O texto de Augusto Boal, com dramaturgismo de Wellington Junior, evidencia a classe trabalhadora; expõe o conflito de classes: operários versus patrões; fala dos excluídos, dos humildes, das pessoas simples; denuncia a fome; apresenta a proposta da revolução como solução para o fim das injustiças sociais; mescla momentos trágicos com outros de bom humor e cômicos; é musicado, crítico, irônico e irreverente; parte de uma obra escrita em 1960, mas apresenta questões que permanecem centrais na sociedade contemporânea.

O texto é datado da década de 1960 e apresenta as questões sobre as quais a geração que viveu naqueles anos pensou e refletiu. Boal desejava criar uma dramaturgia nacional própria, que refletisse sobre os problemas da sociedade brasileira, como a fome, a exploração dos trabalhadores e a revolução como um movimento transformador profundo, solucionador dos males que existiam em nossa sociedade. Era o contexto da Guerra Fria, e Cuba, país vizinho, tinha realizado a sua revolução e aderido ao socialismo. Inspiração para os nossos homens e mulheres que viviam no Cone Sul.

O tempo passou, a sociedade brasileira passou por mudanças consideráveis, mas há situações que permanecem. E a adaptação realizada pelo elenco, Maria Azevedo e Wellington Junior trouxe atualizações ao texto, sem desrespeitá-lo. A fome continua existindo. Ainda visualizamos homens e mulheres catando comida nas latas de lixo! Por sua vez, os trabalhadores obtiveram várias conquistas, mas ainda há bandeiras de lutas a serem obtidas. A precarização das relações de trabalho é uma questão que está na pauta do dia, sobretudo o mercado de trabalho oferecido pelos aplicativos de entrega, uma realidade precária. As manipulações políticas ainda insistem em se fazer presentes. As continuidades mantêm o texto atual.

O elenco está entrosado, afinado, pulsante, vibrante e comovente. Ele é integrado por Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis. Eles interpretam de forma refinada e emocionam. Cantam e interpretam as canções com entonação e afinação, bem como tocam instrumentos de percussão. Dominam o texto, passando-o por meio de uma linguagem acessível e apresentando uma boa retórica. Dominam o palco, movimentando-se ilimitadamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público, dialogando e interagindo com ele em diversos momentos do espetáculo. Portanto, uma atuação de qualidade e digna de aplausos.

Elenco de Revolução na América do Sul durante apresentação do espetáculo, que revisita o texto de Augusto Boal. — Foto: Josélia Frasão / Divulgação

A direção de Wellington Fagner é dedicada, ousada, autêntica e irreverente, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.

Os figurinos criados por Lara Bezerra são simples, com roupas de operários em tons terrosos, bege, azul e cinza, adequados ao contexto do texto e que facilitam a movimentação dos atores pelo palco. O elenco utiliza, na cabeça, cascos de tartaruga.

O figurino do “anjo da guarda” é criativo e expressa comicidade.

A cenografia criada por Sofia Magalhães é criativa, original, utiliza materiais alternativos, como caixotes de madeira, e, nas paredes, há pedaços de papelão com expressões de luta e resistência.

As letras e canções criadas por Francisco de Assis são atuais, falam sobre os trabalhadores e complementam a narrativa do texto.

A direção musical de Vinícius Mousinho atualizou arranjos e sonoridades, dando um tom e um ritmo mais atuais às canções. Música e crítica estão associadas.

A iluminação de Ricardo Rocha é boa! Apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas do elenco.

Revolução na América do Sul é um texto datado da década de 1960, que apresenta temas e questões que estavam sendo discutidos naquele momento e se revelam extremamente atuais; um elenco com atuação de mérito e comovente; e canções que complementam o texto e deixam transparecer música e crítica.

Excelente produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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