari, mas eu cuido de toda a parte artística, da parte administrativa e da gestão de pessoas.

Chico Vartulli – Quando surgiu o seu interesse pela música?

Maíra Ferreira – Eu venho de uma casa que é muito musical. Meu pai é músico, então, desde muito pequena, sempre teve muita música na minha casa. Meu pai sempre nos estimulou. Minha mãe não é musicista, mas sempre me estimulou também.

Eu e minha irmã seguimos a carreira da música, estamos na música até hoje. Comecei muito nova, tendo aulas de piano, depois entrei na faculdade de piano, na Unicamp, fiz piano, depois regência, mestrado em regência e sigo, desde muito jovem, tocando e regendo.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação?

Maíra Ferreira – A minha formação é em piano erudito. Eu comecei a estudar piano muito nova. Aos 5 anos, fiz o Conservatório de Tatuí, no interior de São Paulo, que é um conservatório superimportante. Ingressei na Unicamp, no bacharelado em piano, depois, na própria Unicamp, entrei no curso de Regência Plena, que é a regência coral e orquestral. Concluí minha formação em 2013 e fui para os Estados Unidos fazer mestrado em Regência Coral, com duas figuras superimportantes, Eric Stark e Henry Legge, dois maestros renomados por lá.

Maíra Ferreira à frente do Coral Paulistano, do Theatro Municipal de São Paulo. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Quais são as suas principais referências, teóricas e práticas, no campo da música?

Maíra Ferreira – As minhas principais referências são as pessoas com quem trabalhei e que conheci de perto. Com certeza, a principal delas é Naomi Munakata, uma maestra muito importante para todos nós aqui, uma regente coral de extrema relevância e, creio, uma das mais importantes do Brasil nos últimos anos.

Infelizmente, Naomi faleceu no comecinho da pandemia. Eu fui assistente dela no Theatro Municipal e foi assim que comecei no Coral Paulistano. Sinto muita falta dela. Ela é muito presente nas escolhas musicais que faço todos os dias.

Chico Vartulli – Quais são os seus compositores preferidos?

Maíra Ferreira – Os meus compositores preferidos são sempre aqueles com quem eu estou trabalhando no momento. Eu não consigo responder a essa pergunta porque eu seria injusta. Agora, por exemplo, estamos apresentando György Ligeti no Theatro Municipal de São Paulo e posso dizer que Ligeti é o meu compositor preferido do momento. Junto a isso, vou reger uma ópera da compositora Juliana Ripke, que conta a história de Conceição Evaristo, com textos da própria Conceição Evaristo. Então, Juliana Ripke também está entre as minhas compositoras preferidas.

Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?

Maíra Ferreira – Os meus planos para o futuro, com certeza, se relacionam com essa música vocal com a qual eu trabalho, tanto a música coral como a ópera e também a música sinfônica. Tenho atuado muito com coros e também com ópera. Eu quero seguir fazendo isso e quero ter a oportunidade de trazer novos compositores e novas compositoras, apresentar a música dos compositores e compositoras de agora, sempre respeitando a tradição, o passado, os gênios que vieram antes, mas, sem sombra de dúvida, valorizar a música que está sendo feita hoje, sobretudo a música brasileira.

Compartilhar.

Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

Adicione um comentário
Você precisa fazer o para publicar um comentário.