A empresária cultural Elis Valadares compartilha, nesta entrevista, os caminhos que levaram à criação da Casa 70 e sua proposta inovadora no cenário artístico. A conversa aborda a construção de um espaço que integra arte, convivência e experiências sensoriais, aproximando público, artistas e mercado. Elis também comenta sua trajetória profissional, incluindo a atuação em projetos de grande relevância no circuito das artes. A exposição “Eclosão” surge como ponto de partida para refletir sobre novos ciclos e transformações. Ao longo da entrevista, são discutidos ainda os desafios e as perspectivas para o setor cultural. Por fim, a gestora revela seus planos futuros e a expansão do projeto para além do espaço físico.
Chico Vartulli – Olá, Elis! Como se deu o processo de criação da Casa 70?
Elis Valadares – A Casa 70 nasce do desejo de criar um espaço onde arte, cultura e encontros aconteçam de forma orgânica. Ao longo da minha trajetória, senti falta de um lugar que fosse além do modelo tradicional de galeria — um ambiente vivo, em constante ativação. A ideia foi justamente ocupar uma casa com identidade e transformá-la em um polo cultural contemporâneo, capaz de aproximar artistas, público e mercado de maneira mais sensorial e conectada.
Chico Vartulli – Qual é o fim principal da Casa 70?
Elis Valadares – A Casa 70 tem como propósito fomentar a arte contemporânea e criar conexões reais entre artistas, público e colecionadores. Mais do que expor, buscamos formar público, gerar convivência e ampliar a experiência da arte como algo acessível, próximo e integrado ao cotidiano.
Chico Vartulli – Quais são as atividades principais que são realizadas no espaço?
Elis Valadares – A Casa 70 se estrutura como uma plataforma multidisciplinar que integra galeria de arte contemporânea, café-bistrô e empório de vinhos de pequenos produtores. O espaço abriga residências artísticas, collabs com marcas autorais de moda e design e uma programação contínua de exposições, performances e eventos — próprios e em parceria. Também idealizamos a Artweek, circuito de arte da Gávea, que conecta diferentes espaços, artistas e público.
Chico Vartulli – O que você poderia nos adiantar sobre o conteúdo da exposição Eclosão?
Elis Valadares – “Eclosão” parte da ideia de ruptura, nascimento e transformação. A exposição reúne artistas que investigam processos de emergência em diferentes camadas — do íntimo ao coletivo. A ocupação da casa é imersiva e simbólica, marcando não apenas uma mostra, mas o início de um novo ciclo para a Casa70.
Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como empresária cultural?
Elis Valadares – Desde o início da minha trajetória, enxerguei o mercado de arte como um território de conexão — entre pessoas, ideias e possibilidades de negócio. Transformei a galeria da minha família em um espaço contemporâneo, com atuação em feiras e um olhar voltado à construção de novos artistas. A criação da ARTRIO, a maior feira de arte da América Latina, foi um ponto de inflexão na minha carreira. Mais do que um projeto de escala, foi uma experiência que ampliou minha visão sobre o papel estruturante da arte no mercado e na sociedade. Ampliei esse percurso no exterior, vivendo em Portugal por cinco anos e meio, onde desenvolvi a Casa 70 Lisboa e a inseri no circuito europeu, conectando artistas, colecionadores e instituições. De volta ao Brasil, após dois anos de projetos itinerantes, retorno ao Rio com a abertura de uma galeria-conceito — um espaço que sintetiza essa trajetória e projeta novos desdobramentos.
Chico Vartulli – Qual é o conceito de cultura que você partilha e aplica ao funcionamento da Casa 70?
Elis Valadares – Acredito em uma cultura viva, em movimento, que se constrói no encontro. Na Casa 70, isso se traduz em um espaço aberto, onde diferentes linguagens convivem e onde a arte deixa de ser distante para se tornar experiência.
Chico Vartulli – A Casa 70 está situada na Gávea. Por que você escolheu o bairro como sede do espaço?
Elis Valadares – A Gávea reúne uma combinação rara entre vocação cultural e atmosfera de bairro. Existe ali uma proximidade que favorece experiências mais autorais e uma circulação qualificada de público. Além disso, a casa foi decisiva — um espaço com identidade, que permitiu materializar exatamente o conceito da Casa 70.
Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?
Elis Valadares – O foco agora é consolidar a Casa 70 como um polo cultural relevante no Rio de Janeiro, fortalecendo sua programação e ampliando conexões. Ao mesmo tempo, penso a Casa 70 para além do espaço físico, com projetos itinerantes, novas parcerias e desdobramentos que mantenham o projeto em constante movimento.
Fotos: Vera Donato




